Adolescentes de SC são investigados por morte do cão Orelha
Dois adolescentes de Santa Catarina são investigados pela morte do cão Orelha, após agressões que levam à eutanásia do animal. A Polícia Civil cumpre mandados de busca na manhã desta segunda-feira (26), enquanto os suspeitos viajam aos Estados Unidos e só devem retornar ao Brasil na próxima semana.
Violência contra o cão e início da investigação
Orelha é encontrado ferido em uma praia de Santa Catarina na semana passada. O cachorro apresenta sinais de maus-tratos, não resiste às lesões e passa por eutanásia, procedimento de morte assistida indicado por veterinários quando não há mais chance de recuperação. A cena desperta revolta entre moradores e chega à polícia por meio de denúncia formal.
Investigadores apuram que um grupo de adolescentes estaria envolvido nas agressões contra o animal. O nome de dois deles se destaca nos relatos colhidos pela equipe da Delegacia de Polícia, que decide pedir três mandados de busca e apreensão. A Justiça autoriza a medida, cumprida nesta segunda-feira em endereços ligados aos jovens.
As diligências se concentram em imóveis de família em Santa Catarina. Agentes recolhem celulares, computadores e objetos que possam ajudar a reconstruir a cronologia da violência contra o cão. O objetivo é cruzar imagens, conversas e possíveis registros em redes sociais com os depoimentos de testemunhas.
O delegado Ulisses Gabriel, responsável pelo caso, explica que o grupo de adolescentes passa a ser alvo da investigação a partir das primeiras oitivas. “Dois adolescentes foram alvo de busca, e outros dois estão nos Estados Unidos para uma viagem que, segundo consta, era pré-programada”, afirma. A viagem, marcada antes da repercussão do caso, deve durar até a próxima semana, quando os jovens retornam ao país para novas etapas da apuração.
Mandados, ameaça a testemunha e comoção pública
Os três mandados de busca e apreensão têm focos distintos. Dois se voltam diretamente aos adolescentes suspeitos de maus-tratos. O terceiro mira um homem apontado por investigarores como responsável por coagir uma testemunha ao longo das últimas semanas. A pressão sobre essa pessoa, segundo a polícia, tenta atrapalhar a elucidação do caso e intimidar quem presta informações oficiais.
Na ação desta segunda, a equipe procura também uma possível arma de fogo, mencionada por testemunhas como instrumento de ameaça. O objeto não é localizado, mas a busca ajuda a reforçar o material probatório reunido até agora. A suspeita de que a violência contra Orelha não se limita ao episódio na praia, e seria parte de um comportamento mais amplo de crueldade, entra no radar dos investigadores.
O caso ganha projeção rápida nas redes sociais e extrapola o litoral catarinense. Imagens do cão e relatos de vizinhos circulam em perfis de proteção animal, estimulando pedidos de punição exemplar para os envolvidos. Associações de defesa dos animais lembram que desde 2020 a lei brasileira prevê pena de até cinco anos de prisão para quem pratica maus-tratos contra cães e gatos, além de multa e proibição de guarda.
O delegado Ulisses Gabriel reforça que a apuração não se restringe à morte do cão. “Além do caso do cão Orelha, a polícia ainda investiga um segundo caso envolvendo um cão caramelo”, diz. Nesse segundo episódio, um adolescente leva o animal ao mar no colo. O cão consegue sair do local, mas o comportamento é analisado como possível situação de risco.
A comoção em torno de Orelha reacende o debate sobre a eficácia das leis de proteção animal e sobre a fiscalização nas cidades litorâneas, onde cães circulam livremente em praias e áreas de veraneio. Moradores cobram presença mais constante de guardas municipais e campanhas de conscientização, especialmente durante a alta temporada, quando o fluxo de turistas cresce e situações de risco para animais se multiplicam.
Repercussão jurídica e próximos passos da polícia
O inquérito em andamento deve reunir laudos veterinários, depoimentos de testemunhas, registros de câmeras próximas e material apreendido nos endereços ligados aos adolescentes. A partir disso, a polícia decide se representa pela internação provisória dos suspeitos ou por outras medidas socioeducativas previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente, que regula a responsabilização de menores de 18 anos.
Especialistas em direito animal ouvidos pela reportagem apontam que a associação entre maus-tratos, crueldade gratuita e eventual ameaça a testemunha pode reforçar a gravidade do caso. Também lembram que punições efetivas, mesmo em esfera socioeducativa, funcionam como recado à sociedade de que violência contra animais não é um ato menor.
O Ministério Público de Santa Catarina acompanha a investigação e deve se manifestar após a chegada dos adolescentes ao Brasil. Até lá, a delegacia segue colhendo novas informações, incluindo relatos de outros frequentadores da praia onde Orelha é encontrado ferido. A linha do tempo dos fatos, desde as primeiras agressões até a decisão pela eutanásia, será peça central na definição das responsabilidades individuais.
Entidades de proteção animal planejam atos públicos e campanhas nas próximas semanas para pressionar por respostas rápidas das autoridades e por políticas permanentes de prevenção a maus-tratos. Propostas incluem aumento da fiscalização, incentivo à denúncia e programas educativos em escolas, com foco em adolescentes, faixa etária dos principais suspeitos no caso de Orelha.
A polícia trabalha com a expectativa de concluir a fase principal do inquérito depois do retorno dos jovens dos Estados Unidos, previsto para os próximos dias. Até lá, a morte do cão segue como símbolo de um limite ético que a sociedade catarinense e brasileira afirma não estar disposta a tolerar. A resposta das instituições, nos próximos capítulos dessa investigação, vai mostrar se esse compromisso se traduz em consequência real para os responsáveis.
