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Lula se irrita com Toffoli e pressiona por transparência no caso Master

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifesta, em janeiro de 2026, forte irritação com a conduta do ministro Dias Toffoli no inquérito do Banco Master. O petista critica o sigilo, cobra transparência e avalia que o caso já provoca desgaste ao Supremo.

Crise silenciosa entre Planalto e Supremo

As queixas de Lula circulam em conversas reservadas no Planalto e alcançam auxiliares diretos. O presidente acompanha de perto o inquérito que apura um rombo superior a R$ 40 bilhões e suspeitas de fraudes envolvendo o Banco Master, seus sócios e uma teia de fundos de investimento.

O incômodo não se restringe ao conteúdo da investigação. Lula reage principalmente à forma como Toffoli conduz o caso desde que assumiu a relatoria no Supremo Tribunal Federal, em Brasília. O ministro impõe sigilo amplo ao processo e acolhe pedido da defesa do banqueiro Daniel Vorcaro para levar o inquérito ao STF, decisão que surpreende o Planalto.

Em pelo menos três reuniões reservadas, Lula dispara comentários duros sobre o ministro, segundo relatos de aliados. Em desabafos, chega a dizer que Toffoli deveria renunciar ao cargo ou antecipar sua aposentadoria. Interlocutores próximos, porém, consideram improvável que o presidente faça essa cobrança de forma explícita.

Lula evita confrontar publicamente o Supremo, mas deixa claro que não pretende blindar Toffoli das críticas. O presidente avalia que as revelações sobre laços familiares do ministro com fundos ligados ao Master, somadas ao sigilo do inquérito, alimentam suspeitas de que a investigação possa ser esvaziada.

Banco Master expõe laços políticos e temor de impunidade

O caso Master ganha centralidade na agenda de Brasília ao expor a interseção entre o sistema financeiro, o centrão e aliados do governo. Daniel Vorcaro, dono do banco, mantém relações com políticos de diferentes espectros. Na Bahia, o empresário Augusto Lima, ex-sócio do Master, é próximo de Rui Costa, ministro da Casa Civil, e do senador Jaques Wagner, líder do governo no Senado.

Esse tabuleiro político torna o inquérito especialmente sensível. Lula repete a assessores que a investigação precisa avançar mesmo que atinja governistas, sob risco de o governo ser acusado de proteger aliados. Ao mesmo tempo, ele vê na apuração uma oportunidade de atingir figuras do centrão e da oposição envolvidas no esquema.

O presidente vocaliza, em público, a indignação com a dimensão do rombo. “Não é possível que a gente continue vendo o pobre ser sacrificado enquanto tem um cidadão do Banco Master que deu um golpe de mais de R$ 40 bilhões”, diz em discurso em 23 de janeiro. A fala sinaliza que o Planalto tenta se posicionar ao lado das vítimas do colapso financeiro e se descolar de qualquer suspeita de conivência.

Nos bastidores, porém, cresce o temor de que o sigilo decretado por Toffoli alimente a percepção de uma “grande pizza”, como define um aliado de Lula. A tensão aumenta depois de vir à tona que o escritório de advocacia de Viviane Barci, mulher do ministro Alexandre de Moraes, tem contrato milionário, de cerca de R$ 3,6 milhões mensais, para atuar em interesses ligados ao Master.

A essa revelação se somam notícias de que familiares de Toffoli mantêm negócios com um fundo de investimentos conectado à rede do banco e de que o ministro viaja em jatinho com um dos advogados do caso. O conjunto de episódios reforça pressões para que ele deixe a relatoria, movimento que, até agora, ele rejeita.

Bastidores, biografia em jogo e impacto institucional

O desconforto de Lula não nasce de um único episódio. Em dezembro, antes de parte dessas revelações, o presidente convida Toffoli para um almoço no Palácio do Planalto, com a presença do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O objetivo é medir o grau de compromisso do Supremo com o avanço das investigações.

Na conversa, descrita por Lula como amistosa, o presidente afirma que tudo o que seu governo descobriu sobre o rombo do Master “precisa ir até as últimas consequências”. Ele pergunta se essa também é a disposição do ministro, mesmo após o estabelecimento do sigilo. Segundo relatos, Toffoli responde que nada será abafado e defende o segredo de Justiça como medida necessária. Lula encerra o encontro dizendo que o ministro “fará a coisa certa” e que a relatoria é uma chance de o magistrado “reescrever sua biografia.”

Os dias seguintes, porém, mudam o clima. As notícias sobre a relação de familiares de Toffoli com o universo financeiro do Master e a viagem de jatinho acendem alertas no Planalto e no próprio Supremo. Nos corredores, ministros avaliam que o caso já arranha a imagem da Corte, que enfrenta desgaste acumulado desde a Lava Jato e os embates com o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A biografia de Toffoli, que chega ao Supremo em 2009 por indicação do então presidente Lula, volta ao centro do debate. O ministro já protagoniza choques com o padrinho político, como quando barra a ida de Lula ao velório do irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, em 2019, durante a prisão em Curitiba. Ele pede desculpas em 2022, após a eleição de Lula, mas as mágoas não se apagam por completo.

Agora, o caso Master reacende esse histórico de idas e vindas. Aliados de Lula enxergam um padrão de decisões de Toffoli que, na avaliação deles, oscila entre gestos de alinhamento ao governo e movimentos que acentuam a imagem de distanciamento. O presidente, segundo esses relatos, amadurece a ideia de uma nova conversa direta com o ministro para tratar da relatoria.

Pressão por transparência e próximos passos da crise

A irritação do Planalto coloca o Supremo sob uma lupa ainda mais intensa. Organismos de controle, partidos de oposição e setores da própria base governista cobram maior transparência no inquérito. Mesmo sob sigilo, a expectativa é que o tribunal sinalize, por meio de decisões e prazos, que a investigação avança de fato e não se arrasta até perder fôlego.

Lula, por sua vez, tenta equilibrar dois movimentos. De um lado, reforça o discurso de que o governo não interfere na Justiça e defende que “fraudes não podem poupar poderosos”. De outro, busca preservar a governabilidade, que depende do diálogo com o centrão e com ministros do Supremo em votações sensíveis, como pautas econômicas e julgamentos com impacto fiscal.

O desenrolar do caso Master tende a afetar não apenas o banco e seus controladores, mas também fundos de investimento, credores e pequenos investidores que se veem lesados pelo rombo. A forma como o STF conduz o inquérito ajuda a definir o grau de confiança do mercado e da população na capacidade do Estado de punir fraudes desse porte.

Toffoli indica a interlocutores que não cogita se declarar impedido ou suspeito. Lembra que, na história do Supremo, afastamentos de ministros em processos dessa natureza costumam ocorrer apenas por autodeclaração e quando a relação com o caso é direta e inequívoca. Argumenta que nem a viagem em jatinho nem os negócios de irmãos com um fundo relacionado ao Master comprometem sua imparcialidade.

A próxima conversa entre Lula e Toffoli, aguardada para as próximas semanas, tende a ser decisiva para o rumo da crise. O presidente quer ouvir do ministro garantias concretas de que o inquérito seguirá até o fim, sem blindagens e sem manobras processuais. No STF, cresce a percepção de que, qualquer que seja o desfecho, o tribunal sairá cobrado a explicar suas escolhas à sociedade. O processo que investiga um rombo de mais de R$ 40 bilhões já extrapola os balanços do Banco Master e se transforma em teste de confiança para as instituições brasileiras.

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