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Mineira desaparece em subsolo de prédio em Caldas Novas; síndico é denunciado

O desaparecimento de Daiane Alves de Souza, 43 anos, dentro do condomínio onde mora em Caldas Novas (GO), completa mais de um mês sem explicação. Ela é vista pela última vez em 17 de dezembro de 2025, entrando no subsolo do Edifício Amethist Tower após relatar queda de energia em seu apartamento. No rastro deixado pela corretora, surge uma denúncia criminal contra o síndico, acusado de perseguição, abuso de autoridade e sabotagem de serviços.

Desaparecimento em um prédio cercado por conflitos

No fim da tarde de 17 de dezembro, as câmeras de segurança registram Daiane entrando no elevador às 18h50. O apartamento dela está sem luz, enquanto o corredor segue iluminado e o elevador funciona normalmente. Ela grava um vídeo com o celular, mostra o escuro dentro de casa e avisa a uma amiga que vai até a recepção checar se há problema na rede elétrica.

As imagens exibem a corretora apertando os botões do térreo e do subsolo. No primeiro andar, ela sai, retorna dois minutos depois e, então, segue para o pavimento inferior. Filma a própria chegada ao subsolo, caminha alguns passos e desaparece. A partir daí, nenhuma câmera mostra sua saída do prédio, e os vídeos gravados depois desse momento não chegam a ser enviados.

O carro de Daiane está em uma oficina mecânica, o que afasta a hipótese de que ela deixe o condomínio dirigindo. Documentos, bolsa e outros pertences permanecem no apartamento. A mãe dela, Nilse Alves Pontes, resume a perplexidade da família: “A minha filha desapareceu, literalmente, dentro do prédio”.

A primeira a notar algo errado é a filha de 17 anos. Ao voltar para casa, horas depois, encontra a porta do apartamento trancada e não consegue falar com a mãe pelo celular. Liga para a avó, que já está a caminho do edifício. A partir daquele fim de noite, o Edifício Amethist Tower se torna o centro de uma busca que envolve polícia, Ministério Público e uma comunidade inteira em alerta.

Denúncia contra o síndico expõe clima de perseguição

Dois dias após o caso ganhar repercussão, em 19 de janeiro, o Ministério Público de Goiás envia à Justiça uma denúncia criminal contra o síndico do Amethist Tower. O documento o acusa de perseguir Daiane de forma reiterada entre novembro de 2024 e outubro de 2025, valendo-se do cargo para restringir a rotina da moradora. A peça inclui ainda agravante por abuso de autoridade.

O estopim da crise ocorre em novembro de 2024, quando Daiane aluga dois apartamentos de sua propriedade para duas famílias, somando nove pessoas. O número de hóspedes temporários supera o limite permitido pelo regulamento interno e desencadeia atritos. A partir dali, segundo o MP, o síndico passa a vigiar de perto os passos da corretora e de seus clientes.

Relatos anexados à denúncia indicam que as solicitações de manutenção dos imóveis administrados por Daiane passam a enfrentar barreiras incomuns. Para cada pedido, o síndico exigiria protocolo presencial, com requerimento em papel e firma reconhecida em cartório. Em mensagens e discussões presenciais, o tom se eleva. Em fevereiro de 2025, uma briga termina em agressão física, quando, de acordo com o Ministério Público, o síndico acerta a moradora com uma cotovelada.

Os promotores afirmam ainda que o administrador monitora “toda a movimentação de Daiane pelo condomínio, bem como de seus hóspedes, pelo sistema de vigilância por câmeras”. Em alguns momentos, ele envia essas imagens à irmã da corretora. O documento também atribui ao síndico a sabotagem de serviços de água, gás, internet e energia nos apartamentos ligados à corretora, com fechamento de registros, desligamento de padrões e desconexão de cabos.

Em agosto de 2025, quatro meses antes do sumiço, uma assembleia geral extraordinária decide, por ata, expulsar Daiane do condomínio. O texto fixa prazo de até 12 horas para que ela deixe o prédio e proíbe sua aproximação da recepção. “Fica desde já o síndico e demais funcionários do condomínio autorizados a tomar quaisquer medidas que forem necessárias para impedir o acesso e permanência da Sra. Daiane”, registra o documento. O 1º Juizado Especial Cível e Criminal de Caldas Novas suspende a decisão meses depois, ao apontar que a moradora não tem direito à ampla defesa.

Nilse, a mãe, evita atribuir o desaparecimento diretamente a esse histórico, mas admite que o clima era de cerco. “Toda a família viveu muitos problemas com o condomínio nos perseguindo. Vários em fase de julgamento pela Justiça”, conta. Para ela, a sequência de episódios ajuda a entender a dimensão da tensão que cercava a filha.

Buscas, incertezas e sensação de insegurança

O caso passa a ser investigado pela 19ª Delegacia Regional de Polícia de Caldas Novas, com apoio do Grupo de Investigação de Homicídios (GIH). A Polícia Civil monta uma força-tarefa, recolhe as imagens das câmeras internas e externas e pede perícia para verificar possíveis falhas ou adulterações. O delegado responsável, André Luiz Barbosa, afirma em entrevista a uma TV local que quer saber se há gravações “perdidas” que ainda não tenham sido entregues às autoridades.

Equipes realizam buscas em uma área de mata ao lado do condomínio com cães farejadores, mas não encontram vestígios. Objetos pessoais da corretora, como uma escova de cabelo, o notebook e um caderno, seguem para análise técnica. Cartazes com a foto de Daiane espalham-se por Caldas Novas, enquanto a polícia reforça canais de denúncia anônima pelo telefone 197 e pelos contatos oficiais da delegacia.

A repercussão ultrapassa os muros do Amethist Tower. Moradores de outros prédios da região relatam medo de usar áreas comuns à noite. As assembleias condominiais, quase sempre esvaziadas, passam a discutir segurança, controle de acesso e limites da atuação de síndicos em conflitos com proprietários e inquilinos. Em grupos de moradores, o caso vira exemplo de como disputas internas podem escalar para o Judiciário e para o noticiário policial.

A denúncia do Ministério Público, ainda em análise pela Justiça, coloca pressão sobre a administração do condomínio. Se a acusação de perseguição com abuso de autoridade for aceita, o síndico se torna réu em ação penal e pode responder por crime de stalking, incluído no Código Penal em 2021. A figura jurídica pune quem persegue alguém de forma reiterada, ameaçando a integridade física ou psicológica e restringindo a liberdade da vítima.

Para a família, a ausência de respostas pesa mais do que qualquer embate jurídico. “Nós estamos vivendo uns dias de terror”, diz Nilse. “Há momentos de pânico, de muita dor. E a gente vai se apoiar em Deus.” A adolescente de 17 anos, filha de Daiane, evita aparecer em público, mas acompanha de perto cada movimento da investigação.

Pressão por respostas e o que vem pela frente

Nos bastidores, investigadores trabalham com vários cenários, que vão de um crime dentro do condomínio a uma eventual saída não captada pelas câmeras. Nenhuma hipótese é descartada oficialmente. A falta de registro visual de Daiane deixando o prédio, porém, mantém aceso o questionamento central: o que acontece com a corretora depois que ela entra no subsolo para checar o quadro de energia?

As próximas semanas devem ser decisivas para dois eixos paralelos. De um lado, a perícia em imagens, equipamentos de segurança e objetos pessoais pode oferecer pistas sobre a rota percorrida por Daiane e eventuais contatos no dia do desaparecimento. De outro, a Justiça de Goiás analisa se aceita a denúncia contra o síndico e determina medidas cautelares, como afastamento da função ou restrições de contato com familiares e testemunhas.

Advogados que acompanham o caso avaliam que o desfecho terá impacto direto sobre a discussão de direitos de moradores em condomínios residenciais, tema que mobiliza centenas de disputas judiciais em todo o país. A linha que separa o poder de gestão de um síndico e o abuso de autoridade volta ao centro do debate, agora sob a lente de um desaparecimento ainda sem explicação.

Enquanto a investigação avança em sigilo, Caldas Novas convive com cartazes de procura-se que não trazem prazo de validade. Na porta do Amethist Tower, o mistério permanece intacto: uma moradora desce ao subsolo para religar a energia de casa e não volta mais. A resposta para o que acontece naquele intervalo de minutos ainda falta à polícia, à Justiça e a uma família que insiste em esperar por Daiane viva.

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