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Lançamento da Copa de 2027 expõe machismo em festa da Fifa no Rio

A Fifa lança neste domingo (25), em Copacabana, a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será disputada no Brasil em 515 dias. A cerimônia oficial vira alvo de críticas por dar protagonismo a dirigentes homens, exotizar a cultura brasileira e ignorar pioneiras do futebol feminino.

Palco montado à beira-mar, mas com poucas mulheres

O calçadão de Copacabana ganha telões, luzes e um palco de grandes shows para o anúncio da primeira Copa do Mundo feminina no país. No centro da festa, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, tenta algumas frases em português, erra a pronúncia, ri de si mesmo e segue em inglês. Ele parece confortável sob refletores que, para parte da comunidade do futebol feminino, iluminam as pessoas erradas.

As cadeiras da área vip exibem gravatas em série. Dirigentes, políticos e executivos preenchem a maior parte do espaço nobre. No palco, a apresentadora Barbara Coelho se torna uma das poucas mulheres em posição de comando visível. Ao lado dela, o desfile de homens é constante, enquanto jogadoras aparecem mais como personagens de vídeo ou coadjuvantes em blocos específicos do roteiro.

Formiga e Cristiane, duas das maiores jogadoras da história da seleção, sobem ao palco em momento de homenagem. Marta participa por vídeo, em aparição breve. Imagens em telão mostram dribles, gols e defesas de diferentes seleções femininas. O material emociona parte da plateia, mas não compensa a sensação de que a estrutura da festa permanece desenhada sob a lógica tradicional do futebol de homens falando sobre mulheres.

As apresentações artísticas reforçam essa percepção. Bailarinas com saias curtas dançam coreografias que misturam samba, funk e referências genéricas ao “calor tropical”. A câmera insiste em closes de corpos femininos, enquanto, ao fundo, fileiras de ternos escuros acompanham, muitas vezes de celular em punho. A cena circula nas redes sociais ainda durante o evento e alimenta a leitura de que a Fifa vende um Brasil folclórico para plateia internacional.

Pioneiras esquecidas e cultura exotizada em cerimônia global

O roteiro prevê homenagens a campeões mundiais do futebol masculino. Ex-capitães e ídolos de Copas anteriores são chamados ao palco, apresentados como guardiões da história do torneio. Entre eles, quase nenhuma mulher. A ausência grita ainda mais porque a Copa que o Brasil recebe em 2027 é a versão feminina do maior evento da Fifa.

Figuras centrais da construção do futebol de mulheres no país ficam de fora da cena principal. Sissi, símbolo da geração que leva o Brasil ao pódio na Copa de 1999 e rosto de uma era em que jogar bola ainda era tratado como ato de rebeldia para mulheres, não é chamada ao palco. Outras atletas que atuam quando o esporte feminino ainda sofre restrições oficiais também não aparecem entre as homenageadas.

Críticas partem de especialistas, jornalistas e torcedoras nas redes sociais. Para esse grupo, o esquecimento não é detalhe de protocolo. Funciona como sinal de que a história do futebol feminino continua marginalizada, mesmo em um momento que deveria ser de consagração. “Colocar homens como protagonistas e mulheres como coadjuvantes em evento de lançamento de Copa do Mundo feminina é colocar em circulação o machismo e a misoginia das formas mais patéticas e evidentes possíveis”, resume uma das análises mais compartilhadas ao fim da noite.

A imagem do próprio Infantino alimenta a controvérsia. Há poucas semanas, o dirigente presenteia Donald Trump com uma medalha criada pela Fifa para celebrar uma suposta contribuição do ex-presidente dos EUA à paz, gesto que gera reação internacional. O episódio volta ao debate nas redes durante o lançamento no Rio e fortalece o argumento de que a liderança da entidade está distante das pautas de igualdade e direitos que atravessam o futebol feminino.

A contagem regressiva de 515 dias, exibida no telão ao lado do logo oficial do torneio, convive com um número menos explícito: o dos anos em que mulheres foram oficialmente proibidas de jogar futebol no Brasil, entre 1941 e 1979. A contradição entre o discurso de modernidade e o esquecimento dessa trajetória histórica torna o contraste ainda mais evidente para quem acompanha o evento de perto.

Pressão por mudanças na organização e na narrativa da Copa

O impacto das críticas vai além da repercussão imediata. A Copa do Mundo Feminina de 2027 movimenta bilhões em direitos de transmissão, patrocínios e turismo. O lançamento no Rio funciona como vitrine global do que o Brasil oferece e do que a Fifa pretende comunicar. A leitura de que o evento reforça velhos estereótipos ameaça parte desse capital simbólico num momento em que marcas e torcedores cobram coerência com discursos de diversidade.

Especialistas em gestão esportiva apontam que a construção da imagem do torneio passa, necessariamente, por quem ocupa o centro do palco. Quanto mais as jogadoras forem tratadas como atração secundária, mais difícil será consolidar o produto da Copa feminina como algo autônomo, com valor próprio, capaz de atrair novas torcidas e investimentos. O descompasso entre discurso oficial e prática, exposto na festa de Copacabana, deve alimentar esse debate em federações, clubes e conselhos de atletas.

Dirigentes brasileiros ligados ao futebol feminino já discutem, nos bastidores, formas de ampliar a participação de mulheres em próximos eventos, tanto em cargos executivos quanto em espaços de visibilidade. Pressão semelhante vem de parte da imprensa esportiva, que cobra transparência sobre os critérios de escolha de homenageados, curadoria artística e participação das atletas no planejamento da programação.

Nos próximos meses, a Fifa precisa definir calendário detalhado, sedes, centros de treinamento e ações promocionais para a Copa de 2027. Grupos de torcedoras e coletivos de jogadoras prometem acompanhar cada etapa, com foco em representatividade e respeito à história do futebol feminino. A forma como a entidade reage às críticas deste lançamento tende a indicar se a Copa no Brasil será apenas mais um grande negócio ou oportunidade real de reparar décadas de negligência.

A festa em Copacabana encerra com fogos sobre o mar, música alta e discursos de otimismo. A pergunta que permanece, a 515 dias do pontapé inicial, é se até lá a Fifa será capaz de colocar as mulheres, enfim, no centro da própria Copa do Mundo feminina que diz celebrar.

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