James Webb revela mapa mais detalhado já feito da matéria escura
Uma equipe internacional liderada pela pesquisadora Diana Scognamiglio publica, em janeiro de 2026, o mapa mais detalhado já feito da matéria escura no Universo. O trabalho usa o telescópio espacial James Webb e expõe, com precisão inédita, a estrutura invisível que sustenta galáxias e aglomerados cósmicos.
Esqueleto invisível do cosmos ganha contornos
O novo mapa, divulgado na revista Nature, se concentra na região do céu conhecida como campo Cosmos, um dos pedaços mais estudados do Universo. Ali, os astrônomos acompanham há anos a formação de galáxias, mas nunca tinham visto com tanta clareza a teia de matéria escura que as organiza.
A matéria escura representa cerca de 85% de toda a matéria existente, porém não emite nem reflete luz. Ela não aparece em nenhuma fotografia de telescópio. Ainda assim, sua gravidade controla o movimento das galáxias e curva a trajetória da luz que viaja por bilhões de anos no espaço. É esse efeito indireto que agora ganha uma cartografia mais nítida.
Com a câmera infravermelha do James Webb, a equipe de Scognamiglio mediu a forma de 129 galáxias por minuto de arco quadrado, quase o dobro da capacidade do Telescópio Espacial Hubble na mesma região. Quanto mais galáxias entram na conta, menor é o ruído e mais confiável fica o desenho da massa invisível em primeiro plano.
O estudo usa uma técnica chamada lente gravitacional fraca, que transforma o espaço em laboratório de física. Grandes concentrações de massa, visíveis ou não, funcionam como uma lente que distorce levemente as imagens de galáxias muito distantes. Ao medir com precisão essas deformações mínimas, os pesquisadores conseguem inferir onde a matéria está acumulada e em que quantidade.
O resultado é um mapa que exibe filamentos, nós e vazios, como uma teia cósmica que atravessa o campo Cosmos e conecta aglomerados de galáxias. Essas estruturas funcionam como um esqueleto invisível do Universo, guiando a formação e a evolução das galáxias ao longo de bilhões de anos. O James Webb permite ver partes mais antigas dessa ossatura, em épocas em que o Universo vivia o auge da formação de estrelas.
Por que o novo mapa muda o jogo
O avanço não é apenas visual. A qualidade dos dados coloca o trabalho no centro dos debates da cosmologia atual. Modelos teóricos preveem como a matéria escura deve se distribuir no espaço, mas dependem de observações diretas para serem testados. Até agora, muitos desses testes se apoiavam em mapas menos profundos ou mais ruidosos.
Ao quase dobrar a densidade de galáxias medidas em comparação com o Hubble, o James Webb entrega uma visão mais limpa das regiões onde a matéria escura se concentra. A equipe realizou uma bateria de checagens para afastar a hipótese de que os sinais fossem causados por falhas de instrumento ou por processamento inadequado. Segundo o artigo, o padrão detectado se mantém estável quando os dados são analisados de formas independentes, o que reforça a confiabilidade do mapa.
Esse tipo de precisão abre espaço para perguntas mais ambiciosas sobre a história do Universo. Se a matéria escura é o andaime que sustenta as galáxias, qualquer diferença entre o mapa observado e as previsões numéricas pode indicar que algo falta nas teorias atuais. Isso inclui desde detalhes na física das partículas até ajustes finos na taxa de expansão cósmica em diferentes épocas.
A escolha do campo Cosmos não é casual. Essa região conta com décadas de observações em vários comprimentos de onda, de raios X ao rádio. O novo mapa de matéria escura se encaixa nesse mosaico e ajuda a conectar propriedades invisíveis, como a distribuição de massa, com dados visíveis, como cor, brilho e taxa de formação de estrelas em milhares de galáxias.
Os astrônomos olham com atenção para as regiões onde a teia de matéria escura parece mais densa. Esses pontos costumam abrigar aglomerados de galáxias, ambientes extremos em que estrelas, gás quente e buracos negros supermassivos interagem em escalas colossais. A comparação entre o que se vê e o que o mapa indica de massa total permite estimar quanto de matéria ainda está escondida e como ela se organiza.
O que vem a seguir na cartografia do invisível
O trabalho liderado por Scognamiglio funciona como prova de conceito para uma nova era de mapeamento cósmico. Se o James Webb consegue revelar com tanta nitidez a teia de matéria escura em uma única região, a expectativa é estender a mesma abordagem a áreas maiores do céu. Missões planejadas por agências espaciais já consideram campanhas dedicadas a esse tipo de medição.
Os próximos passos incluem repetir o método em outros campos bem estudados, cruzar os resultados com dados de futuros telescópios como o Euclid, da ESA, e o Roman, da Nasa, e testar de forma mais agressiva os limites das teorias atuais sobre matéria e energia escuras. A longo prazo, a ambição é transformar esses mapas em uma espécie de atlas cósmico, capaz de mostrar não apenas onde a matéria escura está, mas como ela evolui com o tempo.
O novo mapa também deve acender o interesse público por um dos maiores enigmas da ciência contemporânea. A percepção de que a maior parte da matéria do Universo permanece invisível, mas agora começa a ser desenhada com nitidez crescente, recoloca uma pergunta simples e ainda sem resposta: afinal, do que é feita a matéria escura que sustenta o cosmos?
