Ultimas

Lula recusa convite de Trump para integrar novo Conselho da Paz

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recusa, em janeiro de 2026, o convite de Donald Trump para integrar o chamado Conselho da Paz. A decisão é comunicada em uma ligação telefônica direta ao presidente dos Estados Unidos. O Planalto vê o formato proposto como ameaça ao Conselho de Segurança da ONU e aos princípios do multilateralismo.

Ligação tensa e recado calculado

Lula decide não deixar o convite sem resposta. Em vez de um comunicado frio, pega o telefone, fala com Trump e explica, ponto a ponto, por que o Brasil fica fora do Conselho. Na conversa, segundo auxiliares, o tom é educado, mas firme. O presidente brasileiro afirma que o projeto carece de regras claras, concentra poder nas mãos de Washington e marginaliza atores essenciais em conflitos, como os palestinos na administração de Gaza.

A Casa Branca vende o Conselho da Paz como uma alternativa rápida para resolver crises internacionais. Na prática, o desenho entregue a Brasília prevê um núcleo duro controlado pelos Estados Unidos, com poder de decidir, sem mediação externa, quem governa, administra e protege territórios em disputa. Trump já arrasta cerca de 30 países para a iniciativa, entre eles governos alinhados à extrema direita, como Argentina, Paraguai e Hungria. França e outras potências europeias mantêm distância.

Ao telefone, Lula diz que não pretende legitimar um organismo que nasce em choque com a arquitetura criada depois da Segunda Guerra Mundial. Lembra que, há mais de 20 anos, o Brasil defende a ampliação do Conselho de Segurança da ONU, com mais membros permanentes e novos vetos, não a sua substituição por arranjos informais comandados por uma única capital. A proposta de Trump caminha no sentido oposto.

Risco de esvaziar a ONU e excluir palestinos

No Palácio do Planalto, o Conselho da Paz é tratado como armadilha. Assessores diretos de Lula avaliam que o verdadeiro objetivo de Trump é esvaziar de vez o Conselho de Segurança, ao transferir para uma estrutura paralela decisões sobre guerra, paz e ocupação de territórios. “Não se reforça o multilateralismo criando um clube privado para substituir a ONU”, resume um integrante da equipe diplomática.

O desenho do plano para Gaza acende todos os alertas. Reportagem do jornalista Jamil Chade, do ICL Notícias, mostra que o projeto prevê controle absoluto sobre o território, sem monitoramento independente e sem participação de qualquer autoridade palestina. As diretrizes incluem a criação de novas forças de segurança tuteladas pelo Conselho, sob comando efetivo de Washington. Na prática, os próprios palestinos, principais interessados no futuro de Gaza, ficam fora da mesa.

Diplomatas brasileiros apontam ainda um componente econômico. Trump mantém há décadas negócios no setor imobiliário e de resort de luxo, com marcas avaliadas em centenas de milhões de dólares. O temor no Itamaraty é que Gaza se torne laboratório de um modelo em que decisões sobre segurança, reconstrução e concessões comerciais se confundam com interesses privados ligados ao presidente americano. Um conselheiro resume o incômodo: “Quem controla as tropas, o dinheiro da reconstrução e o zoneamento do território controla tudo”.

Ao rejeitar o convite, Lula tenta marcar distância desse desenho. Para auxiliares, aceitar o assento significaria reconhecer que, em caso de crise interna no Brasil, o mesmo mecanismo poderia ser replicado aqui, com intervenção externa amparada por um conselho informal. A comparação que circula nos bastidores é exagerada de propósito: se o modelo vingar em Gaza, nada impediria que, em uma futura instabilidade política no país, o governo americano tentasse emplacar um aliado excêntrico, como o lutador Conor McGregor, como espécie de interventor político, sem consulta aos brasileiros.

Diplomacia em rota de colisão contida

A recusa não é um gesto isolado. Desde o início do terceiro mandato, em 2023, Lula repete em fóruns internacionais que decisões sobre guerra e paz não podem ficar concentradas em um único eixo de poder. Em discursos na Assembleia-Geral da ONU, defende reformas com inclusão de países da América Latina e da África no Conselho de Segurança, além de criticar o uso seletivo de sanções econômicas e intervenções militares. O Conselho da Paz, nos termos de Trump, atinge diretamente esse discurso.

O governo brasileiro sabe que a resposta tende a gerar atrito imediato com Washington. Em 2025, o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos supera os US$ 100 bilhões, com superávit brasileiro na casa de alguns bilhões de dólares. Nesse contexto, qualquer sinal de mal-estar político pode respingar em agendas sensíveis, como tarifas agrícolas, regras ambientais e cooperação em defesa. O cálculo no Planalto é que o custo diplomático de dizer “não” agora é menor do que o desgaste de aderir a um organismo visto, por aliados europeus e emergentes, como instrumento de hegemonia americana.

Na ONU, a posição brasileira encontra eco entre países que se sentem excluídos das grandes decisões. Governos da África e da Ásia, que somam mais de 50 votos na Assembleia-Geral, enxergam com desconfiança qualquer estrutura paralela que reduza ainda mais o peso dos fóruns multilaterais tradicionais. Ao se alinhar com essa leitura, Lula reforça a imagem do Brasil como articulador de pontes entre Norte e Sul globais, papel que rendeu ao país a presidência do G20 em 2024 e espaço em negociações climáticas e comerciais.

O Conselho da Paz, porém, avança com o apoio de ao menos 30 governos. A Casa Branca calcula que, com esse número, já consegue projetar uma espécie de “selo de legitimidade” para decisões sobre segurança, reconstrução e governança em áreas conflagradas. A ausência de Brasil, França e de parte da União Europeia dificulta essa narrativa, mas não a inviabiliza. Quanto mais países aderirem, maior a pressão sobre quem decidir ficar de fora.

O que vem a seguir na disputa pela governança global

Com a recusa, o Brasil se coloca no bloco de países que apostam em reformar a ONU por dentro, não substituí-la. Lula deve repetir o argumento em discursos previstos para o primeiro semestre de 2026, em reuniões do G20 e em sessões especiais sobre Gaza. O Itamaraty trabalha para costurar uma frente que inclua Índia, África do Sul, Indonésia e México, com proposta concreta de ampliação do Conselho de Segurança até o fim da década.

Em Washington, assessores de Trump discutem como reagir. Uma possibilidade é reduzir a participação do Brasil em iniciativas conjuntas de segurança regional e pressionar com exigências adicionais em temas ambientais, como a proteção da Amazônia, em acordos comerciais futuros. Outra é tentar isolar politicamente Lula, reforçando vínculos com aliados sul-americanos alinhados à direita.

A ligação de janeiro de 2026, no entanto, deixa uma mensagem clara: o Brasil não aceita carimbar decisões que excluem povos diretamente afetados por conflitos, como os palestinos em Gaza, nem legitimar um conselho em que um país concentra o controle das regras, das armas e dos contratos. O impasse recoloca uma pergunta central na diplomacia contemporânea: quem terá a palavra final sobre guerra e paz nas próximas décadas, a ONU que envelhece sob críticas ou novos clubes de poder formados à imagem e semelhança de seus fundadores?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *