Esportes

São Paulo contrata Rafinha como gerente esportivo e reforça ruptura pós-Muricy

O São Paulo oficializa nesta segunda-feira (27) a contratação de Rafinha como gerente esportivo de futebol. O ex-lateral assume função estratégica no CT da Barra Funda, com poder de decisão e papel direto na ponte entre elenco e diretoria, em meio à saída de Muricy Ramalho.

Função redesenhada e contrato flexível

Rafinha volta ao clube menos de um ano depois de encerrar a carreira como jogador e capitão tricolor. Agora, troca o vestiário pelo gabinete, em um cargo criado sob medida para a nova gestão de futebol. O acordo é em regime CLT, sem multa rescisória nem prazo de validade definido, e pode ser encerrado a qualquer momento por qualquer uma das partes.

Na prática, o novo gerente esportivo ocupa espaço diferente do de Muricy Ramalho, que deixa o clube após formalizar o pedido de demissão nesta segunda-feira de manhã, em ligação ao presidente Harry Massis Júnior. Rafinha não assume o posto de coordenador-técnico, rótulo que marcou a passagem de Muricy desde 2014 em diferentes gestões. O desenho atual prevê mais interferência no dia a dia do elenco e mais peso em decisões internas.

O próprio Rafinha descreve o desafio com linguagem de campo. “É um desafio para mim. Nasci no futebol, gosto de estar dentro desse ambiente, e quando o São Paulo me chama é uma convocação”, afirma ao site oficial do clube. Ele deixa claro o escopo da nova função: “Eu vou fazer o elo entre comissão técnica e diretoria, vou estar no dia a dia com os jogadores, nos treinamentos e viagens. Todo mundo sabe o carinho que tenho pelo São Paulo. Estou preparado para voltar e ajudar novamente”.

A apresentação oficial do ex-lateral está marcada para as 13h (de Brasília), no CT da Barra Funda, menos de 24 horas após Massis antecipar o acerto em entrevista concedida depois da final da Copa São Paulo de Futebol Júnior. O anúncio em sequência ao fim da Copinha não é casual: a diretoria tenta sinalizar rapidez na reorganização do departamento justamente no início da temporada.

Ruptura com o modelo anterior e disputa por espaço interno

A chegada de Rafinha simboliza um movimento de renovação da gestão esportiva. Muricy, ícone da história recente do clube, já havia decidido deixar o cargo e comunicou a intenção à cúpula tricolor dias antes. As conversas com o ex-lateral, segundo pessoas envolvidas na negociação, ganham ritmo acelerado assim que o pedido de demissão se torna oficial.

A nova função de gerente esportivo nasce dentro da gestão de Harry Massis Júnior, que tem mandato até o fim de 2026. Nos bastidores, fontes tratam a contratação de Rafinha como aposta pessoal da atual administração, no mesmo eixo do executivo de futebol Rui Costa, que chefia o departamento e também tem vínculo alinhado ao atual ciclo político. O recado interno é de que o futebol passa a ter uma linha de comando mais definida, com um dirigente próximo do vestiário e outro encarregado da macroestrutura e do mercado.

Rafinha carrega capital simbólico raro. Aos 38 anos, soma passagem por gigantes europeus, como Bayern de Munique, e títulos importantes pelo próprio São Paulo, onde encerra a carreira ao fim de 2023, depois de levantar taças como a Copa do Brasil e o Paulistão. O histórico recente como líder de grupo pesa na escolha: a diretoria aposta na capacidade de traduzir ao conselho e à presidência o clima do vestiário e, ao mesmo tempo, impor ao elenco as diretrizes que vêm de cima.

O modelo CLT sem multa e sem prazo também revela a cautela de ambas as partes. O clube mantém liberdade para rever o arranjo em caso de mudança de gestão ou de rota esportiva. Rafinha, por sua vez, preserva a possibilidade de encerrar o vínculo caso o projeto não se sustente ou surjam convites em outras frentes do futebol. A relação fica condicionada ao resultado prático dentro de campo e à química política nos corredores do Morumbi.

O que muda no vestiário e na política do clube

A primeira tarefa de Rafinha é organizar a comunicação entre elenco, comissão técnica e cúpula. O São Paulo atravessa período de ajustes após temporadas de altos e baixos, em que divergências internas e ruídos entre departamentos aparecem, ainda que de forma discreta, nos bastidores. A figura de um gerente com trânsito livre entre jogadores e diretoria tenta reduzir esse atrito diário.

O novo dirigente deve acompanhar treinos, viagens, pré-jogos e pós-jogos, ouvindo reclamações, demandas e sugestões, e transformando isso em informação acionável para Rui Costa e para Harry Massis Júnior. A presença constante no vestiário tende a reforçar o controle de ambiente, algo considerado decisivo em elencos com salários altos, pressão contínua de torcedores e calendário apertado. Em um clube que convive com crises cíclicas desde o fim da era dos grandes títulos internacionais, qualquer mecanismo de estabilidade ganha valor.

Torcedores veem na contratação um gesto de aproximação com figuras identificadas com o escudo tricolor. A mudança também mexe com a dinâmica de poder interna. O espaço antes preenchido por Muricy, mais ligado à formação de elenco e à análise técnica, abre caminho para um dirigente mais voltado à gestão de pessoas e à rotina profissional. Quem ganha é o jogador que sente que sua queixa, seja sobre logística, estrutura ou premiação, encontra um canal direto. Quem perde é o modelo em que a presidência entra no vestiário apenas em momentos de crise.

A médio prazo, o desempenho da equipe em campo vai balizar o julgamento sobre a aposta em Rafinha. Vitórias sustentadas e ambiente controlado fortalecem o gerente esportivo e podem ampliar seu espaço em decisões sobre contratações, renovações e até troca de treinador. Resultados ruins, ao contrário, tendem a pressionar o novo formato, especialmente pelo caráter flexível do contrato e pela tradição do clube de mudar o desenho do futebol a cada gestão.

Próximos passos e dúvidas abertas

A coletiva desta tarde deve detalhar o escopo de atuação de Rafinha e o grau de autonomia em relação a Rui Costa e à comissão técnica. A forma como o trio vai dividir decisões sobre reforços, uso da base e planejamento de competições ao longo de 2026 será observada de perto por conselheiros e por uma torcida acostumada a acompanhar a política interna como parte do espetáculo.

O calendário oferece pouco tempo para testes. O São Paulo entra em sequência de jogos pelo Campeonato Paulista e já mira compromissos nacionais e internacionais no segundo semestre. O sucesso da aposta em um ex-jogador no comando do dia a dia do vestiário pode inspirar outros clubes a seguir caminho parecido. A pergunta que permanece é se a identificação com o clube e a experiência de campo bastam para sustentar, sob pressão, um cargo que mistura política, gestão de pessoas e resultados imediatos.

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