Conselho da Paz dá poder vitalício e ilimitado a Trump nos EUA
Um projeto apresentado em janeiro de 2026 nos Estados Unidos cria o chamado Conselho da Paz de Trump e prevê Donald Trump como presidente vitalício do órgão, com poderes ilimitados. O desenho institucional inclui presença hereditária na linha de comando e reserva assento fixo para o genro Jared Kushner, ampliando a influência da família em decisões diplomáticas sensíveis.
Um órgão sob medida para concentrar poder
O Conselho da Paz nasce como estrutura paralela às instâncias tradicionais da diplomacia americana e se coloca acima de órgãos com limites claros de mandato. O texto obtido por assessores legislativos em Washington descreve um comando “por tempo indeterminado” para Trump e concede margem ampla para interferir em negociações internacionais, sem previsão explícita de controle externo.
A proposta surge em meio a uma ofensiva de Trump para consolidar sua marca política e projetar influência pessoal sobre crises globais. O nome do órgão, apresentado como instrumento voltado à paz, contrasta com o alcance real de suas atribuições, que incluem poder de veto informal a acordos e capacidade de moldar prioridades de segurança e comércio. Em vez de mandatos de quatro ou seis anos, como ocorre no Congresso ou na Casa Branca, o Conselho da Paz se ancora na lógica da permanência.
O desenho também abre espaço para uma espécie de sucessão dinástica. O texto não crava explicitamente o termo “hereditário”, mas admite que a presidência se mantenha na família, o que, na prática, preserva o círculo mais próximo de Trump no comando do órgão. Kushner, apresentado como membro nato, é o primeiro beneficiado direto dessa arquitetura.
Kushner, Gaza e o eco em Brasília
Jared Kushner é descrito no projeto como conselheiro-chave em temas de Oriente Médio e investimentos internacionais. O documento enfatiza sua atuação em planos de reconstrução e negócios em Gaza, onde grupos empresariais ligados à família veem oportunidade de projetos bilionários de infraestrutura. “Kushner terá assento no Conselho” aparece como cláusula inegociável, segundo relato de um diplomata ouvido em caráter reservado.
Em Gaza, a presença de Kushner não é abstrata. Ele se move entre fundos de investimento e interlocutores locais, apostando em um redesenho econômico da região após anos de conflito. Críticos veem conflito de interesses direto entre o papel de negociador de paz e o de empresário com ambições imobiliárias. “Quem desenha o mapa político também passa a desenhar o mapa dos contratos”, observa um ex-funcionário do Departamento de Estado.
O alcance do Conselho da Paz se projeta além do Oriente Médio. Em Brasília, o governo brasileiro acompanha o movimento com atenção, em meio às “lombadas” na implementação do acordo Mercosul-União Europeia, assinado com otimismo e ainda sem cronograma pleno de aplicação. A lembrança da máxima de Talleyrand, o francês que resumiu a arte da diplomacia em “sim” que significa “talvez” e “talvez” que significa “não”, volta aos gabinetes do Itamaraty ao se tentar decifrar o real peso do novo órgão na política externa americana.
Negociadores brasileiros calculam que, se o Conselho da Paz for usado como plataforma pessoal de diplomacia de Trump, acordos comerciais já frágeis podem sofrer revisões repentinas. A possibilidade de um centro de poder informal, mas com voz decisiva, adiciona incerteza às conversas com a União Europeia e a outros blocos, em um ano em que o Mercosul tenta destravar concessões tarifárias e cláusulas ambientais.
Democracia sob tensão e imagens que ficam
A criação de um conselho com presidência vitalícia e poderes ilimitados acende alertas entre especialistas em instituições democráticas. Modelos que consagram mandatos sem horizonte de término costumam ser associados a regimes autoritários, ainda que envoltos em linguagem de eficiência ou estabilidade. “Quando o poder deixa de ter saída clara, o custo de contestá-lo aumenta para toda a sociedade”, afirma um cientista político de uma universidade americana.
Organizações de direitos civis apontam que a concentração de autoridade em uma figura única tende a se refletir também na política interna, em especial na área migratória. A imagem de Liam Ramos, menino de cinco anos detido por agentes da imigração ao sair da escola em Minnesota, em meados de janeiro, já circula em relatórios de entidades que monitoram abusos do ICE. De touca por causa do frio, Liam é fotografado de mãos dadas com um agente, enquanto o pai é colocado em outro veículo.
Um vizinho oferece abrigo à criança e pede que ela seja deixada sob sua guarda. O apelo não é ouvido, e Liam é enviado a um centro no Texas, a mais de 1.500 quilômetros de casa. A fotografia, publicada em portais americanos no dia 22, é comparada por historiadores à imagem do menino judeu de boné, braços erguidos, cercado por soldados nazistas ao deixar um prédio no gueto de Varsóvia em 1943. O garoto polonês jamais é identificado, mas vira símbolo de uma máquina de extermínio. No caso de Liam, o paralelo não está na escala do horror, mas na lógica de um Estado que trata crianças como problema de segurança.
O Conselho da Paz de Trump nasce inserido nesse ambiente. A promessa de pacificação no exterior convive com políticas duras na fronteira e com um discurso que vincula imigração a ameaça constante. Analistas veem risco de o novo órgão servir também como vitrine para decisões que endureçam ainda mais a vida de estrangeiros nos Estados Unidos, sob o argumento de proteger a nação em um cenário global instável.
Reação internacional e o que está em jogo em 2026
Governos europeus discutem em reuniões reservadas como lidar com um interlocutor que acumula funções formais e informais, sem prazo de saída. Em Bruxelas, conselheiros da Comissão Europeia calculam que qualquer negociação em 2026, seja sobre comércio, clima ou serviços digitais, terá de considerar o Conselho da Paz como novo ponto de veto político. Entre diplomatas, cresce a leitura de que uma instância vitalícia tende a operar mais por lealdade pessoal do que por parâmetros institucionais previsíveis.
No mundo em desenvolvimento, aliados e críticos de Trump adotam posições divergentes. Alguns enxergam no conselho um atalho para decisões rápidas e promessas de investimentos, especialmente em regiões devastadas como Gaza. Outros temem que a combinação de negócios da família e poder diplomático crie um laboratório perigoso de tutela externa. No Brasil, parlamentares da oposição falam em “experimento de personalização absoluta da política externa americana” e cobram do governo federal uma posição clara antes da próxima rodada de conversas sobre o Mercosul.
Ainda não há data definida para a votação final do projeto que formaliza o Conselho da Paz, mas a expectativa em Washington é de que os debates se tornem mais duros ao longo do primeiro semestre de 2026. Entre emendas que tentam criar algum tipo de limite temporal ao mandato e propostas que condicionam o orçamento do órgão a aval do Congresso, o embate testa até onde vai a disposição do sistema político americano de aceitar um centro de poder vitalício.
A fotografia de Liam, o menino de Minnesota levado para o Texas, permanece como lembrança incômoda de que decisões institucionais ganham rosto e nome cedo ou tarde. O Conselho da Paz de Trump ainda é projeto no papel, mas a forma como o mundo reagir nos próximos meses dirá se a experiência será contida por freios democráticos ou se abrirá uma era em que cargos vitalícios, poderes ilimitados e herdeiros designados deixam de ser exceção na maior democracia do planeta.
