Zelensky diz que pacto de segurança com EUA está pronto para assinatura
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirma neste domingo (25) que o documento de garantias de segurança dos Estados Unidos para Kiev está “100% pronto”. O anúncio ocorre após uma rodada de negociações com a Rússia em Abu Dhabi, que não produz acordo, mas abre espaço para novos encontros. A expectativa agora se concentra na data e no local da assinatura, que ainda dependem da confirmação de Washington.
Garantias americanas em meio à guerra prolongada
Em visita a Vilnius, capital da Lituânia, Zelensky apresenta o avanço como um marco na tentativa de blindar a Ucrânia diante da pressão militar russa, às vésperas do quarto ano de guerra em grande escala. Diante de jornalistas, ele insiste que o compromisso de Washington funciona como âncora política e militar para qualquer acordo de paz. “Para nós, as garantias de segurança são, antes de tudo, garantias de segurança dos Estados Unidos”, declara.
Segundo o presidente, o texto está concluído e aguarda apenas o aval final da Casa Branca para a cerimônia de assinatura. O pacto será então enviado ao Congresso americano e ao Parlamento ucraniano para ratificação, etapa que pode transformar a promessa política em obrigação legal nos dois países. Embora os detalhes do conteúdo não sejam divulgados, em Kiev auxiliares de Zelensky tratam o documento como peça central para manter o apoio militar e financeiro que sustenta a resistência ucraniana desde fevereiro de 2022.
Negociações em Abu Dhabi expõem impasse territorial
O anúncio vem horas depois de uma primeira reunião trilateral em Abu Dhabi, realizada na sexta (23) e no sábado (24), que reúne representantes da Ucrânia, da Rússia e mediadores dos Estados Unidos. O encontro busca testar uma estrutura americana para encerrar o conflito, baseada em um plano de 20 pontos que tenta combinar cessar-fogo, segurança de longo prazo e discussões territoriais. Não há resultado concreto, mas as partes concordam em voltar à mesa no próximo domingo (1º), novamente nos Emirados Árabes Unidos.
Zelensky admite que as conversas continuam tensas, sobretudo em torno do mapa do pós-guerra. Ele acusa Moscou de pressionar para que a Ucrânia abra mão de regiões do leste que a Rússia não consegue controlar totalmente desde a invasão em grande escala. “Essas são duas posições fundamentalmente diferentes — a da Ucrânia e a da Rússia. Os norte-americanos estão tentando chegar a um meio-termo”, afirma. Em público, o presidente insiste que não aceita qualquer arranjo que fira a integridade territorial reconhecida internacionalmente, que inclui a Crimeia e o Donbass.
O que está em jogo para Kiev, Moscou e Washington
A consolidação de um pacote formal de garantias americanas altera o cálculo político tanto em Kiev quanto em Moscou. Para a Ucrânia, um compromisso explícito dos Estados Unidos tende a reforçar a confiança de que o fluxo de armas, treinamento e recursos não será interrompido por mudanças de governo em Washington. A aprovação pelo Congresso, instância que já autoriza dezenas de bilhões de dólares em ajuda desde 2022, funcionaria como seguro adicional para um país que depende de mísseis, sistemas de defesa aérea e munição ocidentais para segurar a linha de frente.
Para o Kremlin, um pacto desse tipo eleva o custo de prolongar a guerra. A sinalização de que a maior potência militar do mundo se dispõe a amarrar, por escrito, sua parceria com Kiev dificulta a estratégia de esgotar a Ucrânia no campo de batalha e desgastar o apoio ocidental. Qualquer avanço russo em direção às regiões centrais do país passaria a ser lido não apenas como agressão contra um vizinho, mas como teste direto à credibilidade dos compromissos de Washington. Isso tende a alimentar debates sobre segurança global, da fronteira leste da Otan até o Indo-Pacífico.
Impacto nas conversas de paz e nos aliados europeus
O movimento também repercute na Europa, principal teatro político da guerra. Países como Alemanha, França e Polônia acompanham de perto as tratativas, enquanto discutem seus próprios pacotes de apoio militar e financeiro para 2026 e 2027. Um quadro mais estável de garantias americanas pode estimular iniciativas semelhantes entre membros da União Europeia, consolidando uma rede de compromissos que blinda a Ucrânia mesmo sem uma adesão plena imediata à Otan.
As garantias, porém, não resolvem o dilema central das negociações: o futuro dos territórios ocupados pela Rússia. A exigência ucraniana de recuperar o controle completo sobre as regiões anexadas por Moscou esbarra na recusa russa em recuar. O plano americano tenta reduzir o número de pontos de atrito, que, segundo Zelensky, já é menor do que nas primeiras rodadas de diálogo. Ainda assim, permanece o risco de que o processo empacote a guerra em uma espécie de armistício congelado, com linhas de frente estabilizadas, mas sem acordo político definitivo.
Próximos passos e incertezas
Enquanto assessores em Kiev e Washington acertam detalhes da cerimônia de assinatura, diplomatas dos três países se preparam para o novo encontro em Abu Dhabi no dia 1º. A expectativa é que, até lá, algumas das 20 propostas americanas avancem do rascunho para a formulação de compromissos claros, sobretudo em temas como cessar-fogo, corredores humanitários e limites para o uso de mísseis de longo alcance perto da fronteira russa. O envio do texto às casas legislativas, previsto para ocorrer logo após a assinatura, abre uma nova frente de disputa política em Kiev e em Washington.
No Congresso dos EUA, parlamentares favoráveis à Ucrânia veem no acordo uma forma de amarrar a política externa americana independentemente do calendário eleitoral, enquanto críticos alertam para o risco de arrastar o país para uma escalada direta com Moscou. Em Kiev, a ratificação deve alimentar debates internos sobre até onde o governo pode ir em concessões sem trair a promessa de recuperar cada quilômetro perdido desde 2014. A guerra entra em mais um ano sem solução à vista, e o pacto de segurança com Washington surge como tentativa de ganhar fôlego para negociar a paz sem negociar a sobrevivência do Estado ucraniano.
