Lula cobra cooperação contra crime e estabilidade na Venezuela
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defende, nesta segunda-feira (26), maior cooperação com os Estados Unidos no combate ao crime organizado e estabilidade política na Venezuela. Em diálogo com o ex-presidente americano Donald Trump, o petista vincula segurança regional e recuperação econômica na América Latina.
Segurança regional entra no centro do diálogo
A conversa, realizada a partir do Brasil com interlocutores nos Estados Unidos, ocorre em meio à escalada de facções transnacionais e ao avanço do tráfico de armas e drogas nas fronteiras sul-americanas. Lula insiste que o combate ao crime já não cabe a ações isoladas de cada país e precisa de coordenação política, troca de informações e operações conjuntas, especialmente entre Brasília e Washington.
O presidente argumenta que a estabilidade política na Venezuela é peça-chave desse tabuleiro. Sem um mínimo de normalidade institucional em Caracas, avalia, o entorno sul-americano permanece vulnerável a rotas ilegais, migrações forçadas e disputas internas que drenam recursos públicos e afastam investimentos. A leitura compartilhada com aliados é que o vizinho do Norte continua sendo ator decisivo nessa equação.
Crime organizado, contas externas e risco econômico
Lula usa o momento para conectar segurança e economia. O Brasil fecha 2025 com o maior déficit nas contas externas em 11 anos, segundo dados preliminares levantados por economistas do governo, e teme novo rombo em 2026 caso o ambiente regional siga instável. O aumento do buraco nas transações com o exterior pressiona o câmbio, encarece financiamento e limita espaço para políticas sociais e investimentos em infraestrutura.
Integrantes da equipe econômica admitem, em privado, que o crime organizado já pesa na conta do desenvolvimento. Operações de lavagem de dinheiro, contrabando em larga escala e tráfico de drogas movimentam bilhões de reais por ano fora do circuito formal. A insegurança afasta empresas, adia projetos e encarece seguros, logística e crédito. “Nenhum país cresce com quadrilhas mandando nas fronteiras e nas cidades”, diz um assessor próximo de Lula, resumindo o tom do recado enviado aos americanos.
Venezuela volta ao radar da diplomacia
O diagnóstico sobre a Venezuela reaparece como ponto sensível. A crise política e econômica do país vizinho já provoca, há quase uma década, ondas de migração para o Brasil e outros países latino-americanos, pressiona serviços públicos em cidades de fronteira e amplia a vulnerabilidade social. Para o Planalto, um acordo mínimo entre governo e oposição em Caracas reduziria tensões internas e abriria espaço para cooperação em fronteira, energia e comércio.
Lula insiste, segundo auxiliares, que a solução precisa ser negociada e acompanhada por organismos multilaterais e por países com influência direta, entre eles Estados Unidos, Brasil, Colômbia e México. A leitura é que sem um consenso básico sobre eleições, respeito a instituições e previsibilidade regulatória, a Venezuela continua sendo foco de instabilidade e vetor de insegurança para a região. O diálogo com Trump, ainda que informal, é visto como gesto político a uma parte do espectro americano que mantém influência nas discussões sobre sanções e acordos.
Cooperação prática e disputa de narrativas
O governo brasileiro tenta transformar o discurso em medidas concretas. A ideia em discussão inclui operações coordenadas de inteligência contra organizações criminosas que atuam em múltiplos países, além de protocolos comuns de rastreamento financeiro para sufocar recursos de facções que usam contas no exterior. Há ainda conversas preliminares sobre reforço de fiscalização em portos e aeroportos estratégicos, com apoio tecnológico e treinamento conjunto.
Diplomatas destacam que o debate ocorre em meio a uma disputa de narrativas sobre segurança. Setores conservadores nos Estados Unidos pressionam por políticas mais duras na fronteira sul, enquanto governos latino-americanos cobram responsabilidade compartilhada no controle da demanda por drogas e na circulação de armas fabricadas em território americano. Ao defender cooperação, Lula tenta se posicionar como articulador regional, capaz de dialogar com diferentes governos e correntes políticas.
Pressão sobre investimentos e políticas públicas
Os números das contas externas funcionam como alerta adicional. O déficit, que se aproxima dos níveis registrados em 2014 e 2015, aciona memórias recentes de crise cambial e de retração de investimentos. Investidores estrangeiros olham para a América Latina medindo risco político, solidez fiscal e capacidade de conter o crime organizado, que cresce em paralelo às fragilidades institucionais de alguns países.
No Brasil, a combinação de rombo externo, juros ainda elevados e insegurança em áreas-chave pode forçar o governo a rever prioridades. A equipe econômica discute ajustes fiscais, revisão de incentivos e novas parcerias com o setor privado para manter projetos de infraestrutura. Sem melhora da percepção de segurança regional, o esforço para atrair capital de longo prazo tende a enfrentar mais resistência.
Próximos movimentos e incertezas
A expectativa em Brasília é que as declarações de Lula alimentem uma agenda de reuniões bilaterais e fóruns multilaterais ao longo de 2026. A diplomacia trabalha para incluir o tema da cooperação contra o crime organizado em encontros regionais, como a Celac e o Mercosul, e em mesas com representantes do governo americano e de organismos internacionais.
Os próximos meses devem testar a capacidade do Brasil de converter o discurso em resultados mensuráveis, como redução de rotas de tráfico, acordos de extradição mais ágeis e operações financeiras conjuntas contra lavagem de dinheiro. A incógnita permanece na Venezuela, onde a instabilidade política se prolonga e desafia qualquer previsão. A ofensiva diplomática de Lula, estimulada pelo déficit externo recorde e pela escalada do crime organizado, entra em campo com uma pergunta ainda em aberto: até que ponto a cooperação internacional será suficiente para redesenhar o mapa da segurança e do desenvolvimento na América Latina.
