Ciencia e Tecnologia

Ubisoft propõe programa de desligamento voluntário para até 200 funcionários

A Ubisoft propõe um programa de desligamento voluntário que pode atingir até 200 funcionários em sua sede em Paris. O movimento, anunciado nesta segunda-feira (26), integra uma reestruturação profunda após o cancelamento de seis jogos e o adiamento de outros sete títulos.

Reestruturação ganha corpo após cortes na linha de jogos

A medida atinge a espinha administrativa da companhia, a Ubisoft International, braço que coordena a operação global a partir da capital francesa. O programa se ancora no mecanismo de “Rupture Conventionnelle Collective” (RCC), um acordo coletivo de rescisão mútua previsto na legislação trabalhista da França, que permite desligamentos voluntários em grande escala sem que haja demissões unilaterais.

A proposta surge menos de uma semana depois de a empresa anunciar um choque de gestão em seu portfólio. Em comunicado anterior, a Ubisoft confirmou o cancelamento de seis projetos, incluindo o aguardado remake de Prince of Persia: The Sands of Time, e o adiamento de sete títulos, entre eles o suposto remake de Assassin’s Creed: Black Flag. A direção justifica a guinada como uma forma de ganhar agilidade, cortar custos e concentrar esforços em franquias com maior potencial de retorno.

O RCC ainda é apenas uma intenção formalizada. “Nenhuma decisão será final até que um acordo coletivo seja alcançado com os representantes dos funcionários e validado pelas autoridades francesas”, afirma a empresa. Somente empregados da Ubisoft International com contratos regidos pelo direito francês podem aderir ao programa. Outras entidades francesas do grupo, bem como equipes globais distribuídas por estúdios na Europa, América do Norte e Ásia, ficam fora dessa rodada.

O movimento não é isolado na história recente da companhia. Em outubro de 2025, a Ubisoft lançou um “programa voluntário de transição de carreira” para equipes dos estúdios Massive Entertainment e Ubisoft Stockholm, responsáveis por Star Wars Outlaws. Naquele momento, a direção descreveu a iniciativa como uma tentativa de ajustar o tamanho das equipes ao pipeline de desenvolvimento, sem recorrer a demissões em massa.

Impacto sobre funcionários, fãs e mercado de games

O novo programa parisiense mira até 200 posições, número que, embora modesto diante dos mais de 19 mil funcionários globais que a Ubisoft já chegou a registrar em anos recentes, pesa sobre a estrutura decisória central. As funções afetadas concentram-se em áreas corporativas e de suporte ligadas à coordenação internacional de projetos, e não em um único jogo ou franquia específica. Na prática, a empresa tenta enxugar níveis de gestão e acelerar o fluxo entre criação, produção e lançamento.

Para trabalhadores sob o regime francês, o RCC tende a oferecer condições financeiras mais estáveis do que uma demissão individual, com pacotes de saída negociados coletivamente. Ainda assim, o clima interno é de incerteza. A depender do desenho final, profissionais experientes podem optar por deixar a companhia, levando consigo memória institucional e conhecimento de processos acumulados ao longo de anos.

No mercado, o sinal é de que a Ubisoft aceita um período de retração para tentar reposicionar sua marca em meio à escalada de custos de desenvolvimento. Orçamentos de grandes produções, que facilmente ultrapassam US$ 100 milhões, pressionam margens e obrigam as editoras a fazer escolhas mais duras. A decisão de cancelar seis projetos em bloco e reavaliar sete lançamentos redesenha o calendário de jogos para os próximos dois ou três anos e frustra parte da base de fãs que aguardava novidades de franquias clássicas.

Yves Guillemot, CEO e cofundador, descreve o momento como um divisor de águas. “Essas medidas marcam um ponto de virada decisivo para a Ubisoft e refletem nossa determinação em enfrentar os desafios de frente para remodelar o Grupo a longo prazo. É uma mudança radical, apoiada em uma organização criativa mais descentralizada com tomada de decisões mais rápida”, declarou. O discurso mira também os investidores, pressionados por atrasos, críticas de qualidade e volatilidade nas vendas de grandes lançamentos.

Como parte da nova estratégia, a Ubisoft consolida sua produção em cinco “Casas Criativas”, blocos que reúnem equipes em torno de gêneros e franquias específicas. A aposta é reduzir sobreposição de tarefas, alinhar visões de longo prazo e tornar mais previsível o ciclo de desenvolvimento. Para jogadores, isso pode significar menos experimentos arriscados e maior foco em marcas conhecidas, com impactos diretos na diversidade de títulos que chegam ao mercado.

Negociações definem próximos passos da Ubisoft

O futuro imediato da reestruturação passa por uma mesa de negociação. O RCC proposto precisa do aval de sindicatos e comitês de representantes, além de validação oficial do Ministério do Trabalho francês. Esse processo pode levar semanas e abrir espaço para ajustes em critérios de elegibilidade, pacotes de compensação e medidas de apoio, como programas de recolocação e qualificação profissional.

Enquanto discute o formato da saída de até 200 funcionários, a Ubisoft redesenha também sua linha de lançamentos. Cancelamentos e adiamentos obrigam a empresa a recalibrar projeções de receita para 2026 e 2027 e a rever acordos de marketing e distribuição. O desempenho dos próximos grandes títulos, entre eles novas entradas de suas principais franquias, tende a ser decisivo para validar, ou não, a estratégia mais enxuta.

A empresa se vê pressionada a provar que a “mudança radical” citada por Guillemot resulta em jogos mais bem recebidos e ciclos de produção menos turbulentos. A reação dos funcionários em Paris, o humor de investidores e a resposta do público aos próximos lançamentos vão definir se o programa de desligamento voluntário será lembrado como um ajuste pontual ou como o início de uma nova fase para a Ubisoft.

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