Nova estratégia militar dos EUA recoloca Doutrina Monroe no centro
O Pentágono divulga neste sábado, 24 de janeiro de 2026, uma atualização ampla da Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos. O documento redefine prioridades militares, pressiona aliados e recoloca a Doutrina Monroe como referência explícita para o Hemisfério Ocidental.
Washington muda o foco e cobra mais de aliados
A nova estratégia marca uma inflexão clara: a China passa a ser tratada como prioridade principal de dissuasão, acima dos compromissos tradicionais com a defesa da Europa. O texto afirma que o esforço central das Forças Armadas americanas se concentra na proteção do território dos EUA e na competição de longo prazo com Pequim, deslocando o eixo estratégico para a região Indo-Pacífico.
A Rússia aparece descrita como ameaça “persistente” ao flanco leste da Otan, mas o documento deixa explícito que a responsabilidade pela guerra na Ucrânia “recai em grande medida sobre os ombros europeus”. A mensagem é direta: os governos do continente precisam colocar mais recursos na própria defesa e reduzir a dependência do poder militar americano.
A diretriz afirma que a postura de tolerar gastos menores em defesa por parte de parceiros ficou para trás. Aliados na Europa, no Oriente Médio e na Península Coreana “devem assumir a responsabilidade primária por sua própria segurança”, afirma o texto, em uma cobrança inequívoca por mais investimento, mais tropas e maior capacidade autônoma. Na prática, Washington sinaliza que pretende redistribuir custos e compromissos, reservando mais meios para disputas estratégicas consideradas centrais nas próximas décadas.
Doutrina Monroe volta ao vocabulário oficial
O trecho mais sensível para o Brasil e seus vizinhos está na parte dedicada ao Hemisfério Ocidental. A estratégia declara que os EUA “não cederão mais acesso ou influência sobre terreno-chave” na região, “do Ártico à América do Sul”, com o objetivo expresso de “garantir que a Doutrina Monroe seja mantida em nosso tempo”. A referência resgata, em linguagem direta, a doutrina formulada em 1823, que consagrou a ideia de que o continente americano é zona de influência privilegiada de Washington.
Ao reincorporar essa lógica ao documento de defesa, o Pentágono envia um recado para rivais e parceiros: a presença de China e Rússia em portos, bases, cabos submarinos e infraestrutura estratégica nas Américas passa a ser vista como disputa frontal de influência. Na leitura de diplomatas ouvidos reservadamente, a frase abre espaço para uma política mais assertiva de contenção de investimentos e acordos militares com potências externas, especialmente em países que aprofundam laços com Pequim e Moscou.
A formulação funciona como justificativa para ampliar pressão política, econômica e eventualmente militar sobre governos que negociem concessões em áreas consideradas sensíveis, como Amazônia, Caribe e rotas do Atlântico Sul. A mensagem também mira o Ártico, onde o derretimento acelerado do gelo abre novas rotas e recursos, e onde Rússia e China buscam expandir presença desde a década passada.
Modernização nuclear e resposta a drones
A atualização da Estratégia Nacional de Defesa prevê uma modernização “ampla” do complexo industrial de defesa. O texto fala em “mobilização do esforço de toda a nação americana” para acelerar a produção de armas, munições e sistemas de alta tecnologia. O plano inclui a renovação das forças nucleares, com uma frase categórica: “Os Estados Unidos nunca — jamais — ficarão vulneráveis à chantagem nuclear”.
O documento cita diretamente o avanço dos arsenais de Rússia, China, Coreia do Norte e Irã como parte de um ambiente “mais instável e competitivo”. Em relação a Teerã, o tom é duro: os EUA “não permitirão” que o país obtenha armas atômicas. Sobre a Coreia do Norte, o Pentágono identifica um “perigo claro e presente de ataque nuclear ao território americano”, reforçando a prioridade dada à proteção do homeland, como o texto define o próprio território.
A diretriz destaca ainda a necessidade de criar e implantar sistemas para conter veículos aéreos não tripulados e outras ameaças aéreas de baixo custo. O peso crescente de drones em guerras recentes, da Ucrânia ao Oriente Médio, aparece como um sinal de que conflitos futuros devem combinar armas caras com plataformas simples e letais. A estratégia indica que os EUA pretendem dominar também esse campo, com tecnologias de detecção, bloqueio e destruição desses equipamentos.
China como rival central, sem discurso de mudança de regime
A região Indo-Pacífico aparece no documento como prioridade central da defesa americana. A dissuasão da China é descrita como “prioridade principal”, em linha com a avaliação de que a competição com Pequim define o horizonte militar das próximas décadas. Ao mesmo tempo, o texto afirma que a política de longo prazo dos EUA “não inclui tentativas de mudar o governo” chinês nem “outras formas de conflito” direto.
A combinação de endurecimento estratégico no plano militar e de uma negativa explícita de intenção de mudança de regime busca calibrar sinais. Washington quer mostrar que prepara suas forças para uma competição intensa, mas tenta reduzir a percepção de uma escalada fora de controle. Para analistas em capitais asiáticas, essa ambiguidade deixa espaço tanto para acordos pontuais quanto para crises graves em torno de Taiwan, rotas marítimas e cadeias de tecnologia crítica.
No campo do combate ao terrorismo, a estratégia promete uma abordagem “sustentável em recursos”, focada em grupos islâmicos que tenham “capacidade e intenção” de atacar o território americano. A formulação indica que operações prolongadas e intervenções de larga escala ficam em segundo plano, enquanto se prioriza a proteção direta das fronteiras e da infraestrutura dos EUA.
Impacto no Hemisfério Ocidental e próximos passos
A reafirmação da Doutrina Monroe em um documento de 2026 tende a provocar reações em governos latino-americanos que buscam equilibrar relações com Washington, Pequim e Moscou. Países que firmam contratos de infraestrutura, energia ou defesa com a China e a Rússia podem se ver sob escrutínio maior, inclusive em temas como portos de águas profundas, satélites e redes de comunicação.
Na Europa, a nova ênfase em “responsabilidade primária” deve alimentar o debate sobre aumento de gastos militares e autonomia estratégica dentro da própria União Europeia. Com vários países ainda abaixo da meta de 2% do PIB em defesa, a pressão americana tende a se traduzir em cronogramas mais rígidos de investimento e em revisões de acordos dentro da Otan. Na Ásia, a combinação de contenção ao Irã, alerta sobre a Coreia do Norte e foco na China consolida um arco de tensão que vai do Golfo Pérsico ao Pacífico ocidental.
A estratégia divulgada agora é pensada para a próxima década, em um cenário de competição de grandes potências e avanços tecnológicos rápidos. O documento sugere que os EUA pretendem preservar superioridade militar, redistribuir responsabilidades entre aliados e reforçar seu controle político no Hemisfério Ocidental. A dúvida, a partir desta publicação, é como países da região e de fora dela vão reagir a uma Doutrina Monroe reescrita para o século XXI.
