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Jovem com tatuagem forçada na testa é preso por furto em UBS no ABC

Um jovem de 24 anos, conhecido nacionalmente desde 2017 por ter uma frase tatuada à força na testa, é preso na manhã desta terça-feira (27) após furtar um aparelho de lavagem de alta pressão da UBS Jardim Casa Grande, em São Bernardo do Campo (SP). Ele invade a unidade de saúde por volta das 6h e é detido ao tentar fugir, segundo a Guarda Civil Municipal (GCM).

Furto em unidade de saúde e prisão em flagrante

O caso acontece na zona sul de São Bernardo, em um bairro de perfil popular que depende da UBS para atendimentos de rotina, vacinação e consultas de emergência. O aparelho furtado, usado diariamente na higienização do espaço, é levado da área interna depois que o rapaz pula a grade dos fundos e acessa o prédio ainda fechado ao público.

De acordo com o Boletim de Ocorrência registrado no 3º Distrito Policial da cidade, o jovem circula pela unidade por alguns minutos antes de localizar o equipamento de alta pressão, estimado pela equipe da UBS como essencial para a limpeza de áreas comuns e salas de atendimento. Com o aparelho em mãos, ele volta para a parte externa, pula o muro e tenta escapar pelas ruas próximas.

Agentes da GCM que patrulham a região percebem a movimentação e fazem a abordagem a poucos metros da unidade. Na revista, encontram o equipamento e levam o suspeito de volta à UBS para reconhecimento. Ele admite na hora o furto. Segundo o registro policial, declara que pretende vender o aparelho e usar o dinheiro para comprar drogas.

O homem é levado em seguida ao 3º DP, onde permanece à disposição da Justiça após o flagrante. A polícia informa que ele já tem outras passagens por furto e roubo, o que reforça a suspeita de reincidência. O aparelho é recuperado e devolvido à unidade de saúde ainda na manhã desta terça, permitindo a retomada da rotina de limpeza.

Da tatuagem forçada à dificuldade de recomeçar

O rosto do rapaz entra no noticiário em 2017, quando a frase “eu sou ladrão e vacilão” é tatuada à força em sua testa por dois homens que o acusam de tentar furtar uma bicicleta em São Bernardo do Campo. O vídeo da agressão corre o país em poucas horas, viraliza em redes sociais e provoca uma onda de indignação entre especialistas em direitos humanos.

Na época, o caso gera debate sobre justiça com as próprias mãos, uso da humilhação como punição e os limites da exposição pública. Os dois responsáveis pela tatuagem, um deles tatuador profissional, acabam denunciados e, posteriormente, condenados por lesão corporal gravíssima e constrangimento ilegal. O episódio passa a ser citado em debates acadêmicos e decisões judiciais como exemplo de linchamento moral amplificado pela internet.

Com a repercussão, o jovem recebe apoio financeiro em uma vaquinha online. A mobilização arrecada recursos para parte do tratamento de remoção da tatuagem, que é feito com ajuda de profissionais voluntários. Mesmo assim, a marca nunca desaparece por completo e segue visível em fotografias recentes.

Advogados criminalistas e assistentes sociais ouvidos em ocasiões anteriores apontam que casos como o dele revelam a dificuldade de reinserção no mercado de trabalho formal. A exposição nacional, somada a um histórico de atos infracionais e dependência de drogas, costuma fechar portas em entrevistas de emprego e programas de qualificação profissional. “A tatuagem na testa funciona como um atestado permanente de culpa”, resume um defensor público ouvido pela reportagem em 2018, em outro contexto.

Nas delegacias do ABC paulista, policiais relatam, sob reserva, que histórias de jovens marcados por episódios virais voltando a cometer pequenos furtos se repetem. São casos, dizem, em que a fronteira entre oportunidade perdida, estigma social e falhas na rede de acolhimento quase desaparece.

Segurança pública, drogas e o ciclo de reincidência

O furto na UBS Jardim Casa Grande evidencia uma dinâmica conhecida de quem trabalha na linha de frente da segurança e da saúde pública: o conflito entre o patrimônio público e a sobrevivência imediata de jovens em situação de vulnerabilidade, frequentemente associados ao consumo problemático de drogas. Ao admitir que pretende revender o equipamento para comprar entorpecentes, o rapaz expõe um elo direto entre dependência química e pequenos crimes.

Na prática, um furto que não deixa feridos provoca impacto concreto no serviço. A UBS precisa reorganizar a rotina de limpeza, revisar o controle de acesso ao prédio e lidar com o medo de funcionários e pacientes. Em muitas unidades de atenção básica, furtos repetidos de equipamentos, fios e computadores levam ao fechamento temporário de salas, suspensão de agendas e atrasos em exames.

Especialistas em políticas de drogas defendem que situações como a desta terça-feira reforçam a necessidade de ações integradas. Não basta, argumentam, apenas prender o autor do furto ou reforçar a ronda policial na região. Programas de tratamento para dependentes químicos, encaminhamento para cursos profissionalizantes e acompanhamento psicológico contínuo ainda são raros no ritmo e na escala necessários.

O histórico do jovem ajuda a ilustrar o ponto. Em menos de dez anos, ele sai da condição de vítima de um crime amplamente divulgado, arrecada doações para tentar reconstruir a própria imagem e volta a aparecer na crônica policial como suspeito de furtos para custear o vício. A trajetória, marcada por idas e vindas, sugere que a punição isolada não é suficiente para romper o ciclo.

Organizações de direitos humanos e entidades ligadas à assistência social costumam cobrar, nesses casos, ações de acompanhamento pós-cárcere, vagas em comunidades terapêuticas fiscalizadas com rigor e políticas de redução de danos em rede com o SUS. O furto em uma UBS, ponto de entrada do cidadão no sistema público de saúde, reforça a contradição: o mesmo Estado que oferta tratamento é aquele de quem o equipamento é subtraído.

O que pode acontecer a partir de agora

Após a prisão em flagrante, o caso segue para análise do Ministério Público e do Judiciário paulista, que vão decidir se convertem a prisão em preventiva ou se concedem liberdade provisória com medidas cautelares. A defesa, se acionada, pode argumentar dependência química, vulnerabilidade social e ausência de violência física no furto.

No plano local, a Prefeitura de São Bernardo do Campo tende a reforçar o controle de acesso às unidades de saúde, com instalação de novas câmeras, revisão de muros e, eventualmente, aumento do efetivo de vigilância privada em horários críticos, como o início da manhã. Não há, até agora, anúncio formal de mudanças estruturais, mas gestores da área de saúde do ABC reconhecem que a pressão por mais segurança em UBSs cresce ano a ano.

O caso também reacende o debate sobre o efeito duradouro da exposição pública em episódios criminais. A tatuagem, feita à força há quase nove anos, continua a definir como o jovem é visto por policiais, comerciantes e moradores do entorno. A pergunta que volta ao centro da discussão é se a sociedade está disposta a enxergar nesses rostos algo além do rótulo que viraliza.

Enquanto o processo avança, permanece em aberto o desafio de transformar histórias como essa em oportunidade real de recomeço. A prisão por um furto de equipamento de limpeza em uma UBS, longe de ser um fato isolado, funciona como termômetro de políticas públicas que ainda patinam entre repressão, estigma e a promessa, nunca plenamente cumprida, de reinserção social.

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