Segundo vazamento em mina da Vale em 24h acende alerta em MG
Um segundo vazamento em uma mina da Vale é registrado na noite de domingo (25) em Congonhas (MG), em menos de 24 horas do primeiro episódio. O governo de Minas Gerais anuncia autuação contra a mineradora e fala em falha grave de segurança justamente no dia em que a tragédia de Brumadinho completa sete anos.
Vazamento em dia simbólico reacende trauma da mineração
O novo vazamento ocorre em 25 de janeiro de 2026, data em que o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, que matou 272 pessoas em 2019, completa sete anos. A coincidência de datas amplia o clima de tensão em Congonhas e em toda a região mineradora do Quadrilátero Ferrífero. Moradores relatam medo de um novo desastre e desconfiança em relação às promessas de segurança feitas desde então pela empresa e pelas autoridades.
O governo de Minas confirma que o incidente envolve estrutura operacional da Vale em Congonhas e fala em risco concreto para cursos d’água, vegetação nativa e animais da área de influência direta da mina. Técnicos da Secretaria de Meio Ambiente e da Defesa Civil estadual são deslocados ainda na noite de domingo para avaliar a extensão dos danos. A estimativa preliminar aponta potencial de contaminação de solo e água, cenário que pode se agravar nas próximas horas caso a contenção não seja efetiva.
Autuação imediata e questionamentos sobre segurança
O Palácio Tiradentes informa que a Vale já é formalmente autuada pelo segundo vazamento em sequência. A decisão é tomada poucas horas depois da confirmação do novo episódio, em meio à pressão política e social intensificada pela memória de Brumadinho. Em nota, o governo afirma que a repetição do problema em menos de 24 horas evidencia “falha grave de gestão de risco” e determina a abertura de procedimento administrativo para apurar responsabilidades técnicas e gerenciais.
Especialistas em mineração ouvidos pela reportagem apontam que dois vazamentos sucessivos em intervalo inferior a um dia indicam, no mínimo, deficiência de manutenção e monitoramento das estruturas. A Vale afirma ter reforçado protocolos de segurança, planos de emergência e sistemas de alerta desde 2019, após compromissos assumidos em acordos que ultrapassam R$ 37 bilhões em reparação pela tragédia de Brumadinho. O novo episódio, porém, expõe dúvidas sobre a eficácia real dessas medidas no cotidiano das operações.
Comunidades vizinhas à mina em Congonhas pressionam por informações claras. Moradores cobram mapas de inundação atualizados, definição de rotas de fuga e sirenes funcionais, pontos que já estavam no centro das discussões após os acidentes de Mariana, em 2015, e de Brumadinho, em 2019. “A gente escuta falar em protocolo, mas o que queremos é saber para onde correr e se a água que chega em casa continua segura”, diz um morador da região, que prefere não se identificar por medo de retaliações.
Impacto ambiental e pressão por fiscalização mais dura
A extensão do dano ambiental ainda não é totalmente conhecida, mas órgãos de fiscalização trabalham com o cenário de ameaça séria à fauna e à flora locais. Áreas de preservação permanente, como margens de córregos e nascentes, entram no mapa de risco imediato. Técnicos avaliam em campo a qualidade da água e do solo, em busca de metais pesados e sedimentos que possam comprometer o abastecimento de comunidades rurais e urbanas próximas.
O caso em Congonhas ocorre em um dos municípios mais vigiados do país quando o assunto é mineração. A cidade abriga patrimônios históricos do século XVIII e tem parte de seu território recortado por minas de ferro e estruturas de rejeitos. Entidades ambientais lembram que, nos últimos dez anos, acidentes e incidentes envolvendo barragens e estruturas de contenção em Minas pressionam por uma mudança de modelo na exploração mineral. “A recorrência de vazamentos mostra que não se trata de episódio isolado, mas de um sistema que naturaliza o risco”, afirma um pesquisador da área de geotecnia da UFMG.
No campo político, o segundo vazamento em 24 horas eleva a cobrança sobre os órgãos de controle. A Assembleia Legislativa de Minas sinaliza possibilidade de novas audiências públicas e de revisão de prazos de descaracterização de barragens a montante, tecnologia proibida após Brumadinho. Ministério Público estadual e federal já acompanham casos anteriores envolvendo a Vale e podem ampliar a atuação em Congonhas, com pedidos de perícias independentes, bloqueio de valores e imposição de metas rígidas de recuperação ambiental.
Próximos passos e pressão por transparência da Vale
A autuação anunciada pelo governo de Minas deve se desdobrar em multas ambientais que podem chegar a dezenas de milhões de reais, dependendo da gravidade confirmada. A Vale terá prazo legal, que costuma variar entre 20 e 30 dias, para apresentar sua defesa administrativa. Paralelamente, a empresa será cobrada a detalhar em relatórios públicos as causas técnicas dos vazamentos, as ações de contenção adotadas e os planos de reparação às áreas atingidas.
O episódio em Congonhas tende a fortalecer o discurso de entidades que pedem revisão profunda das regras de licenciamento ambiental no país, com foco específico na mineração. Governos estaduais e federal enfrentam o desafio de equilibrar arrecadação, geração de empregos e segurança de comunidades inteiras em áreas mineradas. A memória ainda viva de Brumadinho, reforçada pela data de 25 de janeiro, transforma o novo vazamento em um teste político e moral para autoridades e para a Vale. A resposta dada nos próximos dias indicará se o aprendizado das tragédias recentes se traduz, de fato, em mudança concreta na forma de explorar o minério em Minas Gerais.
