Tempestade de inverno deixa 700 mil sem luz e paralisa 20 estados nos EUA
Uma tempestade de inverno de alcance raro deixa cerca de 700 mil clientes sem energia e paralisa 20 estados dos Estados Unidos neste domingo (25). Neve, gelo e vento derrubam linhas de transmissão, fecham aeroportos e levam moradores a esvaziar supermercados diante da previsão de temperaturas de até -45°C de sensação térmica.
Frio extremo avança do sul ao nordeste
O sistema de tempestade se forma entre sábado e domingo sobre o sul e o centro-oeste dos EUA e avança em direção ao nordeste, alcançando a capital, Washington. Em poucas horas, rodovias ficam cobertas de gelo, aeroportos suspendem operações e autoridades estaduais decretam emergência em série.
O Serviço Nacional de Meteorologia descreve a tempestade como “excepcionalmente grande e duradoura” e alerta para um cenário prolongado de risco. “Os impactos da neve/granizo persistirão até a próxima semana, com períodos de congelamento que manterão as superfícies geladas e perigosas para dirigir e caminhar”, informa o órgão em boletim divulgado na manhã deste domingo.
As imagens se repetem de Kansas a Nova York. Carros abandonados em acostamentos, caminhões imobilizados em rampas de acesso e equipes de manutenção lutando para manter abertas as vias principais. Em alguns pontos de Kansas, Oklahoma e Missouri, a neve já atinge 20 centímetros de espessura na noite de sábado, ainda no início do avanço do sistema, segundo o NWS.
Washington acorda sob uma camada branca que cobre ruas e calçadas, com previsão de chuva congelante para o fim do dia. Os escritórios federais anunciam fechamento nesta segunda-feira, numa tentativa de evitar deslocamentos desnecessários em meio ao gelo.
Apagões, voos cancelados e prateleiras vazias
Os apagões se espalham rápido pelo mapa. O site PowerOutage.com registra mais de 700 mil clientes residenciais e comerciais sem energia na manhã deste domingo, concentrados sobretudo no sul, onde a tempestade começa um dia antes. O Tennessee lidera o ranking de cortes, com quase 250 mil unidades afetadas. Texas, Mississippi e Louisiana, estados pouco acostumados a esse tipo de frio, superam a marca de 100 mil interrupções cada.
Dezenas de milhares de casas e comércios também perdem luz em Kentucky e Geórgia. Sem aquecimento, moradores recorrem a lareiras, fogões a gás e geradores improvisados, aumentando o risco de acidentes domésticos e intoxicação por monóxido de carbono. Autoridades locais pedem que a população use apenas equipamentos certificados e mantenha ventilação mínima nos ambientes.
O setor aéreo entra em colapso ao longo do fim de semana. Em Washington, Filadélfia e Nova York, aeroportos operam no limite e, em muitos casos, simplesmente param. Estimativas do site FlightAware indicam mais de 14 mil voos cancelados desde sábado e milhares de atrasos em todo o país. Passageiros dormem em saguões, companhias aéreas correm para reorganizar tripulações e malhas, e conexões nacionais e internacionais são rompidas em cadeia.
A tempestade atinge também a logística básica de abastecimento. Em várias cidades do sul e do centro-leste, supermercados exibem prateleiras vazias ainda antes do pior da neve. Moradores antecipam o isolamento e esgotam estoques de água, alimentos enlatados, pães, velas e baterias. Caminhões de carga encontram estradas fechadas ou intransitáveis, o que prolonga a reposição de itens essenciais.
Governadores de 20 estados, além do distrito de Columbia, decretam estado de emergência. Órgãos de gestão de crises de Texas à Carolina do Norte e Nova York pedem que as pessoas fiquem em casa e evitem qualquer deslocamento desnecessário. “Evitem as estradas, a menos que seja absolutamente necessário”, publica a Divisão de Gerenciamento de Emergências do Texas na rede X, antes conhecida como Twitter.
Da Casa Branca, o presidente Donald Trump tenta transmitir controle da situação. Em mensagem na rede Truth Social, ele afirma: “Continuaremos monitorando e em contato com todos os estados na trajetória desta tempestade. Mantenham-se seguros e abrigados!”. A fala busca mostrar coordenação federal em meio a decisões descentralizadas de governadores e prefeitos.
Tempestade expõe fragilidades e debate climático
A origem do episódio extremo está em uma massa de ar ártico que desce do Canadá, após perturbações no chamado vórtice polar. Na prática, esse vórtice é um cinturão de ventos que, em condições normais, mantém o ar gelado confinado sobre o Ártico. Cientistas observam que, nas últimas duas décadas, essas “falhas” no cinturão se tornam mais frequentes.
Pesquisadores relacionam o fenômeno ao aquecimento acelerado do Ártico, que avança em ritmo superior à média global. O enfraquecimento dos ventos de alta altitude abre brechas para que massas de ar extremamente frio escapem em direção ao sul, atingindo diretamente Estados Unidos e Canadá. O resultado são ondas de frio mais intensas, embora mais irregulares, em um planeta estatisticamente mais quente.
Na vida cotidiana, o debate científico se traduz em vulnerabilidade concreta. Redes de transmissão elétrica em estados como Texas e Louisiana, projetadas para invernos mais amenos, sofrem com o peso do gelo sobre cabos e árvores. Sistemas de aquecimento doméstico não dão conta de temperaturas tão baixas por vários dias seguidos. Estradas sem estrutura para neve demoram horas, por vezes dias, para serem liberadas.
Setores econômicos sentem o impacto imediato. Companhias aéreas acumulam prejuízos com a suspensão de mais de 14 mil voos no fim de semana. Empresas de logística lidam com atrasos em entregas interestaduais e perda de cargas sensíveis à temperatura. Pequenos comércios, que dependem do fluxo diário de clientes, fecham as portas por tempo indeterminado, sem perspectiva clara de compensação.
Os próximos dias devem testar a capacidade de resposta das autoridades e da infraestrutura. A previsão aponta que o frio extremo permanece por até uma semana em algumas áreas, com sensação térmica abaixo de -45°C. O NWS alerta que o gelo pode provocar “quedas de energia prolongadas, danos a árvores e condições de viagem extremamente perigosas ou intransitáveis”. Equipes de manutenção trabalham em ritmo contínuo, mas o risco é que novos galhos e postes cedam antes da estabilização do tempo.
Próxima frente: adaptação e reconstrução
Governos estaduais se concentram agora em duas frentes simultâneas: manter serviços básicos funcionando durante a tempestade e planejar a recuperação imediata depois. A prioridade é restabelecer energia para hospitais, lares de idosos e regiões rurais mais isoladas. Abrigos aquecidos são montados em ginásios, escolas e igrejas, com fornecimento emergencial de cobertores e refeições.
No plano federal, a resposta à tempestade tende a alimentar um debate mais amplo sobre adaptação às novas dinâmicas climáticas do hemisfério norte. O episódio expõe limitações de redes elétricas, sistemas de transporte e cadeias de suprimento diante de eventos menos previsíveis e mais extremos. A reconstrução de linhas, estradas e aeroportos ao longo das próximas semanas deve vir acompanhada de discussões sobre investimentos em infraestrutura resistente ao frio intenso e protocolos de emergência mais rígidos.
Moradores, empresas e autoridades entram em uma corrida contra o relógio antes da próxima frente fria ou tempestade semelhante. A questão que se impõe, à medida que o Ártico continua a aquecer mais rápido que o restante do planeta, é se os Estados Unidos conseguirão adaptar suas cidades e sistemas a um inverno que já não se comporta como antes.
