Ultimas

Extravasamento em mina da Vale acende alerta ambiental em Congonhas

O extravasamento de água na mina Viga, da Vale, em Congonhas, na segunda-feira (26), reacende o debate sobre segurança ambiental na mineração em Minas. A empresa contém o transbordamento, mas o episódio expõe fragilidades no controle de áreas de risco e alimenta a desconfiança de moradores.

Transbordamento rápido, resposta imediata e temor persistente

A cena se desenrola entre a Plataforma e o Esmeril, área de influência direta da mina Viga, um dos ativos da Vale na região histórica de Congonhas. O acúmulo de água em estruturas internas da mina, após dias de instabilidade climática, leva ao extravasamento do volume represado e obriga a companhia a acionar equipes de emergência para conter o fluxo.

A mineradora afirma que o transbordamento é controlado em poucas horas, com barreiras físicas, monitoramento em tempo real e reforço nos canais de drenagem. Técnicos são deslocados para medir vazão, turbidez e possível presença de sedimentos que possam chegar a cursos d’água próximos. A meta declarada é simples e urgente: evitar qualquer contaminação e afastar o risco de um desastre maior.

Moradores acompanham de perto a movimentação de caminhonetes, viaturas e equipes com coletes da empresa e de órgãos públicos. A lembrança de rompimentos de barragens em Minas, em 2015 e 2019, torna qualquer alteração em estruturas de mineração motivo de apreensão imediata. “Quando a gente vê água saindo de mina, o coração aperta”, relata um comerciante da região central de Congonhas, que pede para não ter o nome divulgado. “Dizem que está controlado, mas ninguém esquece o que já aconteceu no Estado.”

Autoridades locais cobram transparência, acesso a laudos e informações em tempo real sobre a qualidade da água. O temor é que partículas de minério, lama fina ou resíduos de processos internos escapem junto com o volume extravasado e alcancem córregos que cortam áreas rurais e bairros em expansão. Até o fim da tarde, técnicos de órgãos ambientais mantêm vigilância reforçada em pontos estratégicos, em um raio de alguns quilômetros da mina.

Gestão de risco, histórico recente e confiança em xeque

O incidente ocorre em um setor pressionado por novas normas, ações judiciais bilionárias e exigências de monitoramento mais rigorosas. Desde 2019, após o colapso da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, a atividade de mineração em Minas passa por uma reconfiguração profunda, com descomissionamento de estruturas a montante, reforço de diques e aumento da vigilância sobre bacias de contenção e sistemas de drenagem.

Na prática, qualquer alteração no comportamento de estruturas ligadas à Vale é registrada, analisada e cruzada com séries históricas de dados. O extravasamento de água na mina Viga, ainda que não cause vítimas ou danos aparentes imediatos, entra nesse banco de informações e deve ser incluído em relatórios periódicos aos órgãos de fiscalização. O episódio também pode alimentar inquéritos administrativos e, se houver indício de infração ambiental, abrir espaço para sanções e Termos de Ajustamento de Conduta (TAC), com prazos e metas específicas.

Especialistas em gestão hídrica e mineração ouvidos pela reportagem apontam que situações de acúmulo anormal de água funcionam como um alerta antecipado. “Quando a água começa a sair do lugar previsto, o sistema mostra que está no limite”, resume um engenheiro geotécnico que atua em auditorias independentes. “É melhor extravasar água limpa agora do que enfrentar uma ruptura de estrutura mais adiante, mas o ideal é que esse acúmulo não chegue a esse ponto.”

Em Congonhas, cidade com pouco mais de 55 mil habitantes e forte dependência econômica da mineração, o equilíbrio entre receita de royalties e risco ambiental é tema recorrente nas reuniões de associações de bairro. Moradores lembram episódios anteriores de fissuras, trincas e sons incomuns vindos de minas próximas. Mesmo quando laudos técnicos descartam perigo imediato, a sensação de vulnerabilidade permanece. “A gente quer trabalho, mas não quer viver com medo”, afirma uma moradora do bairro Alto Maranhão.

Pressão por fiscalização, transparência e novas regras

O extravasamento na mina Viga promete reforçar a pressão sobre a Vale para ampliar o monitoramento hídrico e revisar protocolos de resposta em Congonhas e em outras unidades no Estado. Organismos de controle já discutem ampliar o uso de sensores, imagens de satélite e dados em tempo quase real, com acesso público, para que episódios como o desta segunda-feira não sejam percebidos apenas quando o problema já está visível a olho nu.

O episódio também pode acelerar discussões sobre limites de produção, planos de contingência e rotas de fuga para comunidades próximas a estruturas de mineração. Prefeituras e câmaras municipais tendem a cobrar, nos próximos meses, cronogramas detalhados de obras de drenagem, desassoreamento e proteção de nascentes. O foco é reduzir, em prazos de 12 a 24 meses, o risco de extravasamentos provocados por chuvas intensas ou falhas de manutenção.

No plano estadual, o caso em Congonhas alimenta o debate sobre a necessidade de integrar bancos de dados de Defesa Civil, órgãos ambientais e Ministério Público. A ideia em discussão é construir um painel único, com mapas de risco, status de estruturas e alertas automáticos, acessível tanto a autoridades quanto à população. A experiência de outros desastres em Minas mostra que minutos de antecedência em um aviso podem significar dezenas de vidas preservadas.

Enquanto laudos detalhados não são divulgados e eventuais responsabilizações não são definidas, permanece uma pergunta central para Congonhas e para o quadrilátero ferrífero: até que ponto a mineração realizada hoje consegue garantir que o próximo extravasamento de água não se transforme em algo muito maior amanhã?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *