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Ataque brutal a cães em SC expõe falhas na proteção animal

Dois cães são atacados a pauladas e tentativas de afogamento por adolescentes em Santa Catarina, em 27 de janeiro de 2026. Um deles, Caramelo, sobrevive e é adotado por um delegado da Polícia Civil, que transforma o caso em bandeira contra maus-tratos a animais.

Violência em plena luz do dia choca bairro e mobiliza polícia

O ataque começa numa tarde de segunda-feira, em uma área residencial de Santa Catarina, e rapidamente se espalha pelos celulares dos moradores. As imagens mostram o cão Orelha sendo arrastado até a beira de um curso d’água enquanto leva chutes e pancadas, em uma tentativa de afogamento. Caramelo, menor e mais dócil, aparece tentando fugir, mas também é cercado e agredido.

Os principais suspeitos são adolescentes, com idades entre 14 e 17 anos, identificados por imagens de câmeras e testemunhas ouvidas ao longo da noite na delegacia local. A Polícia Civil confirma o registro do caso como crime de maus-tratos a animais domésticos, previsto na Lei 9.605, que prevê pena de até 5 anos de prisão quando há morte do animal. A condição de Orelha é tratada com reserva, enquanto Caramelo recebe atendimento emergencial em uma clínica veterinária particular.

Moradores entram em choque. Em menos de 2 horas, um vídeo de 40 segundos circula em ao menos três grupos de bairro e alcança centenas de pessoas, segundo levantamento informal feito por lideranças comunitárias. Na mesma noite, mais de 30 denúncias são encaminhadas ao canal da ouvidoria municipal e à Polícia Civil, exigindo a responsabilização dos envolvidos.

O delegado que assume o plantão, integrante da cúpula da Polícia Civil de Santa Catarina, acompanha o resgate e a chegada de Caramelo à clínica. No fim da noite, decide adotá-lo. O gesto, inicialmente discreto, vaza em uma foto publicada por um policial em um grupo interno. Em poucas horas, a imagem de Caramelo com um curativo na cabeça e o delegado ao lado percorre perfis locais no Instagram e em redes de protetores de animais.

Comoção vira pressão por respostas e escancara fragilidades

O caso imediatamente desperta uma sensação de ruptura na rotina da vizinhança. Moradores relatam medo e indignação ao saber que adolescentes do próprio bairro estariam por trás da agressão. “Se fazem isso com um cachorro hoje, o que podem fazer amanhã?”, questiona uma moradora de 52 anos, que pede para não ser identificada por receio de retaliações.

Santa Catarina tem, desde 2020, leis estaduais que reforçam a proteção de animais domésticos e preveem multas administrativas que podem chegar a R$ 20 mil em casos graves. Na prática, porém, a fiscalização depende de equipes pequenas, muitas vezes com menos de cinco servidores atendendo municípios inteiros. Delegados admitem, em reservado, que denúncias de maus-tratos costumam ficar em segundo plano diante de crimes contra a vida humana, furtos e tráfico de drogas.

O envolvimento de adolescentes adiciona uma camada de complexidade. Eles respondem pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê medidas socioeducativas e não prisão em regime comum. Especialistas em direitos da criança defendem acompanhamento psicológico e ações educativas, enquanto movimentos de proteção animal pedem punições mais duras. “Não é só um caso isolado, é sintoma de um problema de educação, empatia e responsabilização”, avalia uma promotora da área da infância, em condição de anonimato.

O delegado que leva Caramelo para casa se torna, em poucos dias, uma figura simbólica no debate. Em conversa com pessoas próximas, ele afirma que a adoção não é ato de marketing, mas consequência do que viu no resgate. “Um cachorro espancado olha para você ainda abanando o rabo. É difícil voltar para casa fingindo que nada aconteceu”, teria dito, segundo relato de um policial que o acompanha na operação.

Entidades de proteção animal cobram que o caso não caia no esquecimento. Em menos de 48 horas, duas ONGs locais organizam abaixo-assinados pedindo a criação de um núcleo especializado de combate a maus-tratos, com equipe dedicada da Polícia Civil e canal direto de denúncias. As petições somam mais de 5 mil assinaturas digitais até o fim da semana, segundo os organizadores.

Investigação em curso e disputa por mudanças estruturais

As investigações seguem sob sigilo, mas a linha de apuração envolve pelo menos três frentes. Policiais confirmam a tentativa de localizar todos os adolescentes que aparecem nos vídeos, identificar quem filma e quem incentiva as agressões e esclarecer se houve tentativa anterior de ataque aos mesmos animais. A motivação permanece em aberto, com hipóteses que vão de “brincadeira” violenta a retaliação por suposto incômodo causado pelos cães.

Autoridades locais discutem a criação de um protocolo unificado para casos de violência contra animais, com prazos definidos de resposta. Em reuniões internas, circula a proposta de que toda denúncia formal seja respondida em até 72 horas, com visita ao local ou coleta de provas digitais. Hoje, esse retorno pode levar semanas, o que desestimula parte dos denunciantes.

O episódio reacende um debate maior sobre como cidades catarinenses lidam com animais domésticos. Estimativas de associações de veterinários apontam que ao menos 30% dos lares no Estado têm um cão, número que cresce nos últimos anos com o aumento de adoções durante e após a pandemia. Ao mesmo tempo, faltam abrigos públicos, centros de esterilização em larga escala e campanhas de educação contra maus-tratos.

Orelha e Caramelo viram, involuntariamente, símbolo dessa disputa. O primeiro, alvo da tentativa de afogamento, representa o limite da violência que a comunidade se recusa a normalizar. O segundo, agora acolhido por um delegado, é apresentado como prova de que a reação institucional pode ir além do boletim de ocorrência. Entre esses dois extremos, permanece a pergunta sobre quantos outros casos seguem invisíveis, sem vídeo, sem denúncia, sem adoção.

O desfecho da investigação deve indicar se os adolescentes serão submetidos a medidas socioeducativas, como prestação de serviços comunitários ou internação provisória, e se as famílias serão responsabilizadas civilmente. A resposta jurídica, porém, não encerra a inquietação que percorre o bairro. Em rodas de conversa, salas de aula e delegacias, a discussão se desloca para uma questão incômoda: que tipo de sociedade forma jovens capazes de transformar um cão indefeso em alvo de crueldade, diante de uma câmera ligada, em plena luz do dia?

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