Venezuela inicia libertação de 104 presos políticos sob pressão internacional
O governo da Venezuela começa em janeiro de 2026 a libertar ao menos 104 presos políticos, em um processo gradual monitorado por órgãos internacionais. As solturas integram um pacote mais amplo, que já soma 626 libertações desde dezembro de 2025 e responde a meses de pressão diplomática por avanços concretos em direitos humanos.
Pressão externa e cálculo interno
As saídas de presos ocorrem em ondas, negociadas em silêncio entre representantes do governo, uma organização local de direitos humanos e o escritório do alto comissário da ONU para os Direitos Humanos. A cada nova lista, advogados e familiares passam horas diante de tribunais e presídios à espera da confirmação de que os nomes foram, de fato, incluídos.
O movimento marca uma inflexão em uma política de anos de endurecimento, marcada por prisões de opositores, ativistas e jornalistas. A libertação de 626 pessoas em pouco mais de um mês, com pelo menos 104 classificados como presos políticos, indica uma tentativa do governo de responder a críticas sobre detenções arbitrárias e abusos em centros de detenção.
Diplomatas que acompanham a situação dizem, em caráter reservado, que a mudança não ocorre por iniciativa espontânea. “O governo venezuelano sente o peso das sanções e da sua própria imagem isolada. A libertação desses presos é um gesto calculado”, afirma um negociador estrangeiro envolvido em conversas recentes com Caracas.
A ONG venezuelana que participa do monitoramento, cuja atuação é reconhecida por entidades internacionais, mantém registro detalhado de cada soltura: data, nome, acusação e condições impostas. Segundo integrantes da organização, “não se trata de um perdão amplo, mas de uma correção parcial de injustiças evidentes”. Em muitos casos, as penas são substituídas por medidas alternativas, como obrigação de apresentação periódica à Justiça.
Direitos humanos em disputa
O histórico de violações de direitos humanos na Venezuela pesa sobre cada decisão tomada em Caracas. Relatórios da ONU e de entidades independentes apontam, desde pelo menos 2014, um padrão de repressão a protestos, perseguição a opositores e uso político do sistema judicial. A libertação de presos políticos não apaga esse passado, mas altera o tom da conversa com o mundo.
Organismos internacionais tratam o gesto como passo relevante, mas insuficiente. Técnicos de direitos humanos que acompanham o caso destacam que, embora 626 libertações em pouco mais de um mês representem alívio imediato para centenas de famílias, o país ainda precisa demonstrar que não haverá novas ondas de prisões motivadas por divergências políticas. A verificação externa, feita com apoio do alto comissário da ONU, serve como freio e também como aval político ao processo.
No plano interno, a medida mexe com o tabuleiro político. Setores da oposição enxergam na libertação uma vitória parcial da pressão da sociedade civil e da denúncia constante de abusos em organismos multilaterais. Aliados do governo, por outro lado, tentam apresentar o gesto como prova de disposição ao diálogo e à reconciliação nacional, em um momento em que o país busca aliviar o impacto econômico de anos de isolamento.
Especialistas em América Latina avaliam que a decisão pode reabrir caminhos para conversas sobre flexibilização de sanções econômicas, sobretudo por parte dos Estados Unidos e de países europeus. “Um processo verificado de libertação de presos políticos costuma ser uma moeda forte em mesas de negociação. O que o mundo observa agora é se esse movimento é consistente ou apenas pontual”, analisa um pesquisador de relações internacionais ouvido pela reportagem.
Risco de retrocesso e próximos passos
A continuidade do processo é o teste central. Organizações de direitos humanos cobram transparência total sobre a lista completa de presos políticos, os critérios usados para definir quem entra nas ondas de libertação e o destino daqueles que permanecem atrás das grades. Sem esse quadro claro, o temor é que os 104 libertos nesta etapa funcionem mais como vitrine do que como sinal de mudança estrutural.
Familiares de detentos ainda não contemplados falam em alívio cauteloso. A cada nova libertação, surgem relatos de filas em frente às prisões e de celulares colados ao ouvido, na expectativa por uma ligação de advogados. “Ver alguns saírem renova a esperança, mas também aumenta a angústia de quem continua esperando”, relata uma parente de preso político, sob condição de anonimato.
Diplomatas e analistas concordam que o governo tenta, com esse gesto, reduzir a pressão internacional sem abrir mão do controle sobre o processo político interno. A estratégia é acompanhar de perto a reação externa: se organismos multilaterais respondem com sinais de aproximação, o Palácio de Miraflores pode acelerar novas liberações; se as críticas persistem, o ritmo pode desacelerar.
Os próximos meses indicam se a libertação de ao menos 104 presos políticos, em um universo de 626 solturas desde dezembro de 2025, inaugura um novo capítulo na relação da Venezuela com os direitos humanos ou se ficará registrada apenas como manobra tática diante de um cenário internacional adverso.
