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EUA finalizam acordo de garantias de segurança bilaterais para a Ucrânia

O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky afirma, nesta segunda-feira (25), em Vilnius, que o acordo de garantias de segurança bilaterais com os Estados Unidos está “100% pronto” e agora depende apenas da definição de data e local para assinatura. O documento, segundo ele, coloca a proteção da Ucrânia como prioridade imediata em meio à guerra que já se aproxima do quarto ano.

Zelensky pressiona por garantias em meio à guerra prolongada

Em visita oficial à capital da Lituânia, Zelensky usa a vitrine internacional para sinalizar que a Ucrânia busca mais do que declarações de apoio de Washington. “Para nós, as garantias de segurança vêm em primeiro lugar. São garantias de segurança bilaterais dos Estados Unidos. O documento está 100% pronto, e estamos esperando que nossos parceiros confirmem a data e o local para que possamos assiná-lo”, diz o presidente ucraniano, em entrevista coletiva.

O anúncio ocorre num momento em que Kiev tenta transformar apoio político e militar, prometido desde 2022, em compromissos formais e de longo prazo. Zelensky explica que, após a assinatura, o texto ainda passará por um rito decisivo: “Após isso, o documento passará pela ratificação no Congresso dos EUA e no parlamento ucraniano, conforme nossos acordos”, afirma.

A formalização das garantias pelos Estados Unidos marca um passo sensível na arquitetura de segurança europeia desde a invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022. Ao amarrar o compromisso em um acordo bilateral, Kiev busca diminuir a incerteza sobre o ritmo de envio de armas, inteligência e recursos financeiros, que hoje depende de decisões políticas muitas vezes imprevisíveis em Washington.

O texto completo do documento ainda não é divulgado, mas interlocutores de ambos os lados indicam que ele deve prever formas de apoio militar contínuo, cooperação em defesa aérea, treinamento de tropas e compartilhamento de informações estratégicas. Não se trata, porém, de uma adesão imediata da Ucrânia à Otan, algo que Moscou coloca como linha vermelha desde antes do início da guerra.

Negociações travadas e recado a Moscou

Enquanto busca consolidar a aliança com Washington no papel, a Ucrânia volta à mesa de negociações com a Rússia. Na sexta-feira (23) e no sábado (24), delegações ucranianas e russas se reúnem em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, com mediadores norte-americanos, para discutir uma proposta de Washington para encerrar o conflito, que já se arrasta há quase quatro anos. Nenhum acordo é alcançado.

O contraste entre o impasse em Abu Dhabi e o anúncio em Vilnius ajuda a explicar o movimento de Zelensky. Ao tornar público que o documento com os Estados Unidos está finalizado, o presidente ucraniano manda um recado direto ao Kremlin de que o país não negocia a partir de uma posição isolada. A mensagem também mira o público interno, depois de meses de desgaste com bombardeios constantes, dificuldades na linha de frente e incerteza sobre novos pacotes de ajuda.

Para Moscou, um acordo de garantias bilaterais entre Washington e Kiev tende a ser apresentado como nova prova de expansão da influência militar americana na região. Para Kiev, o mesmo gesto é visto como mecanismo de sobrevivência institucional e militar, em um cenário em que o desgaste humano e econômico já se mede em centenas de milhares de vítimas e dezenas de bilhões de dólares.

No campo diplomático, a assinatura do documento pode redesenhar o equilíbrio de forças nas futuras rodadas de negociação. Com um compromisso formal dos Estados Unidos, a Ucrânia tende a chegar à mesa com maior respaldo político e, potencialmente, mais armada. Isso pressiona Moscou a calcular o custo de prolongar o conflito em um ambiente de apoio mais estruturado a Kiev.

O que muda com a ratificação nos EUA e na Ucrânia

A próxima etapa é menos simbólica e mais concreta: a ratificação legislativa. Sem aval do Congresso americano e do parlamento ucraniano, o acordo não sai do papel. Em Washington, o texto deve enfrentar um debate intenso, em um cenário de polarização doméstica e eleições presidenciais no horizonte. Setores do Partido Republicano criticam o volume de recursos enviados a Kiev e pressionam por maior controle sobre prazos, metas e transparência do apoio.

Na prática, cada voto no Capitólio pode se transformar em termômetro do compromisso dos Estados Unidos com a segurança europeia. Um aval amplo tende a reforçar a mensagem de que a ajuda à Ucrânia não é apenas uma política de governo, mas de Estado. Uma aprovação apertada, ao contrário, pode alimentar dúvidas sobre a durabilidade do apoio em futuros mandatos presidenciais.

Em Kiev, a ratificação também carrega peso político. Deputados enfrentam a tarefa de explicar à população quais obrigações a Ucrânia assume em troca das garantias. A discussão envolve temas como reformas nas Forças Armadas, níveis mínimos de investimento em defesa e ajustes legais para aprofundar a cooperação com os Estados Unidos. O governo Zelensky tenta mostrar que não se trata de perda de soberania, mas de uma rede de proteção em um ambiente de risco permanente.

O impacto se estende a outras capitais europeias. Países da Otan observam como o acordo bilateral se encaixa em compromissos já existentes dentro da aliança. Estados mais expostos, como Polônia e países bálticos, veem a formalização das garantias como escudo adicional contra o avanço russo. Para governos mais reticentes a um confronto prolongado com Moscou, a medida pode aumentar a sensação de que a guerra se consolida como um conflito de longa duração, com custos crescentes para toda a região.

Próximos passos e incertezas

A definição da data e do local da assinatura agora funciona como marcador político central. Uma cerimônia em território europeu, por exemplo, reforça a mensagem de unidade ocidental frente à Rússia. Um evento em Washington destacaria o peso doméstico do compromisso para os Estados Unidos. Em qualquer cenário, o cronograma de ratificação deve ocupar boa parte da agenda política dos dois países nos próximos meses.

Enquanto isso, os combates continuam e as conversas de paz permanecem frágeis. A proposta discutida em Abu Dhabi não produz resultados imediatos, e nenhuma das partes dá sinais públicos de concessões estruturais. O acordo de garantias de segurança, mesmo robusto, não encerra a guerra sozinho. Ele define, porém, o tipo de apoio que a Ucrânia pode esperar se o conflito se alongar por mais um, dois ou três anos.

Ao anunciar que o texto está pronto, Zelensky tenta reduzir a margem de incerteza em um tabuleiro volátil, no qual cada atraso custa vidas e recursos. A resposta dos parlamentares em Washington e em Kiev vai indicar se a promessa de segurança se transforma em compromisso duradouro ou se permanece mais uma aposta em um cenário em que nenhuma garantia é completa enquanto os canhões ainda disparam.

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