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Ataques russos deixam cidades ucranianas dias sem água, luz e calor

Moradores de diversas cidades da Ucrânia entram em 2026 contando horas, não em dias, sem água, luz ou calefação, após novos ataques russos à infraestrutura. Famílias atravessam o inverno em apartamentos escuros e gelados, improvisando velas, fogareiros e reservas de água enquanto o conflito se prolonga sem horizonte claro de trégua.

Rotina de escuridão em meio ao inverno

Na periferia de Kharkiv, segunda maior cidade do país, a enfermeira Olena, 38, guarda no celular a foto do que virou a cozinha de emergência da família. Três tijolos sustentam uma panela de ferro sobre um pequeno fogareiro a gás. A claridade vem de duas velas presas em copos de vidro. “Estamos há cinco dias sem luz, sem aquecimento, sem água quente. O relógio da guerra agora é a bateria do telefone”, diz.

Os ataques russos se concentram em subestações de energia, usinas térmicas e estações de bombeamento. Em cidades como Dnipro, Zaporizhia e regiões próximas a Kiev, a população enfrenta cortes que duram de 12 a 20 horas por dia. Em algumas áreas, o fornecimento simplesmente não volta. Prefeituras estimam que, só na primeira semana de janeiro, mais de 2,3 milhões de pessoas passem ao menos 48 horas seguidas sem eletricidade contínua.

Em blocos de prédios erguidos na era soviética, o frio atravessa paredes e janelas antigas. A temperatura externa cai a -10°C em várias noites. Dentro dos apartamentos, termômetros domésticos marcam 6°C ou 7°C ao amanhecer. “Dormimos com casacos, luvas e toucas. Minha filha de 8 anos pede para ir para a escola não pelas aulas, mas porque lá ainda tem calor”, conta Serhiy, 42, motorista em Kiev.

As escolas funcionam em esquema intermitente, com geradores emprestados e parte das salas fechadas. A prioridade é manter abertas as chamadas “estações de aquecimento”, ginásios e centros comunitários onde moradores podem carregar celulares, tomar chá quente e se aquecer por algumas horas. Em bairros densamente povoados, filas se formam desde antes das 6h da manhã.

Quando abrir a torneira vira loteria

Nos banheiros e cozinhas, cada torneira aberta é um teste de sorte. Quando a água aparece, vem fraca e irregular, muitas vezes turva. Quando não vem, baldes e galões se tornam garantia de sobrevivência. Em Chernihiv, voluntários organizam pontos de distribuição de água potável e de lenha em escolas e igrejas. “As pessoas chegam com carrinhos de mão, mochilas, panelas velhas. Qualquer recipiente serve”, relata por telefone um funcionário local da Defesa Civil, que pede para não ser identificado por razões de segurança.

A precariedade atinge diretamente a saúde e a higiene. Médicos em Lviv relatam aumento de casos de viroses, diarreias e infecções respiratórias, especialmente em crianças e idosos. Em um hospital da cidade, geradores a diesel trabalham sem pausa há mais de 300 horas, segundo a direção. “Cada tanque de combustível que chega é uma garantia de mais dois ou três dias de cirurgias e UTI. Não é uma situação sustentável”, afirma um dos médicos.

A ofensiva russa contra a infraestrutura ucraniana se intensifica desde o fim de 2025, após meses de impasse nas linhas de frente. O padrão se repete: ondas de mísseis e drones atingem redes de energia e aquecimento, seguidas de reparos emergenciais e novos ataques. Especialistas locais estimam que mais de 40% da capacidade de geração elétrica do país esteja comprometida ou operando com risco elevado.

A estratégia não é inédita no conflito, que começa em 2022 com a invasão em grande escala. Mas em 2026, com boa parte das reservas financeiras e técnicas esgotadas, a capacidade de resposta diminui. “A cada ataque, o tempo de reparo aumenta. Faltam peças, equipes, recursos. Em alguns pontos, redes inteiras precisam ser refeitas”, explica um engenheiro do setor elétrico em Kiev, que calcula em até 18 meses o prazo para reconstrução completa de certas subestações.

Resiliência posta à prova e desgaste mental crescente

Na prática, o cotidiano se reorganiza em torno de janelas curtas de eletricidade. Moradores carregam celulares, cozinham e lavam roupa em blocos de duas ou três horas, quando a energia retorna. Aplicativos de mensagem circulam planilhas com “horários prováveis” de fornecimento, atualizadas por vizinhos e funcionários de empresas de energia. Uma falha de poucos minutos derruba o planejamento inteiro de um prédio.

Aos poucos, a resiliência que marcou os primeiros anos de guerra dá lugar ao cansaço profundo. “No começo, fazíamos piada, tirávamos selfies com velas, chamávamos de ‘romântico’. Agora, ninguém ri. Só estamos exaustos”, desabafa Iryna, 29, atendente de loja em Dnipro. Ela conta que a mãe, hipertensa, passa as noites com medo de que o remédio acabe e as farmácias estejam fechadas ou sem sistemas funcionando.

Profissionais de saúde mental falam em uma segunda frente de batalha, invisível, feita de ansiedade crônica, insônia e ataques de pânico. Uma ONG local registra aumento de 35% nas ligações para linhas de apoio psicológico desde novembro de 2025. “Quando você não sabe se vai ter água para tomar banho amanhã, qualquer plano de futuro parece ficção”, resume um psicólogo voluntário em Kiev.

A crise humanitária repercute fora do país e volta a pressionar governos e organismos internacionais. Pedidos de fundos adicionais para reconstrução de redes e compra de geradores dominam encontros diplomáticos em Bruxelas e Nova York. Em dezembro, um pacote emergencial de US$ 800 milhões é aprovado por doadores ocidentais, com foco em energia e abrigo para o inverno. A cifra, embora significativa, é descrita por técnicos ucranianos como “garganta seca em meio à tempestade”.

Ajuda internacional, impasse militar e incerteza no horizonte

As próximas semanas se tornam decisivas para medir a fôlego da infraestrutura ucraniana em 2026. Engenheiros do setor elétrico trabalham com o cenário de novos ataques coordenados, capazes de derrubar por completo o fornecimento em regiões inteiras por até dez dias. Hospitais fazem planos de contingência para operar apenas com serviços mínimos nesse período, priorizando UTIs e maternidades.

Diplomatas em Kiev e em capitais europeias afirmam, em conversas reservadas, que a exposição do sofrimento civil pode acelerar negociações por novas sanções à Rússia e ampliar o envio de sistemas de defesa aérea. Ao mesmo tempo, reconhecem que não há solução rápida para a reconstrução física das redes destruídas, nem sinal claro de avanço em conversas de cessar-fogo.

Nas cidades afetadas, o cálculo é menos geopolítico e mais imediato. Quantos litros de água armazenar. Quantas velas restam. Quanto gás ainda existe no cilindro. “Já paramos de pensar em quando a guerra vai acabar. Pensamos em como chegar até a próxima semana”, admite Olena, em Kharkiv, enquanto observa a filha desenhar à luz de uma lanterna.

O inverno europeu segue até março, e meteorologistas preveem ao menos três novas ondas de frio intenso para as regiões central e leste da Ucrânia. A cada noite em que o aquecimento falha, aumenta a pressão sobre Kiev e sobre aliados externos para encontrar respostas que vão além do remendo emergencial. A dúvida que recai sobre moradores, autoridades e doadores é se a rede elétrica, e a própria resistência da população, ainda suportam um novo ciclo prolongado de escuridão.

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