Harry Massis assume São Paulo em meio à maior crise e mira caixa
Harry Massis Júnior completa a primeira semana como presidente interino do São Paulo tentando apagar incêndios na Barra Funda. Desde o afastamento de Julio Casares, há sete dias, o dirigente concentra esforços para reorganizar as finanças, pacificar o vestiário e redesenhar o comando do futebol. A missão é atravessar a maior crise política da história recente do clube sem agravar o rombo nas contas.
Reaproximação com o elenco e cortes no alto escalão
O novo presidente recebe jornalistas no Centro de Treinamento da Barra Funda e se apresenta como um gestor de transição. Ele passa a semana em reuniões com jogadores, comissão técnica e dirigentes, numa tentativa de reconstruir a confiança abalada por meses de turbulência política. A cobrança é direta: pagamento dos atrasados de direito de imagem e previsibilidade de caixa.
As pendências com atletas se arrastam há vários meses e já viram assunto recorrente nas entrevistas de Hernán Crespo. Em duas coletivas recentes, o técnico expõe o incômodo do elenco com atrasos e incertezas. O problema não é apenas de fluxo de caixa. A falta de clareza sobre quando e como as dívidas serão quitadas pesa na decisão de atletas que analisam ofertas de outros clubes e desestimula negociações por reforços pontuais.
Massis entende que não há espaço para promessas vagas. Internamente, define como prioridade absoluta um plano para liquidar os direitos de imagem em aberto, estimados em meses acumulados de atraso, antes de discutir qualquer investimento relevante em novos nomes. O recado para a cúpula do futebol é simples: primeiro, cumprir o que está assinado; depois, pensar em contratações de oportunidade, sem aventuras financeiras.
A mudança no topo também cobra um preço político. Em menos de uma semana, o presidente interino promove o desligamento de aliados centrais de Casares. O principal é o superintendente geral e CEO, Marcio Carlomagno, responsável por todo o desenho da temporada de 2026 no futebol profissional. A saída força uma revisão das prioridades definidas para o ano e expõe o grau de ruptura com o modelo anterior. O diretor social Antônio Donizete Gonçalves, o Dedé, também deixa o cargo, num recado de que lealdade à antiga gestão já não é blindagem suficiente.
Apesar dos cortes estratégicos, Massis evita uma reforma completa na diretoria neste primeiro momento. Os diretores executivos de marketing, Eduardo Toni, e de finanças, Sérgio Pimenta, permanecem em seus postos. A leitura de conselheiros próximos ao presidente é que a troca de toda a cúpula aumentaria o risco de paralisia administrativa justamente quando o clube precisa de respostas rápidas para a crise de caixa.
Futebol sem caciques políticos e base no centro do projeto
No departamento de futebol, as mudanças são mais profundas. Muricy Ramalho deixa a coordenação, e o ex-lateral Rafinha assume espaço ampliado na estrutura. O plano imediato não prevê a nomeação de um novo diretor de futebol. Massis quer afastar, ao menos neste início, conselheiros e figuras diretamente ligadas à política interna da gestão esportiva. A intenção é reduzir interferências e deixar o vestiário menos exposto às disputas eleitorais que se arrastam pelos corredores do Morumbi.
A decisão não encerra a pressão. Grupos internos cobram mais demissões de dirigentes associados a Casares e tentam emplacar nomes próprios para cargos estratégicos. O presidente interino administra o tabuleiro com um prazo conhecido: tem menos de um ano até as próximas eleições, marcadas para 2026, e promete publicamente que não será candidato. O compromisso abre espaço para uma gestão mais técnica, mas também limita seu poder de barganha com as diferentes alas do clube.
Enquanto o profissional tenta estabilizar o ambiente, Cotia volta ao centro do debate. A base, historicamente a principal fonte de revelações e receitas do São Paulo, entra na lista de prioridades de Massis. O presidente já sinaliza a aliados que vai mexer na estrutura do centro de treinamento. Douglas Schwartzmann, afastado após o escândalo do camarote clandestino, não retorna ao cargo, e outras mudanças na gestão devem ser anunciadas nas próximas semanas.
O discurso interno aponta para uma guinada de filosofia. A meta é obter mais retorno esportivo dos garotos antes da venda, evitando negociações aceleradas por valores considerados abaixo do potencial de mercado. A integração do técnico Allan Barcellos à comissão profissional, oficializada após a final da Copa São Paulo, ilustra essa aposta. O treinador é visto como opção futura para comandar o time principal e, no curto prazo, como ponte para facilitar a adaptação dos jovens ao elenco.
O modelo busca um equilíbrio delicado. O clube precisa vender para fazer caixa e aliviar dívidas, mas não pode queimar ativos em transferências pressionadas pela urgência do momento. Um jogador que rende uma temporada completa em alto nível pode multiplicar seu valor de mercado em poucos meses. O desafio é encontrar esse ponto sem repetir erros recentes, quando a necessidade de dinheiro imediato levou à saída de promessas por cifras consideradas baixas por conselheiros e torcedores.
Recuperação de imagem e horizonte até a eleição de 2026
O efeito imediato das decisões de Massis se mede em dois campos: desempenho do time e humor do ambiente. O vestiário aguarda sinais concretos de regularização dos pagamentos. A confiança dos jogadores tende a subir se o dinheiro cair na conta na data combinada, algo que não acontece de forma consistente nos últimos meses. Uma folha em dia reduz o ruído interno e fortalece o discurso de cobrança por resultados esportivos.
No mercado, a mensagem é de prudência. O São Paulo se limita a trocas, contratos de curta duração e negócios considerados de oportunidade, sem competir por leilões de grandes nomes. A estratégia tenta proteger o clube de novos rombos, mas também pode deixá-lo em desvantagem esportiva diante de rivais com maior poder de investimento imediato. O balanço entre austeridade e competitividade será medido rodada a rodada, especialmente em clássicos e mata-matas.
Massis se afasta, por ora, de debates estruturais sobre o modelo político do clube. Não entra em discussões sobre SAF, abertura de voto direto para sócios ou ampliação do poder do sócio-torcedor. O foco declarado é atravessar a fase aguda da crise institucional e esperar o avanço das investigações da Polícia Civil e do Ministério Público sobre os episódios que levaram ao afastamento de Casares. O cálculo é que qualquer mudança de regime neste momento pode aprofundar divisões internas.
A imagem do São Paulo, construída em décadas como referência de gestão e títulos, sofre abalos sucessivos desde 2015, com crises políticas, queda de desempenho e dívidas crescentes. A atual intervenção na rotina do clube recoloca essa reputação em disputa. Uma condução minimamente estável até a eleição de 2026 pode recolocar o São Paulo em outro patamar de credibilidade com torcedores, patrocinadores e mercado. Um novo tropeço institucional, por outro lado, tende a encarecer empréstimos, afastar investidores e acelerar a saída de talentos formados em casa.
O mandato-tampão de Harry Massis Júnior nasce com prazo, pressão e poucas margens para erro. As próximas semanas dirão se o presidente interino consegue transformar cortes, renegociações e a aposta na base em um projeto minimamente coerente, ou se a maior crise política da história recente do clube ainda guarda desdobramentos capazes de redesenhar mais uma vez o mapa de poder no Morumbi.
