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Organizadas barram Rony no Corinthians, e Santos fecha contratação

As torcidas organizadas do Corinthians vetam a contratação de Rony em janeiro de 2026 e abrem caminho para o Santos fechar acordo com o atacante do Atlético-MG. A decisão expõe o peso político das arquibancadas nas negociações e recoloca o jogador, em baixa na carreira, como aposta para reagir à crise santista.

Pressão das arquibancadas muda rumo da negociação

A diretoria do Corinthians dá o negócio por encaminhado. Rony chegaria ao Parque São Jorge em operação casada com a dívida de cerca de R$ 22 milhões que o Atlético-MG ainda deve pelo volante argentino Fausto Vera. O técnico Dorival Júnior se anima com a possibilidade de ganhar um ponta rápido, capaz de atacar a última linha adversária e oferecer profundidade ao time.

O acordo, porém, não resiste à reação das principais torcidas organizadas. Os grupos avisam à cúpula corintiana que a identificação recente de Rony com o Palmeiras criaria um ambiente hostil no clube. O histórico de comemorações, títulos e protagonismo com a camisa alviverde pesa na avaliação das lideranças de arquibancada. A mensagem é direta: “Vai ter muito problema com ele aqui”.

O presidente Osmar Stábile, eleito com o discurso de reconstrução institucional e de pacificação com as torcidas, escolhe não bancar o nome. Um dos pilares da gestão é justamente a boa convivência com as organizadas, depois de anos de confronto político e disputas internas. A pressão basta para esfriar de vez a conversa por Rony, mesmo com o argumento técnico a favor da contratação.

Enquanto o Corinthians recua, o Santos observa o movimento e acelera. A diretoria alvinegra já vinha conversando com o estafe do jogador, mas sem a mesma força financeira e sem a vantagem de abater dívidas. O veto vindo de Itaquera muda o cenário e torna o negócio mais acessível para o clube da Vila Belmiro.

Santos reage à crise e Atlético aceita saída rápida

O Santos vive péssima campanha no Campeonato Paulista. O time mostra ataque inofensivo, acumula atuações opacas e sai vaiado do empate por 0 a 0 com o Bragantino, na Neo Química Arena, em um domingo de pressão aberta. Torcedores protestam contra o elenco, criticam a diretoria e cobram reforços urgentes, com foco especial no setor ofensivo.

A temperatura política sobe na Vila Belmiro. As vaias e ameaças da torcida, direcionadas ao presidente Marcelo Teixeira, aceleram decisões. O dirigente libera o executivo de futebol Alexandre Mattos a concluir a negociação por Rony sem prolongar a queda de braço com o Atlético-MG. O recado interno é simples: é hora de dar resposta rápida ao gramado e às arquibancadas.

Rony não vive bom momento em Belo Horizonte. Em 2025, o atacante move ação na Justiça do Trabalho para tentar encerrar o contrato, alegando falta de depósito do FGTS. A pressão da imprensa mineira e o risco de desgaste maior levam o jogador a recuar, mas a relação com a diretoria fica abalada. O clima nunca volta ao que era no momento da chegada, em fevereiro de 2025, quando o clube o apresenta como peça-chave do novo ciclo.

O desempenho em campo também não sustenta o status. Em menos de um ano, Rony soma 65 partidas pelo Atlético, com 14 gols e 6 assistências. Os números são razoáveis, mas o rendimento oscila demais. O jogador alterna partidas muito boas com atuações discretas, sofre com críticas e passa a simbolizar, para parte da torcida, o fracasso de um time caro que não decola.

A chegada de Jorge Sampaoli sela o desfecho. O treinador argentino, contratado para reestruturar o elenco e reduzir custos, procura a diretoria e recomenda a venda de Rony. O clube entende que é o momento de fazer caixa, reduzir folha e diminuir focos de tensão interna. A proposta santista, de 3 milhões de euros fixos, cerca de R$ 18 milhões, mais 1 milhão de euros em metas esportivas, é suficiente para fechar o acordo sem grande resistência.

Peso político das torcidas e queda de status de Rony

A transferência expõe o grau de influência das torcidas organizadas nas decisões estratégicas dos clubes brasileiros. No Corinthians, a negativa das lideranças de arquibancada derruba uma negociação considerada encaminhada e interfere diretamente no planejamento técnico de Dorival Júnior. A mensagem para o mercado é clara: a diretoria está disposta a proteger a relação com as organizadas, mesmo que isso signifique abrir mão de oportunidades esportivas.

O caso também ajuda a dimensionar a curva descendente da carreira de Rony. Em 2023, o Palmeiras recusa proposta de 13 milhões de euros, cerca de R$ 81 milhões à época, vinda de um clube do mundo árabe. Dois anos depois, o atacante deixa o Atlético-MG por menos de um terço desse valor, em um cenário de desgaste interno e desempenho irregular. A perda de valor de mercado é evidente e carrega um componente simbólico para um jogador que chegou a ser decisivo em títulos recentes do rival palmeirense.

No Santos, a leitura é de oportunidade. O técnico Juan Pablo Vojvoda pede um ponta “explosivo”, veloz e agressivo, capaz de atacar o espaço e abrir defesas compactas. Rony chega para ocupar o lugar de Guilherme, alvo frequente de críticas e vaias. A expectativa é que o novo reforço ajude a mudar o humor da arquibancada e ofereça ao treinador uma opção clara de profundidade pelo lado do campo.

O Atlético-MG, pressionado por resultados e por questões financeiras, vê na saída uma forma de reduzir custos e oxigenar o elenco. A recomendação de Sampaoli, somada ao histórico de conflitos e à ação judicial frustrada, transforma a negociação em solução conveniente para todas as partes. O clube mineiro tenta, a partir dessa venda, ajustar contas e abrir espaço para reforços mais alinhados ao novo projeto esportivo.

Próximos passos e teste imediato para todos os lados

O desfecho coloca cada protagonista diante de um teste imediato. O Santos precisa provar, jogo a jogo, que a aposta em Rony vai além de uma resposta ao barulho da torcida. A adaptação rápida ao esquema de Vojvoda e o impacto direto nos números ofensivos do time serão medidos já nas próximas rodadas do Paulista.

O Corinthians entra em campo sem o reforço que Dorival desejava e com a responsabilidade de mostrar que a opção por ouvir as organizadas não compromete o desempenho esportivo. A diretoria terá de explicar, em resultados, que a estratégia de pacificação política pode conviver com ambição técnica. O Atlético-MG, por sua vez, será cobrado para comprovar que a reestruturação sugerida por Sampaoli rende um time mais competitivo e menos instável.

Resta saber se o episódio inaugura um padrão mais explícito de veto das arquibancadas a nomes ligados a rivais ou se ficará marcado como um caso isolado em um mercado cada vez mais exposto à pressão de torcedores, redes sociais e crises de momento.

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