Ciencia e Tecnologia

Da Apollo à Artemis: o retorno dos astronautas à Lua em 2026

Mais de 50 anos depois do último passo humano na Lua, a Nasa se prepara para enviar quatro astronautas de volta ao entorno lunar com a missão Artemis 2, prevista para 2026. A viagem retoma, em nova chave tecnológica e geopolítica, a corrida que leva os EUA à superfície lunar entre 1969 e 1972.

Do “pequeno passo” ao silêncio de cinco décadas

Em julho de 1969, a imagem trêmula de Neil Armstrong descendo a escada do módulo Eagle inaugura uma era. Em dois anos e meio, entre Apollo 11 e Apollo 17, os EUA realizam seis pousos bem-sucedidos na Lua e transformam em rotina o que, até então, parece ficção científica. O auge vem em dezembro de 1972, quando o geólogo Harrison Schmitt caminha ao lado de um enorme rochedo no vale Taurus-Littrow, durante a Apollo 17. É o último registro de um humano na superfície lunar.

O caminho até ali é árduo, caro e arriscado. A Nasa nasce nos anos 1950 sob pressão política, depois que a União Soviética lança o satélite Sputnik, em 1957, e coloca o cosmonauta Iuri Gagárin em órbita, em abril de 1961. Menos de dois meses depois, o presidente John F. Kennedy sobe ao púlpito do Congresso e propõe uma meta quase impossível: levar um americano à Lua e trazê-lo de volta em segurança até o fim da década. O compromisso político se transforma em programa industrial e científico sem precedentes.

Antes de arriscar um pouso, os EUA testam cada etapa. Entre 1961 e 1963, a série Mercury prova que um astronauta consegue sobreviver e trabalhar em microgravidade. De 1965 a 1966, o programa Gemini treina encontros orbitais, acoplamentos e caminhadas espaciais, habilidades essenciais para montar, em pleno voo, o conjunto que irá à Lua. Só então a Nasa inicia a Apollo, em meio a uma tragédia: em 1967, um incêndio durante um teste em solo mata três astronautas e obriga a agência a redesenhar a cápsula.

Do outro lado da cortina de ferro, Moscou segue ritmo parecido. Os soviéticos colocam em operação as cápsulas Vostok e Voskhod, testam a Soyuz para voos mais longos e preparam seu próprio plano lunar. Em 1968, lançam a Zond 5 em uma trajetória ao redor da Lua com duas tartarugas e outros organismos a bordo. Oficialmente, é um voo experimental. Documentos revelados após o fim da URSS mostram que o objetivo original é enviar cosmonautas, mas os riscos freiam o avanço.

Em Washington, a leitura é outra. Quando a Apollo 7 estreia em órbita terrestre, em outubro de 1968, a Nasa ainda enfrenta atrasos na construção do módulo lunar. A direção decide, então, que a Apollo 8 dará um salto no escuro: cruzará o espaço até a Lua só com a cápsula de comando, sem veículo de pouso. Em dezembro daquele ano, Frank Borman, Jim Lovell e William Anders se tornam os primeiros humanos a orbitar o satélite. Se o motor principal falha na hora da volta, morrem ali. O risco é calculado em nome da corrida.

Triunfos, acidentes e o fim precoce da Apollo

Com a órbita lunar conquistada, a Nasa entra em ritmo acelerado. Em maio de 1969, a Apollo 10 ensaia o pouso, chegando a poucos quilômetros da superfície. Em 20 de julho, a Apollo 11 concretiza a aposta feita oito anos antes por Kennedy. Armstrong e Buzz Aldrin passam cerca de duas horas e meia caminhando no Mar da Tranquilidade. Michael Collins permanece em órbita no módulo Columbia. Os três voltam à Terra em 24 de julho e enfrentam 21 dias de quarentena, por medo de possíveis microrganismos lunares.

Cada missão seguinte amplia o alcance científico. A Apollo 12 realiza um pouso de precisão, em novembro de 1969, a apenas 136 metros da sonda Surveyor 3, que está na Lua havia dois anos. Os astronautas fazem mais de sete horas de caminhadas e recolhem amostras mais variadas. O entusiasmo sofre um abalo em abril de 1970, quando a Apollo 13 sofre a explosão de um tanque de oxigênio a caminho da Lua. A alunissagem é cancelada, e o módulo lunar vira bote salva-vidas. Depois de dar a volta no satélite e improvisar soluções de sobrevivência, a tripulação retorna em segurança.

O episódio, eternizado pela frase “Houston, we’ve had a problem”, expõe a fragilidade do programa. Investigações se estendem por meses e só em fevereiro de 1971 uma nova missão, a Apollo 14, decola com destino à Lua. Alan Shepard e Edgar Mitchell realizam duas caminhadas, somando quase nove horas de trabalho científico. A partir da Apollo 15, em julho de 1971, entra em cena o jipe elétrico lunar, o LRV, que permite percorrer distâncias maiores. As estadias passam de 60 horas e o tempo acumulado na superfície supera 18 horas por missão.

Em abril de 1972, a Apollo 16 leva o padrão ao limite, com mais de 20 horas de caminhadas ao longo de 71 horas na Lua. A corrida, no entanto, já está decidida. Em 1969, o presidente Richard Nixon conclui que o objetivo político está cumprido. No auge da Apollo, o orçamento da Nasa consome cerca de 5% dos gastos federais dos EUA; antes e depois, o patamar gira em torno de 0,5%. Missões planejadas até a Apollo 20 são canceladas, mesmo com partes de foguetes e cápsulas prontas.

A Nasa rearranja tripulações e garante um lugar para um cientista na última missão. Em dezembro de 1972, Eugene Cernan e Harrison Schmitt passam 75 horas na superfície, caminham por 22 horas e recolhem mais de 100 kg de rochas. Cernan deixa as últimas pegadas humanas na Lua. As razões para encerrar o programa combinam custo, riscos e falta de propósito político imediato. O hiato que se abre a partir daí dura mais de cinco décadas.

Artemis reabre a corrida em um cenário mais disputado

O retorno com a Artemis 2 ocorre em um mundo diferente. Os EUA já não disputam prestígio apenas com a memória soviética, mas com uma China que acelera seu próprio programa lunar. Pequim anuncia planos de levar taikonautas à superfície por volta de 2030 e testa foguetes potentes, módulos de pouso e missões robóticas que recolhem amostras. A Lua volta ao centro do tabuleiro, não só como símbolo, mas como possível fonte de recursos e base para voos mais distantes.

A Artemis 2 repete, em essência, o perfil de voo da Zond 5 e da Apollo 8: uma órbita ao redor da Lua seguida pelo retorno à Terra. A diferença está na arquitetura. O foguete SLS, capaz de levar mais carga que o Saturno V em trajetórias específicas, combina motores herdados dos ônibus espaciais com tecnologia atual. A cápsula Orion oferece sistemas digitais de navegação, computadores milhares de vezes mais potentes que os da Apollo e escudos térmicos reprojetados para reentradas de alta velocidade.

A Nasa vende a nova fase como um programa sustentável. Em vez de missões únicas e estanques, planeja um ciclo contínuo de voos, parcerias com empresas privadas e uma estação em órbita lunar, a Gateway. A aposta é reduzir custos com reutilização de foguetes comerciais e impulsionar uma economia espacial que já movimenta, segundo estimativas, mais de US$ 400 bilhões por ano. Empresas de mineração, telecomunicações e energia observam com atenção a perspectiva de acesso regular ao espaço cislunar, a região entre a Terra e a órbita da Lua.

Especialistas veem um impacto direto na formação de mão de obra e na geopolítica. Universidades relatam aumento de interesse em cursos ligados a engenharia aeroespacial, ciência de dados e materiais avançados. Governos discutem regras para uso de recursos lunares, hoje apenas esboçadas em acordos como o Tratado do Espaço Exterior, de 1967, e os Acordos Artemis, assinados por mais de 20 países, incluindo o Brasil.

O que vem depois do reencontro com o satélite

Se a Artemis 2 cumpre o cronograma e volta em segurança, a Nasa planeja pousar novamente na Lua com a Artemis 3, ainda nesta década. A meta declarada é levar a primeira mulher e a primeira pessoa negra à superfície lunar. Na sequência, missões regulares deveriam testar habitats, sistemas de extração de água congelada em crateras e tecnologias para produzir combustível no próprio solo lunar.

O sucesso ou o fracasso dessas etapas redefine a próxima geração da exploração espacial. Um programa estável pode consolidar empregos de alta qualificação, fomentar novas cadeias industriais e abrir espaço para missões comerciais e científicas de outros países. Um tropeço grave, em forma de acidente ou de corte orçamentário, pode repetir o enredo dos anos 1970 e adiar por décadas a presença humana estável fora da Terra. A diferença, agora, é que a corrida não tem mais um só protagonista e dificilmente haverá espaço para fingir que ela nunca existiu.

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