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Vazamentos em minas da Vale reacendem temor de desastre em Congonhas

Dois vazamentos em estruturas de rejeitos da Vale atingem Congonhas (MG) em menos de 24 horas, em 27 de janeiro de 2026, e espalham lama por rios da região. A prefeitura suspende os alvarás das minas e cobra medidas urgentes, enquanto moradores voltam a falar em medo permanente de um novo Brumadinho.

Vazamentos em série no dia do aniversário de Brumadinho

O primeiro transbordo ocorre na Mina de Fábrica, entre Ouro Preto e Congonhas, exatamente no dia em que se completam sete anos do colapso da barragem da Vale em Brumadinho. Um reservatório de contenção se rompe e a água carregada de sedimentos invade instalações da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), alagando almoxarifado, acessos internos, oficinas mecânicas e área de embarque.

Menos de 24 horas depois, um novo vazamento é registrado na mina Viga, também da Vale, entre as localidades de Plataforma e Esmeril, já dentro do município de Congonhas. A mineradora afirma, em nota, que ninguém fica ferido e que as comunidades próximas não são diretamente atingidas. Os danos ambientais ainda passam por avaliação de técnicos do município e de órgãos federais.

Levantamento da prefeitura aponta que, no episódio mais recente, cerca de 260 mil metros cúbicos de água saem do reservatório, arrastando “todo tipo de minério e materiais”. O volume segue o curso natural da drenagem e alcança o Córrego Goiabeiras, que deságua no Rio Maranhão, e depois o Rio Paraopeba, já marcado pela lama da tragédia de Brumadinho em 2019.

Moradores acompanham a cena com a memória ainda viva dos desastres de Mariana e Brumadinho. “A população está com medo”, diz Sandoval Pinto Filho, morador de Congonhas desde os 5 anos e diretor voluntário de Meio Ambiente da União de Associações Comunitárias de Congonhas (Unaccon). “A informação oficial sempre chega depois das notícias veiculadas pela imprensa”, afirma.

Cidade histórica entre barragens antigas e clima extremo

Congonhas, cidade histórica do quadrilátero ferrífero, convive com a exploração de minério em escala industrial há mais de 80 anos. Hoje, segundo a Secretaria Municipal de Meio Ambiente, ao menos 24 barragens de rejeitos ficam em Congonhas ou no entorno e podem ter impacto direto sobre a cidade em caso de rompimento. Parte dessas estruturas é antiga e foi erguida com técnicas que não consideravam o atual padrão de chuvas.

O prefeito Anderson Cabido (PSB) admite que o regime de chuvas muda e pressiona sistemas de drenagem. “O regime de chuvas tem se alterado nos últimos anos, o que é reflexo da crise climática. É necessário que todo mundo esteja preparado”, afirma. Especialistas ouvidos pela reportagem ligam episódios como os de Congonhas à combinação de estruturas vulneráveis com temporais mais intensos e concentrados.

Professor aposentado de Engenharia de Minas da UFMG, Evandro Gama explica que muitos reservatórios de drenagem e barragens foram dimensionados com estudos antigos. “São estruturas calculadas para um volume de chuva que não corresponde mais à realidade. Quando a precipitação aumenta e se torna mais extrema, esses sistemas falham”, diz. Na prática, isso significa mais transbordamentos, erosão acelerada e carreamento de rejeitos para cursos d’água.

O Paraopeba, um dos rios afetados pelos sedimentos que saem de Congonhas, é peça central do equilíbrio ecológico da região central de Minas e integra sistemas de abastecimento de água de Belo Horizonte e da região metropolitana. Assoreamento, deposição de lama e erosão de áreas verdes mudam o leito, reduzem a profundidade e prejudicam a qualidade da água, com reflexo sobre fauna, flora e captação para consumo humano.

O motorista Wilson Matos, de 48 anos, mora à beira do Goiabeiras e diz viver em alerta. “Acordo à noite toda e levanto pra ver se a água do rio está subindo. O vazamento entrou aqui em casa. Minha irmã, minha futura esposa e eu passamos a madrugada limpando, porque é água com minério, lama pura né? Não é água de enchente da chuva”, relata.

Ele conta que, em bairros mais baixos, o preparo para enchentes já se torna rotina. “Tenho três primos que moram no bairro Santa Mônica. Nesta época do ano, de muita chuva, eles já ficam preparados, com os móveis pro alto”, diz. O medo não se restringe aos transbordos mais recentes, mas à presença constante de grandes estruturas de rejeito próximas às casas.

Congonhas abriga a barragem Casa de Pedra, da CSN, uma das maiores barragens de rejeitos do mundo em área urbana. Bairros populosos ficam a poucos quilômetros à jusante, na direção da água, e um eventual rompimento poderia alcançar cerca de 20 mil pessoas, segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens. Em nota, a CSN afirma que todas as suas estruturas de contenção de sedimentos “estão operando normalmente” e que a segurança guia as decisões técnicas da companhia.

Pressão sobre Vale, fiscalização e futuro das barragens

A prefeitura de Congonhas reage aos vazamentos suspendendo temporariamente os alvarás das duas minas da Vale envolvidas. A retomada só deve ocorrer após a implementação de medidas como a caracterização geotécnica, espécie de raio X da resistência do material depositado nos reservatórios, e a apresentação, em até cinco dias, de um plano técnico de monitoramento dos sumps.

Os sumps são estruturas construídas no ponto mais baixo das minas para segurar a enxurrada. A ideia é que água e sedimentos fiquem retidos ali, permitindo que a lama decante e não alcance córregos e rios fora da área da mineradora. Quando o sistema falha, a água desce carregando partículas de minério, terra e resíduos industriais, como ocorreu em Congonhas.

A Vale informa que os vazamentos estão contidos e que as operações nas unidades já se encontram suspensas. A empresa diz reforçar ações de inspeção e manutenção preventiva em estruturas de drenagem no período chuvoso e afirma que vai responder às exigências da prefeitura “nos prazos legais”, colaborando com as autoridades e prestando esclarecimentos.

A Agência Nacional de Mineração (ANM) envia equipes para vistoriar as áreas afetadas e afirma que “não houve ruptura, colapso ou comprometimento de estruturas de barragens ou pilhas de mineração” nas ocorrências desta semana. O órgão diz que a apuração de responsabilidades integra o processo regulatório e prevê sanções caso sejam identificadas irregularidades.

Os episódios reacendem a discussão sobre as barragens a montante, técnica usada nos rompimentos de Mariana, em 2015, e Brumadinho, em 2019. Nesse método, as etapas sucessivas da barragem são construídas sobre o próprio rejeito, o que aumenta o risco de instabilidade. Dados de janeiro da ANM mostram que ainda existem 45 barragens a montante no país, 58% delas em Minas Gerais, muitas espalhadas pelo quadrilátero ferrífero.

O geógrafo Gustavo Soares Iorio, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, chama o conjunto dessas estruturas de “bomba-relógio”. “Essas estruturas estão espalhadas por todo o Quadrilátero e são uma bomba-relógio, sobretudo agora, em dezembro e janeiro, fases de chuva. Há várias estruturas extremamente defasadas e que não foram sanadas. Para as populações que vivem ao redor, é um risco iminente”, afirma.

A Vale mantém em Ouro Preto, cidade vizinha, as barragens Forquilha 2 e Forquilha 3, que juntas somam mais de 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos e passam por processo de descaracterização, previsto para terminar até 2035. O programa foi anunciado em 2019, após a Lei Estadual de Segurança de Barragens aprovada na esteira dos desastres envolvendo a mineradora.

Associações de municípios mineradores cobram mais transparência das empresas sobre a condição real de segurança dessas estruturas. Em nota, a Associação Brasileira dos Municípios Mineradores (AMIG Brasil) afirma ser “inaceitável que os municípios e suas populações vivam sob a sombra da insegurança” e reclama da falta de informações claras sobre planos de emergência e monitoramento.

Os próximos meses devem testar o compromisso de mineradoras e autoridades com a adaptação das estruturas à nova realidade climática. A sequência de vazamentos em Congonhas, em plena temporada de chuvas e no aniversário de Brumadinho, recoloca uma pergunta que ecoa no quadrilátero ferrífero: quanto tempo ainda resta para que a prevenção deixe de ser promessa e se torne rotina capaz de afastar de vez o risco de um novo desastre?

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