Estados eliminam baliza e ladeira do exame de CNH a partir de 2026
Os departamentos de trânsito de São Paulo, Amazonas, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul decidem acabar com os testes de baliza e ladeira na prova prática da CNH a partir de janeiro de 2026. Os exames também passam a aceitar veículos com câmbio automático tanto na primeira habilitação quanto nas renovações, em uma mudança que promete alterar o dia a dia de candidatos, autoescolas e examinadores.
Prova mais curta e alinhada à nova frota
As alterações marcam uma das maiores revisões recentes na forma de avaliar novos motoristas nos quatro estados. A prova prática, que hoje costuma durar entre 15 e 20 minutos e concentra boa parte da tensão na baliza e na arrancada em rampa, passa a priorizar o percurso em via pública e situações de trânsito real. A baliza em vaga demarcada e o teste de controle do veículo em ladeira, realizados em área fechada, deixam de ser exigidos formalmente no roteiro.
Autoridades estaduais afirmam que a mudança busca modernizar o exame e aproximá-lo da experiência cotidiana de quem dirige em cidades cada vez mais congestionadas e cheias de tecnologia embarcada. A autorização para veículos automáticos atende a uma fatia crescente da frota: em São Paulo, concessionárias estimam que mais de 60% dos carros novos vendidos em 2024 já saem de fábrica sem pedal de embreagem. “Não faz sentido obrigar o candidato a ser avaliado em um tipo de câmbio que ele provavelmente não usará nunca mais”, resume, sob condição de anonimato, um servidor de um Detran do Sudeste envolvido na discussão.
Fim da baliza muda rotina de autoescolas
A decisão atinge diretamente centenas de centros de formação de condutores espalhados pelos quatro estados. Durante anos, a baliza e a ladeira funcionam como espécie de filtro emocional do exame, concentrando reprovações e alimentando cursos extras específicos para essas manobras. Instrutores calculam que, em muitas turmas, mais da metade das horas práticas acabam consumidas na repetição do mesmo exercício entre cones e marcas de tinta no chão.
Com a nova regra, escolas precisam redesenhar o currículo. A tendência é migrar parte do treinamento para trajetos mais longos em avenidas, cruzamentos complexos e vias com maior fluxo, simulando congestionamentos, mudanças de faixa e convivência com motociclistas e ciclistas. A mudança também mexe no bolso. Pacotes de “reforço de baliza”, que hoje custam entre R$ 200 e R$ 400 em capitais como São Paulo e Vitória, tendem a desaparecer ou se transformar em módulos opcionais para quem ainda deseja treinar a manobra por conta própria.
Diretores de autoescolas ouvidos pela reportagem veem oportunidade, mas manifestam cautela. “Se a prova for realmente mais focada em trânsito real, o aluno sai ganhando. O risco é virar só um trajeto curto e previsível, sem desafio”, afirma o proprietário de uma autoescola na zona leste paulistana. Ele teme que a simplificação burocrática seja confundida com facilitação irrestrita. “Tirar o medo da baliza é bom, mas não podemos formar motoristas que dependem do sensor de estacionamento para tudo.”
Pressão menor para o aluno, dúvidas sobre segurança
Para o candidato comum, o impacto aparece logo na inscrição. A partir de 1º de janeiro de 2026, quem agenda a prova prática nos Detrans desses estados pode escolher realizar o exame em carro automático sem qualquer restrição posterior na CNH. Hoje, muitos alunos que aprendem em veículos automáticos acabam sendo avaliados em modelos manuais, por falta de frota disponível nas bancas de exame ou por exigência do próprio órgão.
A expectativa de instrutores é de redução nas taxas de reprovação já no primeiro semestre de 2026, sobretudo entre candidatos com mais de 50 anos e pessoas que voltam a dirigir após longos intervalos. A eliminação de etapas consideradas traumáticas tende a diminuir o número de faltas por ansiedade e crises de pânico, que hoje obrigam remarcações e empurram o processo por meses. Em grandes cidades, o tempo médio entre a primeira aula prática e a aprovação pode ultrapassar seis meses. Com menos retornos à pista de exame, Detrans projetam agilizar a fila e abrir mais vagas de agendamento.
Especialistas em segurança viária, porém, cobram contrapartidas. A crítica mais comum é que, sem a baliza e o teste de ladeira, o exame perde critérios objetivos de avaliação de destreza fina com o veículo. Em cidades com topografia acidentada, como Vitória e regiões de morro em São Paulo, o controle em subida continua sendo parte da rotina do motorista. “A habilidade de parar e arrancar em aclive não desaparece porque o carro é automático. Ela só muda de forma”, observa um engenheiro de tráfego ouvido pela reportagem. Ele defende que as bancas usem trechos de rua com leve inclinação no percurso para observar a reação do candidato.
Debate nacional e próximos passos
A iniciativa abre espaço para um debate mais amplo sobre o modelo de avaliação adotado no país desde a virada dos anos 2000, quando a prova prática padronizada com baliza demarcada se espalha pelos estados. A decisão de São Paulo, Amazonas, Espírito Santo e Mato Grosso do Sul tende a servir de laboratório para o restante do país ao longo de 2026. Caso as estatísticas de acidentes envolvendo motoristas recém-habilitados não sofram piora, outros Detrans podem seguir a mesma trilha.
Nos bastidores, técnicos admitem que monitoram dados de sinistros em pelo menos três janelas de tempo: 3, 6 e 12 meses após a emissão da nova CNH. A meta é ter números concretos para sustentar futuras decisões, seja para consolidar as mudanças, seja para reintroduzir etapas específicas, se necessário. Enquanto isso, candidatos correm contra o calendário. Quem prefere enfrentar o modelo antigo tenta antecipar o processo até dezembro de 2025. Quem encara a virada como alívio calcula que, a partir de 2026, o desafio maior será provar que dirigir bem vai muito além de encaixar o carro entre cones.
