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Lula adota cautela para conter desgaste no caso Banco Master

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva adota, em janeiro de 2026, uma estratégia de contenção de danos no escândalo do Banco Master. O Planalto tenta afastar o governo da crise e reforça o discurso de autonomia dos órgãos de investigação. A preocupação é evitar desgaste político às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.

Planato tenta blindar o governo em ano pré-eleitoral

No Palácio do Planalto, a ordem é clara: tratar o caso Banco Master como assunto técnico e jurídico, não como disputa política. A avaliação de auxiliares presidenciais é que qualquer passo em falso pode transformar a crise financeira em munição de campanha, com impacto direto sobre a disputa municipal deste ano e sobre a corrida presidencial de 2026, já no horizonte.

O escândalo, que envolve suspeitas de fraudes financeiras e terminou na liquidação extrajudicial do Banco Master pelo Banco Central, acende alerta no núcleo político. A intervenção do BC, órgão formalmente autônomo desde 2021, expõe a gravidade da situação e alimenta o debate público sobre a capacidade do sistema de supervisão financeira. O governo tenta se manter à margem desse embate, mesmo sob pressão da oposição para se posicionar de forma mais contundente.

Estrategia é isolar o caso e reforçar autonomia das instituições

Nos bastidores, Lula orienta ministros e líderes da base aliada a evitar declarações sobre personagens específicos da investigação. A narrativa oficial é de respeito absoluto à autonomia do Banco Central, da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, responsáveis pelas apurações. “Esse é um caso de polícia, de Ministério Público e de Banco Central. O governo não interfere em investigação”, repete um assessor palaciano, em caráter reservado.

A cautela também mira a preservação da imagem do próprio presidente, que em outros momentos da carreira política já se envolveu pessoalmente em crises econômicas e empresariais. Agora, a estratégia é outra. Em vez de tentar mediar conflitos em público, o Planalto aposta na discrição e na disciplina de discurso. A ordem é falar pouco, evitar adjetivos e transferir a cena para as instituições encarregadas de apurar o caso.

Integrantes do governo avaliam que, até aqui, o maior desgaste não recai sobre o Executivo, mas sobre o Judiciário. A atuação do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, vira alvo de críticas de diferentes espectros políticos, inclusive de setores próximos ao governo. A exposição do STF no debate sobre decisões relacionadas ao Banco Master, segundo interlocutores, ajuda o Planalto a manter distância da linha de fogo, ainda que aumente a tensão entre Poderes.

Lula tenta, ao mesmo tempo, preservar a narrativa de que o combate a irregularidades financeiras é política de Estado. Aliados destacam, em conversas reservadas, que não há distinção entre grandes banqueiros, empresários ou qualquer cidadão quando há suspeita de crime. “Se houver prova de irregularidade, tem de responder, seja quem for”, resume um integrante do governo, ecoando a mensagem que o presidente deseja ver consolidada na opinião pública.

Risco político envolve imagem do governo e confiança nas instituições

O temor no núcleo político é que o caso se transforme em símbolo de conivência com abusos no sistema financeiro, cenário considerado desastroso em um país com histórico de desconfiança em relação a bancos e grandes grupos econômicos. O Banco Master, liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central, administrava operações bilionárias em crédito e investimentos, o que amplia a atenção de investidores e do próprio mercado financeiro às investigações.

A percepção no Planalto é de que uma condução politizada do episódio pode contaminar o ambiente econômico num momento de juros ainda elevados e crescimento modesto. A equipe política acompanha com atenção as reações de partidos de oposição, que tentam vincular o caso a uma suposta fragilidade na regulação do sistema. A estratégia governista é devolver o debate ao terreno da técnica, lembrando que decisões como a liquidação extrajudicial seguem normas rígidas e prazos formais, com fiscalização permanente.

O episódio também pressiona o discurso de campanha de Lula, que desde 2022 promete fortalecimento de órgãos de controle e tolerância zero com crimes de colarinho branco. Uma eventual percepção de complacência com banqueiros ou grandes empresários poderia atingir a base popular que o presidente tenta manter mobilizada. Por isso, o Planalto insiste na ideia de que o caso Banco Master é prova desse compromisso, não um ponto fora da curva.

Em paralelo, a oposição investe na narrativa de que o governo age apenas reativamente e evita enfrentar causas estruturais das fraudes financeiras. Líderes de partidos de centro e direita prometem apresentar projetos de lei com regras mais duras para instituições financeiras envolvidas em escândalos, como aumento de multas, responsabilização de executivos e maior transparência em operações de alto risco. O debate legislativo tende a ganhar corpo nos próximos meses, na esteira do caso Master.

Investigações em curso e disputa de narrativa até 2026

A expectativa no governo é que o avanço das investigações, conduzidas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República, reduza o espaço para versões políticas e boatos. A liquidação extrajudicial, determinada pelo Banco Central, abre um processo que pode se arrastar por meses, com levantamento detalhado de ativos, passivos e eventuais responsabilidades criminais e administrativas. Cada laudo técnico e cada denúncia formal tende a alimentar novas rodadas de disputa pública.

No curto prazo, a prioridade do Planalto é não permitir que o caso se torne assunto diário na agenda do presidente. A ideia é confinar o tema ao campo jurídico, mantendo Lula focado em agendas econômicas e sociais com maior retorno eleitoral, como programas de renda, investimentos em infraestrutura e ações na área de crédito popular. Qualquer fala improvisada sobre o Banco Master é tratada como risco calculado.

À medida que 2026 se aproxima, o desenrolar do escândalo pode influenciar o tom da campanha e a confiança do eleitor nas instituições. Se as investigações apontarem responsáveis claros e entregarem respostas consistentes, o governo tende a reivindicar o resultado como prova de que o sistema funciona. Se prevalecer a percepção de impunidade ou proteção a interesses econômicos, o caso pode se somar à lista de temas explorados pela oposição em palanques e redes sociais.

No Planalto, a leitura é que a crise do Banco Master se tornará um teste de estresse para a promessa de normalidade institucional feita por Lula ao voltar ao poder. A dúvida que permanece é se a estratégia de silêncio calculado e respaldo às instituições será suficiente para atravessar o escândalo sem que ele deixe marcas profundas na narrativa do governo até as urnas de 2026.

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