Delcy Rodríguez reage à pressão dos EUA e cobra autonomia à Venezuela
A presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, declara nesta segunda-feira (26) que está farta da pressão dos Estados Unidos e cobra respeito à soberania do país. Em pronunciamento em Caracas, ela afirma que apenas os venezuelanos têm legitimidade para resolver os conflitos internos.
Discurso em Caracas tensiona relação com Washington
Rodríguez fala em tom direto diante de apoiadores e aliados políticos na capital venezuelana. A presidente interina critica o que chama de “ordens” vindas de Washington e diz que não aceitará mais “imposições” sobre a condução da crise política interna. “Chega de pressão, chega de chantagem. A Venezuela não é um protetorado de ninguém”, afirma.
O discurso ocorre em meio a uma fase crítica das relações entre Caracas e Washington, marcadas por sanções econômicas, acusações mútuas e disputas sobre a legitimidade do governo venezuelano. Desde 2019, os Estados Unidos alternam gestos de aproximação pontuais com novas medidas de pressão, especialmente sobre o setor de petróleo, que responde por mais de 90% das exportações do país.
Soberania no centro da disputa diplomática
A fala desta segunda-feira aprofunda uma linha que o governo venezuelano repete há pelo menos cinco anos: a defesa da soberania como resposta à intervenção estrangeira. Rodríguez insiste que conflitos políticos, econômicos e sociais devem ser resolvidos “nas urnas e nas instituições venezuelanas”, sem mediação de capitais estrangeiros. “Não aceitaremos tutelas nem ultimatos”, declara.
A presidente interina reage a uma sequência de recados de autoridades norte-americanas, que, ao longo de janeiro, condicionam qualquer alívio de sanções a mudanças políticas rápidas em Caracas. A pressão envolve prazos públicos, ameaças de endurecimento de medidas e exigências de reformas institucionais consideradas internas pelo governo venezuelano. A resposta de Rodríguez, em rede nacional, mira tanto o público doméstico quanto observadores internacionais, em um esforço para reforçar a imagem de um governo que resiste a interferências externas.
Impacto interno e cálculo político regional
O discurso tem efeito imediato na política interna. A base aliada celebra a postura de confronto como reafirmação de autonomia nacional, enquanto setores da oposição veem na fala um risco de isolamento diplomático maior. Em um país que enfrenta inflação elevada, economia dependente do petróleo e sucessivas ondas de migração, o debate sobre sanções e pressão externa ganha peso concreto no cotidiano da população.
Analistas consultados por veículos locais apontam que a escalada verbal pode influenciar negociações sobre eventuais ajustes nas sanções impostas desde meados da década passada. Qualquer endurecimento adicional tende a atingir diretamente a receita em dólar do país, pressionar serviços públicos e limitar a entrada de insumos básicos. Empresas estrangeiras que atuam na região observam com cautela, avaliando cenários para contratos de médio e longo prazo, especialmente em energia e infraestrutura.
Reação internacional e disputa de narrativas
No plano externo, a declaração de Rodríguez alimenta um debate mais amplo sobre soberania e intervenção na América Latina. Governos próximos a Caracas costumam criticar abertamente a política de sanções dos Estados Unidos, enquanto aliados de Washington defendem a manutenção da pressão em nome de mudanças políticas internas. A posição anunciada hoje pode servir de referência para outros países que buscam marcar distância em relação a grandes potências.
Organismos multilaterais acompanham o impasse com atenção, sobretudo pela possibilidade de novos atritos afetarem a estabilidade política regional. Em um continente que soma crises recentes em pelo menos quatro países, qualquer deterioração adicional nas relações entre Caracas e Washington tende a repercutir em fóruns diplomáticos, negociações comerciais e iniciativas de integração econômica.
Próximos passos e incertezas
O governo venezuelano sinaliza que pretende manter o discurso de enfrentamento às pressões externas, ao mesmo tempo em que tenta preservar canais de diálogo seletivo. A estratégia busca ganhar tempo em negociações sensíveis, como eventuais revisões de sanções e acordos energéticos estratégicos para os próximos anos.
As próximas semanas devem mostrar se o pronunciamento de Rodríguez representa apenas um gesto retórico para consumo interno ou o início de uma fase ainda mais rígida nas relações com os Estados Unidos. A forma como Washington reage à cobrança por autonomia e respeito à soberania indicará até que ponto a disputa atual abre caminho para algum tipo de acomodação diplomática ou empurra a região para um novo ciclo de tensão.
