Lula vai ao Panamá discutir futuro da Venezuela e segurança alimentar
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viaja ao Panamá nesta terça-feira (27) para a primeira agenda internacional de 2026. Em meio à crise venezuelana e a disputas políticas no Caribe, ele participa do Fórum Econômico Internacional da América Latina e Caribe e tem encontros bilaterais decisivos com líderes da região.
Diplomacia em campo num Caribe em tensão
Lula desembarca na Cidade do Panamá com uma pauta que ultrapassa a economia. Ao longo da semana, o futuro político da Venezuela domina as conversas reservadas, em um momento em que a prisão de Nicolás Maduro por uma operação autorizada por Donald Trump redesenha os alinhamentos na região.
O fórum, ligado ao Banco de Desenvolvimento da América Latina, discute investimentos, crescimento e integração econômica entre países latino-americanos e caribenhos. Nos corredores, porém, o que pesa é a forma como os governos respondem à intervenção americana e à possibilidade de transição política em Caracas.
O governo panamenho se coloca abertamente a favor de uma mudança de regime na Venezuela e apoia a ação que levou à detenção de Maduro no início de janeiro. O presidente José Raúl Mulino repete, em público, que o país precisa de um governo “plenamente democrático”. O Brasil segue na direção oposta.
O Planalto condena a operação conduzida por Washington e insiste que o quadro interno venezuelano é estável o suficiente para ser resolvido por vias políticas. Lula tenta segurar esse fio narrativo enquanto conversa tanto com aliados de Maduro quanto com governos que pressionam por uma ruptura rápida.
A viagem acontece menos de 24 horas depois de uma ligação de 50 minutos entre Lula e Trump, na segunda-feira (26). Segundo o Palácio do Planalto, o brasileiro “ressalta a importância de preservar a paz e a estabilidade da região e de trabalhar pelo bem-estar do povo venezuelano”. Na prática, o telefonema mede o espaço de manobra entre Brasília e a Casa Branca depois da prisão de Maduro.
Disputa de narrativas sobre a Venezuela e efeitos econômicos
A reunião bilateral com José Raúl Mulino, prevista para quarta-feira (28), expõe com nitidez essa divergência. De um lado, um país alinhado à estratégia de pressão americana; de outro, um governo que se apresenta como defensor da “não intervenção” e da negociação gradual. O encontro testa a capacidade de Lula de manter o discurso de estabilidade sem isolar o Brasil em um momento em que parte da região já trata a era Maduro como encerrada.
A agenda venezuelana atravessa todas as conversas bilaterais do presidente brasileiro no Panamá. Lula deve discutir o tema com Rodrigo Paz (Bolívia), Daniel Noboa (Equador) e José Antonio Kast (Chile), além da primeira-ministra de Barbados, Mia Mottley, e do primeiro-ministro da Jamaica, Andrew Holness. Cada um chega com sua própria pressão doméstica, mas todos olham para os mesmos riscos: fluxo migratório, impacto sobre o comércio regional e exposição a choques de energia.
A presença militar ampliada dos Estados Unidos no Caribe, após a operação que levou à prisão de Maduro, é outro ponto sensível. Governos caribenhos dependem de investimentos e ajuda americana, mas temem que a escalada militar afaste turistas, eleve custos de seguro e desorganize economias fortemente ancoradas em serviços. O Brasil se coloca como voz pela descompressão, mas não controla o ritmo da estratégia de Washington.
Ao longo dos debates oficiais do fórum, Lula leva uma pauta econômica mais ampla: perspectivas de crescimento em um cenário global de juros altos, comércio intra-regional, energia, mineração, turismo, inteligência artificial e segurança alimentar. O Itamaraty fala em “agenda ampla” e mira acordos que destravem investimentos em infraestrutura e logística, com foco em cadeias produtivas regionais.
A segurança alimentar aparece como ponto comum entre países com realidades muito distintas. Governos discutem desde crédito agrícola até garantia de estoques estratégicos de grãos. Em países mais pobres do Caribe, qualquer choque de preços, mesmo de 10% a 15% em alimentos básicos, se converte em pressão imediata sobre a renda das famílias. O Brasil tenta se apresentar como fornecedor confiável de comida e tecnologia agrícola.
O que está em jogo para o Brasil e para a região
A passagem de Lula pela Cidade do Panamá também tem símbolos calculados. A visita ao Canal do Panamá reforça o discurso sobre rotas de comércio e integração logística em um momento em que navios enfrentam restrições em outras passagens estratégicas e custos de frete sobem em diferentes rotas. O recado é que a América Latina pode ganhar relevância se conseguir coordenar investimentos e reduzir barreiras.
Na prática, o governo brasileiro aposta em três frentes. A primeira é preservar algum protagonismo político na discussão sobre a Venezuela, mesmo sem endossar a operação americana. A segunda é garantir que a crise não contamine a agenda econômica, hoje centrada em investimento produtivo, transição energética e reindustrialização leve na região. A terceira é se colocar como parceiro-chave em segurança alimentar, tema sensível para pelo menos uma dezena de países latino-americanos e caribenhos.
Empresários veem no fórum oportunidade para ampliar exportações de alimentos industrializados, máquinas agrícolas e serviços de engenharia. Governos menores buscam linhas de crédito de médio prazo, de cinco a dez anos, para financiar obras básicas em saneamento, energia e transporte. Cada negociação carrega, porém, a sombra da disputa geopolítica, em um cenário em que Estados Unidos, China e Europa competem por espaço nos mesmos mercados.
A conversa recente com Trump adiciona complexidade à equação. A Casa Branca usa a prisão de Maduro como demonstração de força e tenta consolidar apoio na região. Lula tenta mostrar disposição para diálogo, mas sem romper com o discurso histórico do PT de crítica à intervenção estrangeira em mudanças de regime. O equilíbrio é delicado e pode definir o tom da relação bilateral em 2026.
Próximos movimentos e cenário aberto
Os desdobramentos concretos da viagem aparecem nas próximas semanas, a partir de comunicados conjuntos, eventuais resoluções do fórum e anúncios de linhas de financiamento. Qualquer menção explícita à Venezuela em textos oficiais será escrutinada em busca de sinais de isolamento ou fortalecimento do grupo que resiste à pressão americana.
O sucesso da estratégia brasileira depende de a diplomacia conseguir separar, ao menos parcialmente, a pauta econômica da disputa em torno da queda ou da sobrevivência política de Maduro. Se o cálculo falhar, a região entra em um ciclo de maior polarização, no qual investimentos e cooperação em segurança alimentar passam a ser vistos como extensão direta de alinhamentos ideológicos. A viagem de Lula ao Panamá abre essa disputa; o desfecho ainda está longe de definido.
