Lula e Macron discutem Conselho de Paz para Gaza e impasse do acordo Mercosul-UE
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversa por telefone com Emmanuel Macron nesta terça-feira (27) para discutir a criação de um Conselho de Paz para Gaza, a crise política na Venezuela e o impasse nas negociações do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. A ligação busca combinar pressões diplomáticas e abrir espaço para que Brasil e França atuem de forma coordenada em três frentes sensíveis da agenda internacional.
Gaza no centro da agenda e cálculo diplomático
A proposta de um Conselho de Paz para Gaza nasce em meio a mais de um ano de escalada militar na Faixa, com sucessivas ofensivas, interrupções frágeis de cessar-fogo e uma crise humanitária que atinge mais de 2 milhões de palestinos. Lula tenta transformar o discurso em iniciativa concreta, oferecendo o Brasil como articulador de um mecanismo com participação de países árabes, europeus e latino-americanos, sob guarda-chuva da ONU.
No Planalto, auxiliares veem a conversa com Macron como passo decisivo para dar lastro político à ideia, que ainda está em fase embrionária. A leitura é que, sem ao menos um grande país europeu por perto, a proposta tende a ficar restrita a comunicados oficiais. Com Paris a bordo, Lula espera disputar espaço em um debate hoje dominado por Estados Unidos e potências regionais do Oriente Médio, que nem sempre convergem sobre o fim do conflito.
Macron se apresenta como aliado natural nesse terreno. Desde o início da atual rodada de violência em Gaza, o presidente francês alterna críticas à devastação causada por Israel e defesa do direito à segurança do país, tentando se colocar como ponte entre capitais árabes e governos ocidentais. Assessores brasileiros enxergam aí uma janela para um acordo mínimo: pressionar por cessar-fogo duradouro, aumento imediato da ajuda humanitária e esboço de um arranjo político que retome a discussão de um Estado palestino.
Nos bastidores, diplomatas falam em um colegiado de países com mandatos específicos, prazos definidos e capacidade de mediar negociações diretas entre representantes israelenses e palestinos. Não há desenho fechado, nem número de integrantes, mas o ponto de partida inclui membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, vizinhos regionais e atores com histórico de mediação, como Noruega e Catar. O Brasil tenta garantir assento nesse núcleo, ancorado em sua presença atual no Conselho de Segurança e no discurso de Lula sobre a necessidade de reformar a governança global.
Venezuela, Mercosul e a resistência francesa ao acordo
A pauta da Venezuela surge no telefonema como teste imediato para a coordenação entre Brasil e França. O país vive nova rodada de contestação ao governo de Nicolás Maduro, com denúncias de intimidação a opositores, prisões arbitrárias e questionamentos à lisura do calendário eleitoral. A França acompanha a situação pelo ângulo dos direitos humanos e pela pressão de países vizinhos do Caribe, enquanto o Brasil tenta equilibrar defesa da democracia e preservação de canais de diálogo com Caracas.
Lula insiste em que a solução para a crise precisa ser negociada dentro da região, com protagonismo de governos latino-americanos e aval europeu. A expectativa em Brasília é que Macron ajude a construir uma resposta conjunta que combine vigilância internacional, exigência de garantias eleitorais mínimas e recusa a medidas de isolamento econômico amplo, consideradas ineficazes pela diplomacia brasileira. O cálculo é delicado: qualquer movimento mais duro de Paris pode repercutir nas conversas sobre o acordo Mercosul-União Europeia.
As negociações comerciais se arrastam há mais de duas décadas e chegam a 2026 sob forte resistência de setores agrícolas e industriais europeus, com a França na linha de frente. Organizações de produtores rurais pressionam o governo francês a bloquear a ratificação do acordo, alegando risco de concorrência desleal de carnes, grãos e derivados vindos do Mercosul, em especial do Brasil. Ambientalistas cobram cláusulas mais rígidas de proteção florestal, com monitoramento anual de desmatamento na Amazônia e metas vinculantes até 2030.
No lado brasileiro, o Itamaraty calcula que o acordo pode abrir um mercado de mais de 440 milhões de consumidores europeus para produtos industrializados, serviços e tecnologia, além de consolidar tarifas mais baixas para o agronegócio. Estudos internos citados por negociadores projetam ganhos adicionais de exportação na casa de US$ 10 bilhões em dez anos, se as barreiras não tarifárias forem reduzidas. O problema central segue em Paris: Macron enfrenta pressão de um eleitorado rural sensível a qualquer aceno de maior abertura comercial.
A ligação com Lula ocorre nesse contexto de impasse. O governo brasileiro tenta convencer a França de que o texto pode ser ajustado para incluir garantias ambientais e sociais mais detalhadas, sem transformar o acordo em um pacote de punições automáticas. A mensagem que parte de Brasília é direta: sem um aceno da França, dificilmente o acordo avança até o fim de 2026, prazo informal com o qual trabalham diplomatas do bloco sul-americano para evitar que o tema se arraste por mais uma década.
O que muda para o Brasil e os próximos passos
A aproximação entre Lula e Macron tem efeito imediato sobre a imagem externa do Brasil. Depois de anos de afastamento em fóruns multilaterais, o governo tenta se recolocar como mediador disposto a assumir riscos políticos em temas de alta sensibilidade, como Gaza e Venezuela. Esse movimento reforça a estratégia de diversificar parcerias, sem se alinhar automaticamente a Washington, Bruxelas ou Pequim.
Na prática, a criação de um Conselho de Paz para Gaza só ganha corpo se a proposta for levada rapidamente a instâncias formais da ONU, com minuta de mandato e cronograma definido. Em Brasília, auxiliares falam em um horizonte de semanas para testar a receptividade em capitais-chave, como Paris, Berlim e Cairo. A expectativa é chegar ao meio do ano com ao menos um esboço de grupo de contato, ainda que em formato informal, capaz de coordenar pedidos de cessar-fogo, liberação de reféns e entrada de comboios humanitários.
Sobre a Venezuela, a convergência entre Brasil e França pode resultar em uma frente de pressão combinada com ofertas concretas de cooperação econômica e observação internacional de eleições. O foco é evitar uma nova onda migratória na região, que já passa de 7 milhões de venezuelanos deslocados segundo organismos multilaterais, número que pressiona sistemas de saúde, educação e trabalho em países vizinhos, inclusive no Norte do Brasil.
No campo comercial, o saldo da conversa desta terça-feira tende a ser mais discreto, mas politicamente relevante. Um compromisso de Macron de manter o diálogo sobre o acordo Mercosul-União Europeia aberto, mesmo sob pressão interna, seria visto em Brasília como sinal de que o entendimento ainda é possível. Sem esse gesto, cresce o risco de que países do bloco sul-americano busquem alternativas bilaterais ou aproximem-se mais de acordos com China e países asiáticos, esvaziando o peso estratégico de Bruxelas na região.
O telefonema desta semana não resolve, sozinho, nenhuma das três crises na pauta. Define, porém, a disposição de Lula e Macron de atuar em conjunto num cenário em que a fragmentação internacional aumenta e soluções coletivas se tornam mais raras. A partir de agora, a dúvida central é se o alinhamento político entre os dois presidentes será suficiente para superar resistências internas, interesses econômicos conflitantes e o cansaço de uma opinião pública cada vez mais cética em relação a grandes promessas diplomáticas.
