Ultimas

Famílias iranianas denunciam cobrança para liberar corpos após repressão

Corpos amontoados em necrotérios, filas silenciosas diante de portões trancados e pedidos de dinheiro para liberar cadáveres marcam o dia a dia de famílias iranianas desde a última onda de repressão do regime, que já deixa estimativa de até 10 mil mortos. Em meio ao luto, parentes relatam humilhações, ameaças e restrições severas para enterrar seus mortos em Teerã e em cidades do interior.

Necrotérios lotados e luto sob vigilância

Nas últimas semanas, conforme protestos se espalham por diversas províncias, a rotina dos necrotérios muda de forma brusca. Funcionários recebem ordens para reter corpos de manifestantes, enquanto agentes de segurança passam a controlar acessos, identificar parentes e impor condições para a liberação dos cadáveres. Em vários casos, famílias só conseguem ver os mortos por poucos minutos, atrás de portas semiabertas ou em macas enfileiradas.

Relatos enviados a organizações de direitos humanos descrevem pilhas de sacos plásticos pretos em corredores estreitos, marcas de tiros no peito e na cabeça e etiquetas com números em vez de nomes. Uma mãe de 52 anos, de uma cidade ao oeste de Teerã, conta que espera três dias para recuperar o corpo do filho de 19 anos. “Eles disseram que não havia espaço e que o caso ainda estava sob investigação”, relata, em depoimento enviado sob condição de anonimato. “Depois, pediram dinheiro e exigiram que prometêssemos não fazer cerimônia pública.”

Cobrança, intimidação e enterros controlados

Os relatos convergem para um mesmo padrão: o Estado transforma o momento do luto em novo instrumento de controle. Parentes afirmam que funcionários de necrotérios mencionam taxas extras, multas por “dano à propriedade pública” e custos por supostos exames adicionais. Em alguns casos, as cifras citadas chegam a milhares de dólares, valor desproporcional à renda média de famílias que vivem com o equivalente a menos de US$ 300 por mês.

Além da cobrança, há intimidação direta. Em Teerã, agentes obrigam parentes a assinar termos em que se comprometem a não dar entrevistas, não registrar queixas formais e não transformar o enterro em ato político. “Ou você assina, ou o corpo fica”, afirma o depoimento de um tio de 44 anos, cujo sobrinho morre após ser atingido por disparo durante manifestação em novembro. Ele relata que a família é pressionada a aceitar a versão oficial de que o jovem é vítima de “bandidos armados”. A certidão de óbito, entregue com atraso de cinco dias, registra apenas “causa indeterminada”.

Proibições em cemitérios e vigilância nos rituais

A pressão continua nos cemitérios. Em cidades que concentram protestos, como áreas do Curdistão e do Baluchistão, famílias recebem autorização para enterrar os mortos apenas em horários restritos, muitas vezes antes do amanhecer. Veículos de segurança acompanham o cortejo e limitam o número de participantes. Filmagens com celulares são proibidas, sob ameaça de prisão imediata. Em alguns cemitérios, agentes removem bandeiras e cartazes com fotos das vítimas minutos após o fim das cerimônias.

Pesquisadores que acompanham a situação no Irã descrevem um esforço sistemático para apagar rastros da repressão e impedir que túmulos se tornem pontos de mobilização. “O governo tenta controlar o corpo até depois da morte”, afirma um analista de direitos humanos com atuação no Oriente Médio. Segundo ele, bloquear enterros coletivos, dispersar vigílias e restringir homenagens nos 40 dias seguintes à morte – tradição importante no país – faz parte de uma estratégia antiga para sufocar protestos. A diferença, agora, é a escala. Com estimativa de até 10 mil mortos, segundo grupos independentes, a pressão se espalha por dezenas de cidades e sobrecarrega necrotérios e cemitérios.

Crise humanitária e impacto internacional

O tratamento aos corpos amplia a dimensão da crise humanitária. Organizações como Anistia Internacional e Human Rights Watch, que desde setembro emitem alertas sucessivos, apontam para violações em série: uso letal da força, desaparecimentos forçados, detenção arbitrária de familiares que buscam notícias e manipulação de certidões de óbito para encobrir mortes por disparos. Diplomatas europeus relatam que desde o fim de 2023 o tema entra em reuniões regulares com o governo iraniano, mas recebem respostas evasivas ou negativas categóricas.

Países da União Europeia e da América do Norte intensificam sanções contra membros das forças de segurança e do Judiciário iraniano, com anúncios em blocos sucessivos entre outubro de 2023 e janeiro de 2026. As medidas atingem ativos financeiros, viagens internacionais e cooperação em áreas sensíveis. Ainda assim, especialistas veem efeito limitado sobre as práticas internas. “O custo político externo cresce, mas o cálculo do regime segue centrado na sobrevivência doméstica”, avalia um professor de relações internacionais de uma universidade europeia, que acompanha o tema há mais de dez anos.

Memória, medo e disputa por narrativas

No plano interno, o estrangulamento do luto provoca marcas emocionais profundas. Em bairros populares de Teerã, vizinhos organizam pequenas vigílias dentro de casas, com cortinas fechadas e velas acesas discretamente nas varandas. Retratos de jovens mortos circulam em grupos de mensagens criptografadas, em substituição às grandes cerimônias públicas que marcaram outros períodos de contestação, como em 2009 e 2019. A impossibilidade de velar e sepultar os corpos de forma digna alimenta sentimentos de revolta e impotência.

O governo tenta impor outra versão. Meios de comunicação estatais exibem números bem mais baixos de mortos, falam em “terroristas”, “conspiradores estrangeiros” e “bandidos armados” e ignoram relatos de necrotérios superlotados. Em pronunciamentos desde o fim de 2024, autoridades prometem “investigações abrangentes” sem apresentar prazos ou resultados concretos. A distância entre o discurso oficial e as imagens que escapam pelas redes sociais aprofunda a desconfiança interna e reforça a percepção externa de opacidade.

Pressão por responsabilização e incertezas à frente

No sistema internacional, cresce a pressão por apuração independente. Em 2022, um mecanismo da ONU é criado para monitorar violações de direitos humanos no Irã, mas até agora encontra obstáculos para obter acesso direto ao país. Organizações iranianas no exílio articulam dossiês com nomes, datas, locais de morte e registros fotográficos para sustentar futuras ações em cortes internacionais. A expectativa é que, com centenas de casos documentados, tribunais estrangeiros possam abrir investigações por crimes contra a humanidade nos próximos anos.

Dentro do Irã, famílias apostam em outra forma de justiça: a memória. Mesmo sob risco, parentes gravam depoimentos em áudio e vídeo, anotam datas em cadernos escondidos e fotografam túmulos discretos, marcados apenas com iniciais. Esperam que esses registros sustentem, um dia, um acerto de contas mais amplo. Até lá, seguem entre a urgência de enterrar seus mortos e o medo de que cada sepultura se torne novo alvo da repressão. A pergunta que permanece é por quanto tempo o regime conseguirá controlar não só as ruas, mas também o silêncio que tenta impor sobre seus mortos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *