Minneapolis para em protesto contra ICE e política migratória de Trump
Milhares de pessoas ocupam as ruas de Minneapolis nesta sexta-feira (24) em um protesto em massa contra o ICE e a política migratória do governo Donald Trump. Centenas de comércios fecham as portas em apoio ao ato e transformam a rotina da maior cidade de Minnesota.
Cidade interrompe rotina em reação a caso de menino de 5 anos
O ato nasce da indignação com a detenção de um menino de cinco anos e de seu pai por agentes do ICE, a polícia de imigração dos Estados Unidos. O episódio ocorre na última semana e circula rapidamente em redes sociais e emissoras locais, alimentando um sentimento de revolta que atravessa bairros inteiros de Minneapolis.
Desde o início da manhã, grupos se concentram na região central da cidade, em frente a prédios federais e à sede local do ICE. Organizadores estimam que mais de 10 mil pessoas participam dos protestos ao longo do dia, em diferentes pontos. Placas com frases como “Nenhuma criança em jaulas” e “Famílias pertencem juntas” dominam a paisagem, enquanto o trânsito reduz a velocidade e linhas de ônibus mudam o trajeto.
A convocação surge em menos de 72 horas, em uma articulação que reúne organizações de direitos civis, grupos de defesa de imigrantes, sindicatos e coletivos de bairro. Líderes comunitários circulam com megafones, orientam manifestantes e reforçam o apelo para que as ações permaneçam pacíficas. A polícia de Minneapolis acompanha à distância, com esquemas de bloqueio em cruzamentos estratégicos, e relata até o meio da tarde apenas pequenas intercorrências.
O caso da criança detida se torna símbolo de um mal-estar mais profundo com a política migratória de Trump, marcada por detenções em massa, separação de famílias e expansão de poderes do ICE desde 2017. Críticos descrevem o órgão como uma força de deportação sem freios, que opera com pouca transparência e afeta de forma desproporcional comunidades latino-americanas, africanas e asiáticas. Moradores lembram que Minnesota abriga mais de 450 mil imigrantes, documentados e indocumentados, e que muitos vivem sob medo constante de batidas surpresa.
Comércios fecham em apoio e dão peso econômico ao ato
O protesto ganha outra dimensão quando o centro comercial começa a apagar as luzes. Restaurantes, mercados de bairro, lojas de conveniência, salões de beleza e pequenos escritórios anunciam, ainda na quinta-feira (23), que não abririam as portas nesta sexta. Até o meio do dia, entidades locais contabilizam o fechamento voluntário de pelo menos 300 estabelecimentos, alguns deles localizados em corredores importantes como Lake Street, Nicollet Avenue e University Avenue.
Em muitas vitrines, cartazes em inglês, espanhol e somali explicam o motivo: “Fechado em solidariedade aos imigrantes” ou “Hoje não vendemos, protestamos”. Em um café que costuma servir mais de 200 clientes por dia, o aviso é direto: “Preferimos perder receita a perder nossa humanidade”. Para empresários que dependem do movimento diário, trata-se de um gesto calculado. Um comerciante de origem mexicana, dono de um pequeno mercado no sul da cidade, resume a decisão em poucas palavras: “Se eu fico aberto, parece que aceito o que o governo faz. Fecho porque minha família poderia ser a próxima”.
O impacto financeiro é imediato. Associações locais estimam que, somados, os estabelecimentos renunciam a centenas de milhares de dólares em faturamento nesta sexta-feira. A perda, porém, é tratada como investimento político. Ao interromper a circulação de dinheiro em uma das principais metrópoles do Meio-Oeste, empresários tentam sinalizar a Washington que a política migratória não é apenas um tema humanitário, mas também econômico. Funcionários que não trabalham hoje acompanham as marchas ou participam de assembleias em igrejas, centros comunitários e escolas.
Manifestantes fazem questão de ligar a rotina da cidade às salas de detenção do ICE. “Quando um pai é levado, não é só uma família que sofre, é todo um bairro que perde renda, consumo, estabilidade”, diz uma líder de um grupo de defesa de imigrantes, em discurso na praça em frente à prefeitura. Uma professora da rede pública, que ensina crianças do ensino fundamental, afirma ter alunos que desapareceram da sala de aula após operações migratórias. “Os números que vêm de Washington viram rostos aqui”, resume.
Pressão política se espalha e pode redefinir debate migratório
A manifestação desta sexta-feira se insere em um cenário de crescente contestação à política migratória de Trump, que chega ao fim de seu mandato sob forte polarização. Desde 2018, decisões judiciais, investigações jornalísticas e denúncias de organizações de direitos humanos expõem superlotação em centros de detenção, relatos de maus-tratos e separações prolongadas entre pais e filhos. O caso do menino de cinco anos, detido com o pai após uma fiscalização de rotina, torna visível um padrão que advogados afirmam registrar há anos.
Minneapolis entra em um mapa mais amplo de resistência, que inclui cidades da Califórnia, de Nova York e de estados da fronteira sul. Prefeituras e governos estaduais discutem desde a criação de fundos de defesa jurídica para imigrantes até a limitação prática da cooperação com o ICE, amparados em legislações conhecidas como políticas de “cidade santuário”. No Congresso, parlamentares democratas tentam avançar com propostas que restringem recursos federais para centros de detenção privados e estabelecem regras mais rígidas de fiscalização.
Analistas políticos ouvidos por emissoras locais avaliam que o ato em Minneapolis funciona como termômetro do humor de parte expressiva do eleitorado urbano americano. A combinação de ruas cheias e comércio fechado amplia o peso simbólico da mobilização e, ao mesmo tempo, pressiona representantes eleitos em nível municipal, estadual e federal. Para a Casa Branca, o recado é duplo: a agenda de endurecimento na fronteira e no interior do país encontra resistência visível e tem custo político mensurável.
Nos bastidores, grupos de direitos civis planejam transformar a energia deste 24 de janeiro em ações permanentes. A pauta inclui monitoramento de operações do ICE, apoio jurídico a famílias afetadas, registro sistemático de abusos e articulação com organizações em outros estados. A expectativa é que cenas como as de Minneapolis se repitam em ao menos uma dezena de grandes cidades nos próximos meses, em datas coordenadas, para manter a pressão sobre o governo federal e sobre candidatos à Casa Branca.
Moradores que participam do protesto afirmam que a cidade não volta ao ponto em que estava antes do caso da criança detida. “Hoje ficou evidente que muita gente não aceita mais assistir calada”, diz uma enfermeira de 32 anos, filha de imigrantes. A dúvida aberta ao fim do dia é se o barulho nas ruas e o silêncio dos caixas registradores serão suficientes para alterar uma política que, até aqui, resiste a críticas internas e à crescente reprovação internacional.
