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Brasil oficializa candidatura para sediar Mundial de Clubes da Fifa em 2029

O governo brasileiro formaliza, nesta segunda-feira (26), o pedido para sediar o Mundial de Clubes da Fifa de 2029. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresenta a candidatura em reunião, em Brasília, com Gianni Infantino, Carlo Ancelotti e a cúpula da CBF, que vê na competição uma vitrine para consolidar o país como polo global do futebol.

Reunião em Brasília sela gesto político e esportivo

No Palácio, em Brasília, Lula se encontra na manhã desta segunda com o presidente da Fifa, Gianni Infantino, o técnico Carlo Ancelotti, o vice-presidente da CBF, Gustavo Dias Henrique, e o presidente da entidade, Samir Xaud. Na mesa, além da Copa do Mundo Feminina de 2027, já confirmada no Brasil, surge o pedido formal para que o país receba também o Mundial de Clubes de 2029.

A articulação parte da CBF, que costura a reunião há meses. Gustavo assume o papel de anfitrião de Infantino desde o fim de semana, quando o dirigente suíço desembarca para o lançamento oficial da marca da Copa Feminina de 2027. Entre um evento e outro, o grupo assiste ao clássico entre Fluminense e Flamengo pelo Campeonato Carioca e reforça nos bastidores o discurso de que o Brasil está pronto para voltar ao centro do mapa do futebol mundial.

A estratégia ganha contornos públicos nesta segunda. Samir Xaud leva a Lula e a Infantino o que vinha tratando como um objetivo de médio prazo desde junho do ano passado, quando aparece ao lado do presidente da Fifa em um jogo entre Flamengo e LAFC, nos Estados Unidos, pela fase de grupos do Mundial. Na ocasião, o cartola já avisava que pretendia trazer o torneio de 2029 para o país.

“É um assunto que conversei com o presidente Infantino. Vejo com bons olhos, até porque o futebol brasileiro está mostrando seu potencial nesse Mundial”, diz Samir, em conversa à época com a ESPN. Ele afirma ainda acreditar que “se Deus quiser o Brasil vai ser sede do Mundial de 2029”.

CBF vê oportunidade para reposicionar o futebol brasileiro

Na cúpula da CBF, o plano vai além de um grande evento esportivo. Dirigentes enxergam o Mundial de Clubes como peça central de uma estratégia para aumentar a exposição internacional dos clubes brasileiros, atrair novos patrocinadores e manter talentos por mais tempo no país. O discurso de Samir ecoa entre aliados: “Se depender da CBF e do presidente da CBF, nós vamos trazer esse Mundial para o Brasil”.

O Mundial de Clubes de 2029 deve seguir o novo formato ampliado da competição, com dezenas de clubes de todos os continentes e jogos disputados ao longo de semanas, em diferentes cidades. A Fifa trata o torneio como vitrine global de marcas e direitos de transmissão, capaz de movimentar bilhões de dólares em contratos comerciais. Para o Brasil, a conta não envolve apenas paixão esportiva, mas impacto em turismo, hotelaria, transporte e obras de infraestrutura.

O país se apoia na experiência recente com megaeventos. Em doze anos, organiza Copa do Mundo de 2014, Jogos Olímpicos de 2016 e se prepara agora para receber a Copa do Mundo Feminina de 2027. Estádios modernizados, rede de aeroportos ampliada e capacidade de mobilização de segurança pública entram no pacote que a CBF apresenta a Infantino como trunfo político e operacional.

O interesse da Fifa, segundo dirigentes brasileiros, não é apenas técnico. A entidade vê no Brasil um mercado de audiência gigantesco, com mais de 200 milhões de habitantes e envolvimento intenso com o futebol em todas as faixas de renda. A presença de Lula na reunião adiciona peso institucional ao gesto e sinaliza apoio direto do governo federal à candidatura, ponto decisivo em disputas dessa escala.

Impacto para clubes, economia e imagem do país

Na prática, sediar o Mundial de Clubes de 2029 redesenha o calendário do futebol e da economia em cidades escolhidas para receber jogos. Hotéis, restaurantes, aeroportos e redes de transporte público entram em projeções de aumento de demanda que podem chegar a dois dígitos nas semanas do torneio. Governos locais já começam a medir custos e benefícios de possíveis investimentos em mobilidade urbana e modernização de arenas.

O impacto direto para os clubes brasileiros também é relevante. Até agora, o Flamengo é o único time do país com vaga garantida em 2029, graças ao título da Conmebol Libertadores de 2025. A presença antecipada permite planejamento de elenco, orçamento e estratégia de marketing com horizonte de três anos, algo raro na rotina do futebol nacional. Outros clubes enxergam no torneio uma chance de reforçar receitas com bilheteria, direitos de TV e exposição global, caso conquistem as vagas restantes.

No campo simbólico, o Brasil tenta recuperar um protagonismo que escapa desde a Copa de 2014, marcada por críticas à organização, atrasos em obras e o 7 a 1 para a Alemanha. A CBF aposta que um Mundial de Clubes bem executado, com participação ativa de torcedores locais e estádios cheios, pode ajudar a reposicionar a imagem do país junto a dirigentes, jogadores e patrocinadores estrangeiros.

Empresas ligadas a construção civil, entretenimento e tecnologia acompanham o movimento com atenção. Grandes eventos esportivos costumam destravar projetos que ficam parados em momentos de incerteza econômica. Contratos de patrocínio de camisa, naming rights de estádios e acordos de parceria com clubes tendem a ganhar valor quando há uma data concreta no horizonte e exposição global garantida em dezenas de países.

Calendário político, próximos passos e incertezas

A candidatura brasileira entra agora em uma fase de negociações discretas, longe dos holofotes. A Fifa ainda precisa definir o cronograma oficial para escolher a sede do Mundial de 2029, o que tende a ocorrer entre 2026 e 2027, após a consolidação do modelo do novo Mundial de Clubes. Até lá, a CBF trabalha para amarrar apoios internos na América do Sul e construir alianças com federações de outros continentes.

Lula e sua equipe econômica avaliam impactos fiscais e possíveis parcerias público-privadas para dividir custos de eventuais obras. Governadores e prefeitos que desejam receber partidas se movimentam nos bastidores, em busca de protagonismo local e fatia maior do fluxo de turistas. O cenário abre espaço para disputas políticas, mas também para acordos regionais que podem redefinir o mapa do futebol nacional na próxima década.

Infantino, descrito por dirigentes brasileiros como entusiasta do projeto, adota discurso receptivo. “Positiva”, resume Samir Xaud sobre a reação do presidente da Fifa ao ouvir oficialmente a proposta. O sorriso do dirigente suíço agrada à delegação brasileira, mas não encerra a disputa. Outros países da Europa, da Ásia e do Oriente Médio podem aparecer no páreo com projetos agressivos, bancados por fundos estatais e redes hoteleiras globais.

O Brasil testa, mais uma vez, sua capacidade de transformar paixão em projeto. A candidatura ao Mundial de Clubes de 2029 nasce com apoio político, respaldo da CBF e um mercado consumidor único. A resposta definitiva da Fifa dirá se esse capital simbólico ainda pesa tanto quanto os bilhões colocados na mesa por outros concorrentes.

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