Protestos no Irã terminam em massacre após apagão de internet
Manifestações por melhores condições de vida no Irã, entre 8 e 9 de janeiro de 2026, terminam em repressão letal após um apagão total de comunicações. Grupos de direitos humanos falam em massacre coordenado e apontam milhares de mortos em todo o país.
Da euforia à noite em que o país mergulha no escuro
Nas primeiras horas da quinta-feira, 8 de janeiro, a vida em Teerã ainda parece rotineira. À noite, a capital e mais de 100 cidades se transformam em palco de um dos episódios mais violentos desde a fundação da República Islâmica, há quase 47 anos. Famílias, jovens e trabalhadores ocupam avenidas em protestos por melhores condições de vida e pelo fim de um regime visto como cada vez mais repressivo.
Maryam, artista de 30 anos, lembra que “a noite de quinta-feira foi linda”. Amigos se encontram nas ruas, crianças acompanham pais, cartazes pedem liberdade. “Parecia distópico e estranhamente surreal”, diz. “A vida estava normal pela manhã, mas à noite todos estavam nas ruas protestando”. O clima é tenso, mas predomina a sensação de que algo histórico pode acontecer.
Na Rua Shariati, uma das principais vias de Teerã, Hasan, 33, dirige até uma rotatória onde amigos o esperam. Ele fala em esperança concreta de mudança. “Havia um sentimento de que faríamos a diferença, que talvez uma revolução realmente fosse acontecer”, conta. Horas depois, testemunha o que descreve como um banho de sangue capaz de matar qualquer ilusão.
A convocação ganha fôlego quando Reza Pahlavi, príncipe herdeiro do último xá e exilado nos Estados Unidos, incita a população a ocupar as ruas a partir das 20h. Cânticos em seu favor ecoam entre prédios residenciais e praças. O país entra na 12ª noite seguida de agitação com a confiança de que, sob pressão popular, o regime possa ceder.
No mesmo horário em que multidões se reúnem, o Irã se fecha. Às 20h, o acesso à internet cai em todo o território. Ligações internacionais são bloqueadas. Em poucos minutos, 92 milhões de habitantes se veem isolados do resto do mundo. Sem redes sociais, sem chamadas de vídeo, sem mensageiros criptografados, coordenar protestos e denunciar abusos deixa de ser possível.
É nesse silêncio digital que a repressão começa. Testemunhas, ativistas e profissionais de saúde relatam à imprensa internacional o que, mais tarde, é descrito como um ataque armado coordenado. “É como se tivesse sido planejado e coordenado, a forma como as autoridades iniciaram a repressão”, afirma Mahmood Amiry-Moghaddam, diretor do grupo Iran Human Rights, com sede na Noruega.
Ataque coordenado, munição real e milhares de mortos
Nos dois dias seguintes, 8 e 9 de janeiro, ruas em Teerã, Mashhad e dezenas de cidades se parecem com zonas de guerra. Vídeos verificados por grupos de direitos humanos mostram disparos contínuos de armas semiautomáticas, gritos, ruas cobertas de sangue e manifestantes caídos com ferimentos de bala. Drones com luzes verdes, vermelhas e azuis sobrevoam regiões de maior concentração de pessoas.
Em Teerã, a força paramilitar Basij, usada há anos para vigiar protestos e impor controles sociais, atua lado a lado com outras unidades de segurança. Nazanin, 38, conta que vê agentes usando revólveres, espingardas e bombas de chumbinho, que espalham projéteis ao explodir. “Alguns foram atingidos no rosto”, relata. Lasers montados em rifles apontam para a multidão enquanto manifestantes erguem fogueiras para tentar conter o gás lacrimogêneo e frear o avanço dos veículos blindados.
Um médico que atende feridos naqueles dias nota uma mudança brusca. Ferimentos de bala se concentram em tórax, cabeça e pescoço. “Era como se uma ordem tivesse sido dada: ‘Usem munição real agora'”, afirma. Uma imagem verificada mostra um veículo militar equipado com metralhadora circulando na Praça Sadeghieh, em Teerã, a poucos quilômetros de onde se reúnem as maiores multidões.
Kiarish, que deixa sua casa rumo a um protesto pacífico perto de Teerã, descreve a transição súbita. “Eu ouvi os tiros… Foi totalmente diferente”, diz, ao comparar com manifestações anteriores. Hasan volta às ruas mesmo após ver corpos no chão. “Não havia como escapar da violência”, resume.
À medida que o apagão digital é parcialmente suspenso, começam a surgir números e imagens do que organizações de direitos humanos chamam de massacre. A HRANA, agência ligada a ativistas com sede nos Estados Unidos, estima mais de 5.000 mortos nos confrontos, o maior número já registrado em uma onda de protestos no país. O Conselho Nacional de Segurança do Irã admite 3.117 mortes e afirma que 2.427 seriam “inocentes” assassinados por “terroristas”.
O próprio líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, reconhece que “milhares” morrem, mas atribui a culpa a grupos ligados a Israel e aos Estados Unidos. Sem apresentar provas, autoridades acusam manifestantes de atacar bancos, mesquitas, centros médicos e postos de gasolina, e de cometer “atrocidades semelhantes ao Estado Islâmico”, como decapitações e pessoas queimadas vivas. Movimentos de direitos humanos afirmam que o discurso tenta justificar o uso de força letal e deslegitimar qualquer contestação interna.
Hospitais relatam corredores lotados, falta de leitos e pressão de agentes de segurança. Necrotérios recebem tantos corpos que se vêem obrigados a empilhar sacos pretos em depósitos improvisados. No sábado, 10 de janeiro, o cemitério Behesht-e Zahra, o maior do país, fica lotado de famílias em busca de parentes desaparecidos. “Dois depósitos continham centenas de corpos”, conta Kiarish, que tenta localizar uma amiga da família baleada no pescoço.
Em Kahrizak, ao sul de Teerã, vídeos mostram dezenas de sacos de corpos alinhados na calçada, cercados por parentes em choque. A cena, dizem ativistas, remete às execuções em massa dos anos 1980, quando a jovem República Islâmica elimina milhares de opositores. “Foram necessários anos até que eles se levantassem novamente”, lembra Amiry-Moghaddam. Agora, avalia, o objetivo é “traumatizar uma geração” pela segunda vez.
Pressão interna, reação externa e um futuro em aberto
O blecaute de internet e telefonia se torna parte central da estratégia do regime. Ao cortar o país do mundo, o governo reduz a capacidade de organização dos protestos, dificulta o trabalho de jornalistas e atrasa a reação internacional. Mesmo com poucas imagens saindo, entidades como Iran Human Rights e HRANA identificam um padrão: uso coordenado de armas de nível militar e tiros disparados para matar, não apenas dispersar.
O episódio também reposiciona o Irã no centro da disputa geopolítica. Meses antes, os Estados Unidos e aliados realizam um ataque militar sem precedentes contra alvos iranianos. Em meio às manifestações, o então presidente Donald Trump avisa que Washington “atacará com força total” se Teerã reprimir com violência. Depois do fim de semana de sangue, ele pede que iranianos “continuem protestando” e promete que “a ajuda está a caminho”, sem detalhar que tipo de apoio oferece.
Para parte da população, a combinação entre repressão interna e pressões externas aprofunda a sensação de cerco. Hasan descreve a nova onda de manifestações como algo qualitativamente diferente do que vê em anos anteriores. “Tinha uma energia totalmente diferente”, diz. “As pessoas estão tão furiosas e só querem estar nas ruas”. O custo dessa decisão, porém, se mede agora em milhares de túmulos recém-abertos e em famílias que ainda buscam desaparecidos.
Organizações de direitos humanos defendem investigações independentes e falam em crime de Estado. Governos ocidentais estudam ampliar sanções e pressionar Teerã em fóruns internacionais. Dentro do país, a repressão tenta congelar o movimento nascido em janeiro, mas também alimenta uma indignação que atravessa gerações, marcada pela memória das execuções dos anos 1980 e pela violência atual.
Os próximos meses devem mostrar se o massacre de 8 e 9 de janeiro intimida a sociedade iraniana ou reforça a disposição de confronto. O regime aposta no medo e no esquecimento. Manifestantes, como Maryam, Hasan e Kiarish, insistem em registrar nomes, datas e rostos para evitar que aquela noite em que o país mergulhou no escuro desapareça da história.
