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Morte de enfermeiro por agentes do ICE expõe desgaste da política de Trump

O enfermeiro Alex Pretti, 37, morre baleado por agentes federais do ICE em Minneapolis na manhã de sábado (24/1). Em menos de 24 horas, vídeos desmentem a versão oficial, forçam recuo do governo Donald Trump e transformam o caso em teste político para a estratégia migratória da Casa Branca em 2026.

Vídeos desmentem governo e aceleram virada de discurso

As primeiras horas após o tiroteio seguem um roteiro conhecido em Washington. A máquina de comunicação do governo Trump entra em ação ainda no sábado e tenta enquadrar Pretti como ameaça extrema. A secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirma que ele queria “causar danos” e estaria “empunhando” uma arma. O principal conselheiro presidencial, Stephen Miller, o chama de “aspirante a assassino”.

A narrativa começa a ruir no fim da noite, quando vídeos gravados por celulares se espalham pelas redes sociais. As imagens mostram Pretti filmando agentes do ICE, ajudando uma mulher empurrada ao chão e sendo atingido por spray de pimenta antes de cair. Em nenhum dos sete registros analisados pelo BBC Verify ele aparece armado no momento em que é imobilizado e alvejado.

A discrepância entre os relatos oficiais e o que o público vê na tela provoca reação imediata. Em menos de 24 horas, autoridades locais e testemunhas contestam a versão da Segurança Interna. O chefe da Polícia de Minneapolis, Brian O’Hara, afirma que “as pessoas não aguentam mais” e lembra que sua corporação prendeu centenas de infratores violentos no último ano sem recorrer a disparos. “Isso não é sustentável”, declara.

No domingo (25/1), a família de Pretti divulga nota dura. “As mentiras repugnantes contadas sobre nosso filho pelo governo são repreensíveis e nojentas”, dizem os pais, que pedem uma investigação independente e acesso integral às imagens das câmeras corporais dos agentes federais.

O próprio governo começa a recuar. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, evita repetir as acusações de Miller e promete “investigação completa”. No dia seguinte, o vice-procurador-geral, Todd Blanche, descreve a situação como um “barril de pólvora” político, ainda que tente atribuir a responsabilidade do clima de tensão aos democratas.

Pressão pública, racha republicano e ameaça de paralisação

A mudança de tom não vem apenas da rua. Dentro do Partido Republicano, cresce o incômodo com a escalada de violência ligada às operações migratórias federais em Minneapolis. Três semanas antes, agentes do ICE matam a tiros Renee Good, outra moradora da cidade. Também naquele caso o governo a classifica como terrorista, acusando-a de usar o carro como arma. Autoridades locais contestam a versão.

O governador republicano de Vermont, Phil Scott, chama a atuação federal em Minnesota de “fracasso completo de coordenação” em segurança pública e treinamento. Em tom mais duro, fala em “intimidação federal deliberada” e “incitação de cidadãos americanos”. O senador por Utah John Curtis critica a declaração “prematura” de Kristi Noem, “antes de todos os fatos serem conhecidos”, e diz que isso enfraquece a confiança na missão das forças de segurança.

Diante da repercussão, Trump começa a se distanciar das falas mais agressivas. Na segunda-feira (26/1), em conversa com repórteres em frente à Casa Branca, ele nega ver Pretti como “assassino”. No dia seguinte, em Iowa, afirma não ter ouvido ninguém chamá-lo de “terrorista doméstico”, embora repita que “não gosta do fato de ele estar armado”. Ao mesmo tempo, admite que o episódio em Minneapolis é “um incidente muito lamentável” e classifica, em entrevista à Fox News, as mortes de Renee Good e Alex Pretti como “terríveis”.

Os dados ajudam a explicar a cautela. Pesquisa da rede CBS feita antes do tiroteio de sábado mostra que 61% dos entrevistados acreditam que o ICE age com “dureza excessiva” ao abordar e deter pessoas. Outros 58% desaprovam a condução geral da política migratória do governo. A ofensiva na fronteira, central para a campanha de Trump em 2024 e para sua permanência no poder, começa a encontrar resistência mais ampla.

No Congresso, democratas tentam transformar essa rejeição em pressão concreta. Senadores do partido anunciam que vão barrar qualquer projeto que amplie recursos para o Departamento de Segurança Interna (DHS), ao qual o ICE está subordinado. O bloqueio pode provocar uma nova paralisação parcial do governo já na sexta-feira (30/1), menos de quatro meses após o último shutdown por disputa em torno de subsídios de saúde.

O senador Brian Schatz, do Havaí, sintetiza a estratégia. “Vou votar contra qualquer financiamento para o DHS até que controles adicionais sejam implementados para responsabilizar o ICE”, diz. Para ele, os episódios recentes de violência “são ilegais, desnecessariamente escalonados e tornam todos nós menos seguros”. A aposta, porém, carrega risco político, já que democratas costumam aparecer em desvantagem nas pesquisas quando o tema é segurança pública e imigração.

Envio de ‘czar da fronteira’ e disputa pelo controle da narrativa

Enquanto tenta conter danos, Trump se move para não parecer recuar de sua agenda de deportações em massa. Na manhã de segunda-feira, anuncia o envio de Tom Homan, apelidado de “czar da fronteira”, para liderar a coordenação federal em Minnesota. “Tom é duro, mas justo, e se reportará diretamente a mim”, escreve o presidente em sua rede Truth Social, ao chamar a morte de Pretti de “trágica” e atribuir o caos ao “desgoverno democrata”. A mensagem é ecoada pelo vice-presidente, JD Vance.

Homan já comandou deportações durante o governo Barack Obama e é visto entre republicanos como operador disciplinado, menos dado a declarações inflamadas do que Kristi Noem e Gregory Bovino, chefe da Patrulha da Fronteira. Sua presença em Minneapolis é lida por aliados e críticos como tentativa de profissionalizar a linha de frente e reduzir o ruído no discurso, sem necessariamente alterar a substância da política migratória.

O procurador-geral de Minnesota, Keith Ellison, enxerga na nomeação uma brecha para algum diálogo. “Não quero descartar a possibilidade de que posições razoáveis prevaleçam”, diz. Ao mesmo tempo, lembra que “estamos exatamente aqui porque o governo federal adotou posições injustificáveis”. Governador do Estado, o democrata Tim Walz relata ter tido uma “ligação muito boa” com Trump. Segundo o presidente, os dois “parecem estar em sintonia” sobre a necessidade de reduzir tensões em Minneapolis.

As cenas que circulam desde sábado mostram o tamanho do desafio. Pretti aparece como cidadão comum que registra uma operação do ICE com o celular, intervém para amparar uma mulher caída e, segundos depois, está no chão, alvejado. O DHS sustenta que ele portava uma pistola semiautomática 9 mm e dois carregadores, informação confirmada pela polícia, que o descreve como proprietário legal da arma. Em Minnesota, a lei permite porte velado mediante autorização. A distância entre o direito previsto em lei e a decisão de atirar está no centro do debate.

A morte do enfermeiro, somada à de Renee Good, cristaliza um clima de desgaste em torno da estratégia de endurecimento máximo na fronteira e no interior do país. Para defensores de direitos civis, o caso expõe como a retórica de “inimigo interno” alimenta abordagens letais em cenários de controle migratório. Para apoiadores de Trump, recuar agora significaria dar munição à oposição em pleno ano eleitoral.

Com audiências públicas sobre o ICE prometidas por presidentes das comissões de segurança interna na Câmara e no Senado, e com o risco concreto de uma nova paralisação do governo, Washington entra na última semana de janeiro em modo de crise permanente. O desfecho da investigação sobre a morte de Alex Pretti, em Minneapolis, vai definir não apenas o destino dos agentes envolvidos, mas também até onde o governo Trump está disposto a ir para sustentar uma política migratória contestada pela opinião pública e por parte do próprio Partido Republicano.

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