Ciencia e Tecnologia

Ubisoft encerra desenvolvimento de Watch Dogs após fracasso de Legion

A Ubisoft encerra o desenvolvimento da franquia Watch Dogs e, internamente, trata a série como “completamente morta”. A avaliação é revelada em janeiro de 2026 pelo insider Tom Henderson, com base em fontes dentro da empresa, que atribuem a decisão ao desempenho abaixo do esperado de Watch Dogs Legion, lançado em 2020.

Legion marca o ponto de ruptura

Watch Dogs deixa de existir na prática sem anúncio oficial, após uma década como uma das principais apostas da Ubisoft em jogos de mundo aberto. O fim silencioso da série vem quase seis anos depois do lançamento de Legion, terceiro capítulo da franquia, que chega ao mercado em outubro de 2020 para PC, Xbox One, PS4 e, pouco depois, para PS5 e Xbox Series X|S.

No podcast Insider Gaming, Henderson afirma que a IP “não está mais em desenvolvimento” e que, dentro da Ubisoft, Watch Dogs é visto hoje como “completamente morto”. O comentário surge em uma conversa sobre os efeitos de Legion, que tenta reposicionar a série com a mecânica de “jogar com qualquer personagem” em uma Londres futurista sob vigilância extrema.

O projeto, porém, não alcança o fôlego de longo prazo que a empresa espera. Legion estreia com crítica dividida, notas na casa dos 70 pontos em agregadores internacionais e uma comunidade que elogia a ambição, mas reclama de repetição e falta de profundidade nos personagens. Fontes ouvidas por Henderson relatam que parte da equipe defende um ciclo maior de desenvolvimento, ao menos um ano extra, para amadurecer as ideias centrais do jogo.

“Havia uma percepção interna de que Legion precisava de muito mais tempo no forno”, relata o insider no programa. Segundo ele, a Ubisoft aposta que o ineditismo da mecânica de recrutar qualquer NPC compensaria arestas de design, mas o público não embarca nessa aposta na escala desejada.

Reestruturação interna e perda de prioridade

Logo após o lançamento de Legion, em 2020, a equipe responsável por Watch Dogs é realocada para outro projeto já em produção há alguns anos. Esse novo jogo, ainda sem título público, também acaba cancelado mais tarde, o que reforça a imagem de um estúdio em meio a uma reestruturação profunda. Na prática, a franquia de hackers urbanos some do radar interno da empresa.

De acordo com Henderson, desde essa realocação não existe mais desenvolvimento ativo de um novo Watch Dogs. “As pessoas que gostavam da franquia continuaram fazendo artes de fã, experimentando ideias internamente, mas nada avançou para pré-produção real”, conta ele no podcast. O relato sugere que o apego à série resiste entre desenvolvedores, mas não encontra respaldo na cúpula da publisher.

Watch Dogs nasce em 2014 com a promessa de ser o “GTA da era da vigilância digital” e vende milhões de cópias no lançamento, apesar das críticas a downgrades gráficos. A sequência, Watch Dogs 2, chega em 2016 com tom mais leve e maior liberdade de exploração, conquista boa recepção crítica, mas não repete o mesmo impacto comercial do primeiro título. Legion, em 2020, tenta reposicionar a marca pela terceira vez em seis anos, num período em que a Ubisoft já administra outras grandes séries, como Assassin’s Creed, Far Cry e Rainbow Six.

Internamente, a empresa revê seu pipeline e corta projetos considerados arriscados em meio a um cenário de custos crescentes e competição agressiva por atenção. Entre 2020 e 2025, o desenvolvimento de jogos AAA passa a exigir orçamentos que frequentemente superam US$ 100 milhões, o que pressiona decisões sobre quais IPs seguirão adiante. Em um ambiente assim, Watch Dogs perde espaço para franquias com retorno mais previsível.

A publisher, até o momento, não comenta publicamente o status da série e não anuncia o cancelamento de forma oficial. A ausência de declarações, porém, contrasta com o padrão adotado em projetos considerados estratégicos, que costumam receber teasers, promessas de roadmap e sinalizações de longo prazo com pelo menos dois ou três anos de antecedência.

Impacto para fãs, mercado e estratégia da Ubisoft

O fim de Watch Dogs representa uma perda para um nicho específico do mercado de jogos de mundo aberto: o de narrativas centradas em vigilância, dados e hacktivismo. Em vez de só repetir a fórmula de crime urbano, a franquia se apoia na crítica à cultura da vigilância e às big techs, temas que ganham força na última década. A decisão da Ubisoft, portanto, esvazia um espaço que a empresa ocupava quase sozinha entre os grandes estúdios.

Para os jogadores, o impacto é imediato em expectativas, não em serviços. Legion continua disponível nas principais plataformas e ainda recebe correções pontuais, mas não há sinal de expansões relevantes desde 2021. A incerteza se estende ao suporte de longo prazo, em especial nos modos online, que dependem de decisões internas sobre servidores e manutenção de infraestrutura nos próximos anos.

No lado corporativo, a morte silenciosa de Watch Dogs ilustra o custo de inovar em grandes produções. A mecânica de controlar qualquer personagem comum, vendida como revolução de design em 2020, mostra limites quando confrontada com a necessidade de criar vínculos fortes com protagonistas específicos. A falta de um rosto central, como um Ezio de Assassin’s Creed ou um V de Cyberpunk 2077, dificulta campanhas de marketing e produtos derivados.

Estúdios concorrentes acompanham o movimento como um alerta. O caso Watch Dogs reforça que ideias ambiciosas exigem não só tecnologia, mas também tempo, orçamento e disposição para correr riscos narrativos. Em um mercado onde franquias consolidadas respondem por grande parte da receita anual, um tropeço em um único lançamento pode colocar em xeque toda uma série.

Henderson aponta ainda para uma tensão recorrente na Ubisoft: a distância entre a paixão das equipes criativas e a prudência comercial da diretoria. “Existem pessoas lá dentro que ainda amam Watch Dogs, mas a empresa nunca esteve totalmente disposta a apostar tudo na franquia”, afirma. O descompasso ajuda a explicar por que a série chega a três jogos em seis anos, sem nunca se firmar como pilar tão sólido quanto Assassin’s Creed.

O que pode vir depois de Watch Dogs

O espaço deixado por Watch Dogs abre margem para novas IPs ou para a expansão de marcas já conhecidas. A Ubisoft indica em comunicados recentes que prioriza universos capazes de gerar séries de TV, filmes e produtos licenciados, o que favorece nomes estabelecidos. É provável que recursos humanos e orçamentários antes dedicados à franquia de hackers migrem para projetos ligados a Assassin’s Creed, Star Wars ou novas experiências de serviço contínuo.

Para o público, resta acompanhar como a empresa vai preencher o vácuo temático deixado pela série. Questionamentos sobre privacidade, algoritmos e controle digital seguem atuais em 2026, talvez mais do que em 2014, quando o primeiro Watch Dogs chega às lojas. A ausência de um sucessor direto deixa essa discussão mais dependente de estúdios independentes e de projetos menores.

Sem confirmação oficial, sempre existe a possibilidade de um retorno distante, embalado por nostalgia e por uma nova geração de consoles depois de 2030. Hoje, porém, o diagnóstico interno descrito por Henderson é categórico: Watch Dogs sai de cena, não como um grande fiasco, mas como o exemplo de uma ambição que a Ubisoft decide não perseguir até o fim.

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