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Repressão no Irã deixa 10 mil mortos e lota necrotérios em Teerã

A repressão aos protestos contra o regime iraniano em janeiro de 2026 deixa cerca de 10 mil mortos, segundo estimativas de organizações de direitos humanos. Em Teerã, necrotérios superlotados exibem corpos empilhados, enquanto famílias enfrentam humilhações para recuperar os mortos.

Corpos empilhados, silêncio imposto

No principal necrotério de Teerã, parentes aguardam horas em filas silenciosas diante de portas fechadas. Funcionários chamam nomes em voz baixa, um por vez, sob vigilância de agentes de segurança. Quem entra encontra corredores tomados por sacos pretos, corpos identificados às pressas e geladeiras operando no limite.

Imagens e relatos enviados a entidades independentes mostram cadáveres empilhados no chão, em algumas salas, por falta de espaço. Em vídeos verificados por grupos de direitos humanos, pais descrevem ter visto “pelo menos cinquenta corpos só em uma ala”. Em uma gravação, uma mulher chora diante de um funcionário e implora: “Me deixe levar meu filho. Não vou falar com ninguém”.

Organizações que monitoram o Irã calculam em cerca de 10 mil o número de mortos desde o início da nova onda de protestos, no começo de janeiro. As manifestações se espalham por Teerã e outras grandes cidades, impulsionadas por denúncias de corrupção, crise econômica e décadas de restrição a liberdades civis. A resposta do Estado combina uso de munição real, prisões em massa e controle rígido da informação.

Autoridades iranianas não divulgam dados oficiais de mortos e presos. Grupos locais relatam que hospitais recebem ordens diretas de não registrar vítimas como decorrentes de confrontos políticos. Em muitas certidões de óbito, a causa da morte aparece como “parada cardíaca” ou “acidente”, apesar de relatos de marcas de bala e sinais de espancamento.

Famílias sob pressão e cobrança por corpos

O luto também vira campo de disputa. Parentes contam que são pressionados a assinar termos de silêncio para liberar os corpos. Alguns relatam cobrança de valores equivalentes a vários salários mínimos locais para cobrir supostos “custos de sepultamento” ou “danos ao patrimônio público” causados pelos protestos.

Uma mãe que perde o filho de 19 anos descreve, em depoimento a uma ONG, a condição imposta: “Eles disseram que só me entregariam o corpo se eu prometesse não fazer cerimônia grande, não postar nada, não falar com jornalistas”. Segundo a mesma organização, ao menos dezenas de famílias recebem ordens para enterrar os mortos à noite, com poucos presentes e sob vigilância.

Relatórios compilados por grupos de exilados afirmam que cemitérios em Teerã e arredores registram aumento súbito de enterros em horários incomuns, entre 2h e 5h da manhã. Em alguns casos, agentes de segurança acompanham o cortejo, restringem filmagens e impedem discursos. Um ativista ouvido por telefone resume a estratégia: “Eles querem que as pessoas desapareçam duas vezes, primeiro com a morte, depois com o silêncio”.

Práticas de intimidação em funerais e velórios não são novas no Irã, mas ganham escala agora. Analistas lembram que grandes enterros ajudaram a impulsionar protestos anteriores, como em 2019 e durante a onda desencadeada pela morte de Mahsa Amini, em 2022. O regime tenta impedir que a comoção pública se converta em nova mobilização.

Controle da narrativa e reação internacional

O tratamento dado aos corpos e às famílias se soma a uma ofensiva digital. As autoridades restringem o acesso à internet em várias regiões, bloqueiam redes sociais e dificultam chamadas internacionais. Plataformas usadas por manifestantes para registrar protestos e abusos sofrem instabilidade constante. Ao mesmo tempo, a imprensa estatal descreve os mortos como “vítimas de distúrbios provocados por inimigos externos”.

Organismos internacionais recebem relatos diários de execuções sumárias, tortura em centros de detenção e desaparecimentos. Porta-vozes de entidades de direitos humanos falam em “crise humanitária aguda” e pressionam por investigações independentes. “A escala de mortes e o padrão de ocultação lembram alguns dos episódios mais sombrios da região nas últimas décadas”, afirma um especialista ouvido sob condição de anonimato, citando riscos para quem se pronuncia publicamente.

Governos ocidentais discutem novas sanções direcionadas a autoridades iranianas, incluindo congelamento de bens e restrições de viagem. Em declarações recentes, diplomatas europeus sugerem levar o caso a instâncias internacionais, como o Conselho de Direitos Humanos da ONU, com pedidos por missões de apuração no terreno. Até agora, Teerã rejeita qualquer mediação externa e acusa críticos de “interferência nos assuntos internos”.

No plano interno, a repressão altera a dinâmica das ruas. Muitos protestos em massa dão lugar a ações menores, descentralizadas, em bairros periféricos e cidades de médio porte. Grupos de jovens trocam orientações por aplicativos de mensagens e instruem manifestantes a evitar grandes aglomerações, consideradas alvos fáceis de forças de segurança. A conta humana, porém, continua a crescer, sem transparência.

O que pode mudar com a pressão global

A revelação da magnitude das mortes e do tratamento indigno aos corpos intensifica o debate internacional sobre o regime iraniano. Entidades pedem que países condicionem relações econômicas a garantias de respeito mínimo a direitos humanos, inclusive o direito de enterrar e velar mortos de forma digna. Grupos parlamentares em capitais europeias discutem, desde o início de janeiro, resoluções de condenação e pedidos por sanções coordenadas.

Na diáspora iraniana, redes de solidariedade organizam campanhas de doações, audiências públicas e atos em frente a embaixadas. O objetivo é manter o tema visível e forçar governos a reagir. “Se o mundo olhar para outro lado agora, esta violência vai se tornar o novo padrão”, alerta um ativista radicado na Europa.

As consequências políticas internas ainda são incertas. A repressão pode intimidar parte da população no curto prazo, mas também amplia o fosso entre o Estado e parcelas cada vez mais jovens e conectadas da sociedade. O número de mortos, a humilhação das famílias e a tentativa de apagar o luto público criam feridas profundas, difíceis de conciliar apenas com propaganda oficial.

Enquanto órgãos de direitos humanos tentam documentar cada vítima, a disputa passa a ser também pela memória. A pergunta que paira sobre Teerã, hoje, não é apenas quantas pessoas morreram, mas por quanto tempo o regime conseguirá controlar o que o país e o mundo sabem sobre elas.

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