Ciencia e Tecnologia

Apollo 17: a última pegada humana na Lua e a nova corrida espacial

A última caminhada humana na Lua acontece em dezembro de 1972, com a missão Apollo 17, da Nasa, e encerra um ciclo de quatro anos de pousos tripulados no satélite. O programa, que começa com Neil Armstrong em 1969 e termina com o geólogo Harrison H. Schmitt, muda a história da exploração espacial e ainda define os termos da nova disputa que ressurge meio século depois.

Da corrida da Guerra Fria ao silêncio de 50 anos

Entre julho de 1969 e dezembro de 1972, o pouso humano na Lua deixa de ser promessa política para virar rotina técnica. Em apenas três anos e meio, os Estados Unidos realizam seis alunissagens bem-sucedidas, de Apollo 11 a Apollo 17, todas impulsionadas pelo foguete Saturn V, então o mais poderoso já construído. A sequência marca a vitória americana na corrida espacial contra a União Soviética e transforma o satélite em palco de demonstração de poder tecnológico em plena Guerra Fria.

O caminho até ali começa em outubro de 1957, quando o Sputnik soviético entra em órbita e expõe a vulnerabilidade americana. Nos quatro anos seguintes, Moscou empilha marcos: o primeiro animal em órbita, com a cadela Laika, em 1957, e o primeiro voo humano ao espaço, com Iuri Gagárin, em abril de 1961. Poucas semanas depois, o presidente John F. Kennedy responde em um discurso que impõe prazo e objetivo claros: levar um americano à Lua e trazê-lo de volta em segurança até o fim da década.

A recém-criada Nasa passa a trabalhar em regime de urgência. Primeiro vem o programa Mercury, entre 1961 e 1963, que testa o básico: colocar um astronauta em órbita, verificar se ele suporta a microgravidade e se consegue operar equipamentos. Em seguida entra em cena o programa Gemini, entre 1965 e 1966, com cápsulas para dois tripulantes treinando acoplamentos em órbita, caminhadas espaciais e manobras de encontro entre naves, habilidades indispensáveis para uma viagem lunar.

Quando o projeto Apollo finalmente começa a sair do papel, a realidade cobra seu preço. Em janeiro de 1967, um incêndio durante um teste em solo da Apollo 1 mata três astronautas dentro da cápsula. O choque adia voos e força uma revisão profunda de materiais, procedimentos e sistemas elétricos. No outro lado da Cortina de Ferro, os soviéticos enfrentam tragédia semelhante no primeiro voo da cápsula Soyuz, também em 1967, e veem ruir, aos poucos, o plano secreto de chegar à Lua com o foguete gigante N1.

A definição da corrida se dá nos foguetes. Os americanos conseguem operar, com relativa confiabilidade, o Saturn V, de 110 metros de altura e capacidade de colocar cerca de 140 toneladas em órbita baixa. Os soviéticos, sem o engenheiro-chefe Sergei Korolev, morto em 1966 após uma cirurgia, nunca fazem o N1 funcionar em quatro tentativas. Com o tempo, a União Soviética abandona discretamente a ideia de pouso tripulado e passa a negar, em público, que tenha participado da disputa lunar.

Seis pousos, um quase desastre e um geólogo no fim

Depois da missão de teste Apollo 7, em 1968, a Nasa acelera. Em dezembro daquele ano, a Apollo 8 entra em órbita da Lua sem levar o módulo de pouso, numa aposta arriscada motivada pelo temor de que os soviéticos tentassem um voo tripulado de circunlunação. Se o motor principal falhasse, os três astronautas ficariam presos em torno do satélite. O risco compensa: Frank Borman, Jim Lovell e William Anders se tornam os primeiros humanos a orbitar outro corpo celeste.

A Apollo 10, em maio de 1969, ensaia todos os passos do pouso, levando o módulo lunar a poucos quilômetros da superfície. Em 16 de julho do mesmo ano, a Apollo 11 decola da Flórida. Quatro dias depois, Neil Armstrong e Buzz Aldrin pousam o módulo Eagle no Mar da Tranquilidade, enquanto Michael Collins permanece em órbita. Na madrugada de 21 de julho de 1969, Armstrong desce a escada e pronuncia o fraseado que entra para a história. A dupla passa cerca de 2 horas e 30 minutos do lado de fora, coleta 21,5 quilos de rochas e instala experimentos. De volta à Terra, em 24 de julho, os três astronautas cumprem uma quarentena de 21 dias, por precaução contra hipotéticos germes lunares.

Com o objetivo político cumprido, o programa segue. Em novembro de 1969, a Apollo 12 pousa a 136 metros da sonda não tripulada Surveyor 3, em um exercício de precisão que demonstra controle quase cirúrgico sobre a descida. Em abril de 1970, a Apollo 13 expõe o outro lado da equação. Uma explosão em um tanque de oxigênio danifica o módulo de comando caminho da Lua. O pouso é cancelado, e a tripulação transforma o módulo lunar em bote salva-vidas para dar a volta no satélite e retornar. A operação improvisada entra para o imaginário público como prova de engenhosidade técnica, mas também reforça a percepção de que cada voo carrega risco alto de desastre.

Depois de quase um ano de investigações, a Nasa retoma as alunissagens em fevereiro de 1971, com a Apollo 14. A missão repete o alvo da 13 e coloca Alan Shepard e Edgar Mitchell para duas caminhadas focadas em experimentos científicos. A virada acontece com a Apollo 15, em julho de 1971, que inaugura a fase das expedições longas. O módulo lunar ganha mais capacidade de carga, os astronautas passam 66 horas na superfície e usam, pela primeira vez, o jipe elétrico Lunar Roving Vehicle, que permite viagens de vários quilômetros além do ponto de pouso.

A Apollo 16, em abril de 1972, amplia o modelo, com 71 horas de permanência na Lua e mais de 20 horas em caminhadas. Enquanto as equipes de voo refinam a ciência, o ambiente político em Washington muda. Em 1969, o presidente Richard Nixon já decide que, vencida a corrida, é hora de encerrar o programa. Com o orçamento da Nasa chegando a cerca de 5% dos gastos federais no auge do Apollo, contra um patamar típico de 0,5% em outros anos, a conta política se torna difícil de defender.

As missões Apollo 18, 19 e 20 são canceladas, mesmo com equipamentos quase prontos. A agência reorganiza a escalação final para incluir ao menos um cientista de carreira entre os que pisam na Lua. Em dezembro de 1972, a Apollo 17 decola levando o comandante Eugene Cernan, o piloto do módulo de comando Ronald Evans e o geólogo Harrison H. Schmitt. A dupla que desce à superfície passa 75 horas no solo lunar, com caminhadas que somam 22 horas, recolhe amostras de regiões geologicamente mais complexas e registra as imagens do último jipe lunar em movimento.

O legado técnico, a nova corrida e a volta à Lua

Quando Cernan sobe a escada do módulo lunar pela última vez, em 14 de dezembro de 1972, a Nasa já sabe que não volta tão cedo. O custo astronômico, o desgaste político e o temor de uma tragédia levam à decisão de encerrar ali o ciclo de pousos. A partir daí, a agência concentra esforços em órbita baixa, com o ônibus espacial e estações em parceria internacional. O hiato de visitas humanas à Lua passa de 50 anos.

O impacto do programa Apollo, porém, não fica congelado nos anos 1970. A família de tecnologias desenvolvidas para levar 12 pessoas à superfície lunar, entre eletrônica miniaturizada, materiais leves, métodos de navegação e sistemas de comunicação, transborda para a economia civil. As mais de 380 quilos de rochas trazidas das seis missões abastecem laboratórios no mundo inteiro e ajudam a reconstruir 4,5 bilhões de anos de história do Sistema Solar, em um esforço que continua até hoje.

A ausência de novas pegadas na Lua não significa abandono definitivo. A partir da década de 2000, sondas orbitais americanas, europeias, chinesas e indianas mapeiam o satélite com precisão inédita. O foco deixa de ser apenas prestígio e passa a incluir um cálculo estratégico sobre recursos, como gelo de água em crateras polares, e sobre o controle do chamado espaço cislunar, a região entre a Terra e a órbita da Lua, considerada vital para comunicações, defesa e navegação.

A Nasa se prepara agora para a missão Artemis 2, prevista para o meio da década, que deve levar quatro astronautas em um voo de contorno da Lua, em trajetória semelhante à da Apollo 8, mas com tecnologia do século 21. Os Estados Unidos voltam a se enxergar em uma corrida, desta vez com a China, que planeja pousos tripulados em solo lunar na década de 2030. A disputa inclui quem define regras de exploração, quem instala as primeiras bases permanentes e quem domina a logística de lançamento barato.

O fim da Apollo 17, em 1972, não é mais o último capítulo, e sim uma vírgula longa. Quando um novo astronauta voltar a deixar uma pegada fresca na poeira lunar, o mundo tentará responder se a humanidade está só repetindo um gesto simbólico ou inaugurando, enfim, uma presença duradoura fora da Terra.

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