Ciencia e Tecnologia

Da Apollo à Artemis: como a volta à Lua reabre a corrida espacial

Mais de meio século após a última caminhada humana na Lua, os Estados Unidos se preparam para levar outra tripulação ao entorno do satélite. A missão Artemis 2, prevista para 2026, retoma uma jornada interrompida em 1972 e reacende a disputa por liderança tecnológica em pleno século 21.

Da primeira pegada ao longo hiato

Entre julho de 1969 e dezembro de 1972, a presença humana na Lua deixa de ser milagre televisivo para virar quase rotina. Seis missões da Nasa, da Apollo 11 à Apollo 17, pousam astronautas no solo lunar, somando dezenas de horas de caminhadas, coleta de rochas e experimentos científicos num intervalo de pouco mais de três anos.

A narrativa começa em 20 de julho de 1969, quando Neil Armstrong desce a escada do módulo Eagle sob o olhar do planeta inteiro. Ele e Buzz Aldrin passam apenas cerca de duas horas e meia na superfície, tempo suficiente para instalar instrumentos básicos e recolher 21,5 kg de amostras. O colega Michael Collins permanece em órbita, sozinho no módulo Columbia, à espera do reencontro para o retorno à Terra.

Aquela cena é o clímax de uma disputa geopolítica aberta em 1957, com o lançamento soviético do Sputnik, e acirrada em 1961, quando Iuri Gagárin se torna o primeiro homem no espaço. Em resposta, o presidente John F. Kennedy estabelece a meta pública: pousar um americano na Lua e trazê-lo de volta em segurança antes do fim da década de 1960. Era uma aposta política e tecnológica, mais cara e arriscada que qualquer projeto civil dos EUA até então.

Para chegar ao satélite, a Nasa constrói uma escada de programas. Mercury, entre 1961 e 1963, prova que um ser humano pode sobreviver em órbita e trabalhar em microgravidade. Gemini, em 1965 e 1966, ensina acoplagem entre naves e caminhadas espaciais, habilidades indispensáveis para qualquer missão lunar. Só então nasce o programa Apollo, que estreia de forma trágica, com o incêndio em solo em 1967 que mata três astronautas durante um teste de cabine.

Na União Soviética, o avanço é tão rápido quanto secreto. Os russos colocam em operação as cápsulas Vostok e Voskhod, testam a futura Soyuz para voos mais longos e chegam a ensaiar missões ao redor da Lua com a série Zond. Em setembro de 1968, a Zond 5 faz um contorno do satélite com duas tartarugas e outros organismos a bordo e retorna em segurança. Documentos revelados após o fim da URSS mostram que a intenção original é enviar cosmonautas, mas falhas em testes barram o plano.

A percepção em Washington, porém, é de ameaça iminente. Em dezembro de 1968, mesmo sem o módulo lunar pronto, a Nasa decide mandar a Apollo 8 diretamente à órbita da Lua, com Frank Borman, Jim Lovell e William Anders. O voo envolve um risco evidente: se o motor principal falha na hora de sair da órbita lunar, os três ficam presos num caminho sem volta. A aposta dá certo e os americanos se tornam os primeiros a orbitar o satélite com uma tripulação.

Com a corrida simbólica praticamente decidida, a Nasa entra em ritmo frenético. Em março de 1969, a Apollo 9 testa o módulo lunar em órbita da Terra. Em maio, a Apollo 10 ensaia todas as manobras de pouso, leva o veículo a poucos quilômetros da superfície e volta sem tocar o solo. Em 16 de julho, parte a Apollo 11 e, quatro dias depois, Armstrong e Aldrin deixam as primeiras pegadas humanas na poeira cinza da Lua.

As missões seguintes ampliam ambição e alcance. A Apollo 12 realiza, em novembro de 1969, um pouso de precisão a apenas 136 metros da sonda robótica Surveyor 3, enviada dois anos antes. A Apollo 13, em abril de 1970, transforma um voo de rotina em drama global ao sofrer a explosão de um tanque de oxigênio a caminho da Lua. A alunissagem é cancelada, o módulo lunar vira bote salva-vidas e a tripulação retorna em voo livre ao redor do satélite, em uma operação de improviso que entra para a história.

Depois de quase um ano de investigações, a Nasa volta à superfície lunar em fevereiro de 1971, com a Apollo 14. A partir da Apollo 15, no mesmo ano, a agência leva um jipe elétrico dobrável, o Lunar Roving Vehicle, que permite deslocamentos de vários quilômetros. As tripulações passam mais de 60 horas no solo, multiplicam a coleta de amostras e transformam o que era sobretudo ato político em campanha científica.

A Apollo 17, em dezembro de 1972, encerra o ciclo. A bordo, o geólogo Harrison Schmitt torna-se o primeiro cientista profissional a caminhar na Lua, numa missão que soma 75 horas de permanência na superfície e 22 horas de caminhadas. Quando o módulo decola da planície de Taurus-Littrow, os Estados Unidos já decidiram que não haverá Apollo 18, 19 e 20, embora parte do hardware esteja pronto.

O preço da conquista e o retorno calculado

O encerramento do programa não é mistério para quem olha os números. No auge da Apollo, no fim da década de 1960, a Nasa consome cerca de 5% de todo o orçamento federal dos EUA. É dez vezes mais que a fatia típica de 0,5% que prevalece antes e volta a prevalecer depois. Cada missão carrega um risco estrutural de catástrofe em rede nacional, como alerta mais de um relatório interno da época.

Com a vitória simbólica sobre a União Soviética garantida e o desgaste político de gastos bilionários em plena Guerra do Vietnã, o governo Richard Nixon decide encerrar o programa ainda em 1969. A decisão é mantida por sucessores, e o sonho de uma presença contínua na superfície lunar se converte em uma estação espacial em órbita baixa e, anos depois, nos ônibus espaciais. Desde 1972, nenhum ser humano passa da órbita da Terra.

No intervalo, outras potências avançam. A China inaugura seu programa tripulado em 2003, pousa sondas na Lua a partir de 2013 e, em 2020, traz amostras lunares de volta pela missão Chang’e 5. Rússia, Europa, Japão, Índia e empresas privadas também ocupam o entorno da Terra e a órbita lunar com satélites, sondas e missões robóticas. A ausência de astronautas na Lua não significa vazio, mas mudança de prioridade.

Artemis 2 surge nesse cenário. A missão prevê um voo de cerca de dez dias ao redor da Lua, com quatro astronautas, em uma trajetória de contorno semelhante à da antiga Zond 5 soviética e ao caminho improvisado da Apollo 13. A nave Orion decola montada sobre o novo foguete SLS, mais potente que o Saturn V em alguns parâmetros, e testa, em condições reais, sistemas de suporte de vida e navegação para viagens de longa duração.

A novidade está no contexto. A corrida já não é apenas por prestígio simbólico, mas por domínio de um ambiente estratégico: o espaço cislunar, a região entre a Terra e a órbita da Lua. Nele circulam satélites de comunicação, sondas científicas e, em breve, possivelmente estações de abastecimento e plataformas de mineração. A disputa inclui não só Estados, mas também empresas privadas, que prometem reduzir custos com foguetes reutilizáveis e módulos habitáveis comerciais.

A Nasa apresenta Artemis como programa mais sustentável que a Apollo, com uso de componentes reaproveitáveis, parcerias com o setor privado e divisão de tarefas com agências europeias, canadenses e japonesas. “O objetivo agora é construir uma presença duradoura, que sirva de base para ir a Marte”, resumem porta-vozes da agência em entrevistas recentes. O discurso ecoa nos bastidores da política em Washington, onde a competição com a China volta a ser argumento central para defender gastos bilionários em exploração espacial.

Uma nova era lunar em construção

Artemis 2 não pousa na Lua, mas funciona como ensaio geral para as missões seguintes, que pretendem levar tripulações novamente ao solo lunar ainda na próxima década. A intenção declarada da Nasa é instalar, até o fim dos anos 2030, uma pequena estação em órbita lunar e uma infraestrutura mínima de suporte na superfície, com habitats, painéis solares e veículos capazes de operar por meses.

Se o plano avança, a Lua deixa de ser palco de visitas esporádicas para virar laboratório e plataforma de testes para viagens a Marte, nos anos 2040. O satélite oferece menor gravidade, recursos como água congelada em crateras polares e a possibilidade de produzir combustível com matéria-prima local. A mudança de escala implica debates sobre regulação internacional, exploração de recursos e responsabilidade ambiental além da Terra.

O sucesso de Artemis 2 também redefine a balança de poder na nova corrida espacial. Um voo seguro e dentro do cronograma fortalece a posição americana em negociações com aliados e pressiona rivais a acelerar seus próprios planos lunares. Um atraso prolongado, ou um acidente, pode abrir espaço para que a China reivindique protagonismo, sobretudo se Pequim seguir adiante com a ideia de construir uma base científica no polo sul lunar com parceiros russos.

Os próximos anos respondem a uma pergunta que paira desde 1972: a humanidade trata a Lua como símbolo ocasional ou como destino permanente? A diferença, agora, é que a resposta não depende mais apenas de dois países e de discursos em preto e branco transmitidos em televisores chiados.

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