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Secretário do Tesouro dos EUA acusa Carney de abrir espaço à China no Canadá

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Bessent, acusa o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, de não defender os interesses do Canadá nas negociações comerciais. As críticas são feitas neste domingo (25), em meio às discussões sobre a revisão do acordo EUA-México-Canadá (USMCA) e à crescente preocupação com a influência da China na América do Norte.

Bessent eleva tom contra Carney em Davos

As declarações de Bessent ocorrem durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde líderes discutem caminhos para a economia global em 2026. O secretário americano usa o palco para atacar a estratégia de Carney às vésperas da renegociação formal do USMCA, prevista para o verão do hemisfério norte, entre junho e setembro.

Em entrevista a jornalistas, Bessent questiona abertamente as prioridades do premiê canadense. “Temos o USMCA, mas com base nele – que será renegociado no verão do hemisfério norte – não tenho certeza do que o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, está fazendo, além de tentar demonstrar virtude para seus amigos globalistas em Davos”, afirma. A crítica mira diretamente a imagem de Carney como figura influente em fóruns multilaterais e defensor de agendas globais, como transição verde e reforma do sistema financeiro.

O secretário vai além e sugere que o Canadá assume risco estratégico ao lidar com a China. Segundo ele, o país pode se transformar em porta de entrada para o avanço da influência chinesa na América do Norte, num momento em que Washington tenta conter Pequim em temas como tecnologia, energia e cadeias produtivas. “Carney não está fazendo o melhor trabalho para o povo canadense”, diz Bessent, ao associar essa suposta leniência ao interesse do premiê em agradar aliados internacionais.

O embate ganha peso porque ocorre entre dois dos principais formuladores de política econômica do continente. De um lado, o chefe do Tesouro da maior economia do mundo, responsável por calibrar sanções, tarifas e incentivos. De outro, um primeiro-ministro que assume o comando do Canadá com a missão declarada de reposicionar o país em cadeias globais de valor.

Influência chinesa e futuro do USMCA no centro da disputa

O pano de fundo imediato é a revisão do USMCA, acordo em vigor desde julho de 2020 que regula um comércio anual superior a US$ 1,5 trilhão entre Estados Unidos, Canadá e México. A primeira grande revisão está programada para 2026, com negociações intensas a partir do meio do ano no hemisfério norte. Washington sinaliza que pretende usar a janela para endurecer regras sobre origem de produtos, subsídios industriais e controle de investimentos estratégicos.

Nesse cenário, qualquer percepção de brecha para a China vira munição política. Há anos autoridades americanas demonstram preocupação com investimentos chineses em setores sensíveis no Canadá, como mineração crítica, telecomunicações e tecnologia limpa. Em 2022, por exemplo, o governo canadense impõe restrições à participação de empresas chinesas em projetos de lítio e outros minerais usados em baterias. Bessent sugere que essas barreiras não são suficientes e insinua que Carney pode flexibilizar posições para preservar fluxos de capital.

A crítica se encaixa na estratégia mais ampla dos Estados Unidos de “desrisking”, termo usado para reduzir exposição a economias consideradas rivais sem ruptura completa. Na prática, isso se traduz em pressão para que parceiros como Canadá e México alinhem políticas de segurança econômica, sobretudo em áreas como semicondutores, inteligência artificial, carros elétricos e infraestrutura digital. Ao apontar o Canadá como potencial ponto frágil, Bessent envia recado também ao mercado e a outros governos: acordos com Pequim terão custo político maior.

O discurso atinge um governo canadense que tenta equilibrar interesses. Carney busca manter o acesso privilegiado ao mercado americano, que absorve mais de 70% das exportações canadenses, e ao mesmo tempo preservar canais com a China, segundo maior parceiro comercial do país. A acusação de “virtude em Davos” expõe esse dilema e tenta enquadrar o premiê entre soberania econômica e alinhamento a agendas globais que priorizam clima, inclusão financeira e governança multilateral.

Negociações mais duras e pressão política à frente

As falas de Bessent devem endurecer o clima nas mesas de negociação do USMCA nos próximos meses. Ao lançar dúvidas públicas sobre a postura de Carney, Washington cria pressão prévia para extrair concessões em capítulos sensíveis, como regras para investimentos estrangeiros, revisão de tarifas setoriais e cláusulas de segurança nacional. Negociadores canadenses chegam à mesa com a necessidade de mostrar firmeza, sob risco de serem vistos como elo vulnerável do acordo.

No campo político interno, as declarações oferecem munição à oposição canadense, que tende a cobrar do governo explicações sobre planos concretos para conter a influência chinesa em setores estratégicos. Parlamentares já discutem novas leis de triagem de investimentos, prazos mais rígidos para análise de fusões e eventual proibição de participação de empresas ligadas ao Estado chinês em áreas como energia, portos e infraestrutura de dados. Grupos empresariais, por sua vez, temem perda de competitividade se o endurecimento afugentar capital e atrasar projetos.

Para os Estados Unidos, um Canadá mais alinhado às restrições contra a China reforça a estratégia de consolidar um bloco econômico norte-americano capaz de rivalizar com a influência de Pequim em regiões como América Latina, África e Sudeste Asiático. Para o México, parceiro do USMCA que também busca investimentos chineses em manufatura e automotivo, o recado de Bessent funciona como aviso indireto sobre os limites de tolerância de Washington.

As próximas rodadas de diálogo devem revelar se as críticas fazem parte de uma tática de negociação ou de uma mudança mais profunda na postura americana frente a Ottawa. A renegociação formal do USMCA, prevista para avançar no segundo semestre de 2026, tende a se transformar em termômetro da capacidade dos três países de conciliar segurança econômica, ambições geopolíticas e necessidade de crescimento. A pergunta que permanece é se o Canadá conseguirá manter espaço de manobra entre Estados Unidos e China sem pagar o preço de ser visto, pelos vizinhos, como porta aberta para uma potência rival.

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