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Primeira rodada de negociações sobre o Donbass termina sem acordo

Rússia e Ucrânia encerram neste sábado (24) em Abu Dhabi a primeira rodada de negociações para o fim da guerra no Donbass, mediada pelos Estados Unidos. As conversas duram cerca de três horas e são descritas como “construtivas”, mas a retirada de tropas segue como principal impasse.

Abu Dhabi entra no mapa da diplomacia de guerra

No fim da tarde nos Emirados Árabes Unidos, a delegação russa deixa o prédio das reuniões e retorna ao hotel sem anúncio de acordo. Do lado ucraniano, o tom público é parecido: ninguém fala em fracasso, mas ninguém detalha avanços concretos. O que ambos confirmam é que o diálogo continua vivo e que uma nova rodada já tem data prevista.

Fontes ouvidas pela agência russa TASS afirmam que “as conversas foram concluídas” e afastam a possibilidade de estender a rodada ainda neste sábado. Um integrante da equipe russa insiste que “não se pode dizer que não houve resultados, pois eles existem”, sem abrir o conteúdo das propostas. Do outro lado da mesa, negociadores ucranianos dizem ao portal Axios que o encontro é “construtivo” e “positivo” e adiantam que as tratativas devem ser retomadas na próxima semana.

A presença dos Estados Unidos como mediador transforma Abu Dhabi em palco de uma disputa que, desde 2014, redefine o eixo de segurança da Europa. Segundo um funcionário americano, que fala sob anonimato, os encontros são “otimistas e positivos”, com previsão de retorno das delegações aos Emirados em 1º de fevereiro para a segunda rodada. O intervalo de uma semana serve para consultas internas em Moscou e Kiev e para calibrar o que pode ou não ir para a mesa de um acordo preliminar.

Guerra, território e medo de uma nova ofensiva

O núcleo da negociação é o Donbass, região industrial no leste da Ucrânia que se torna símbolo da guerra e peça central da segurança russa. Há mais de uma década, o conflito no leste ucraniano já deixa dezenas de milhares de mortos, desloca milhões de civis e pressiona orçamentos militares de Moscou, Kiev e das capitais europeias. Cada quilômetro de território vira argumento estratégico nas conversas deste sábado.

Fontes relatam que russos e ucranianos passam boa parte das três horas examinando documentos sobre “território, garantias de segurança e outros aspectos” de um acordo de paz. O ponto mais explosivo é a exigência russa de retirada das tropas ucranianas do Donbass. “Esta questão continua sendo a mais complexa. Para a Rússia, é importante a retirada do Exército ucraniano do Donbass. Para isso, estão sendo considerados diferentes parâmetros de segurança”, afirma uma fonte oficial à TASS.

Kiev reage com a própria lista de exigências. A Ucrânia quer garantias formais de defesa, na prática um compromisso que aproxime o país do artigo 5º da Otan, cláusula que obriga aliados a reagir a uma agressão externa. O governo Zelensky pede que Estados Unidos e europeus assumam por escrito a obrigação de responder em caso de novo ataque russo. Moscou rejeita qualquer presença de tropas ocidentais em território ucraniano e considera essa hipótese uma ameaça direta ao seu entorno estratégico.

O peso da guerra aparece nas entrelinhas das conversas. Na madrugada de 30 de novembro do ano passado, um ataque russo com drone coloca um edifício residencial em chamas em Vyshhorod, na região de Kiev, e reforça entre ucranianos a percepção de vulnerabilidade permanente. Episódios como esse alimentam a pressão interna sobre Zelensky para não ceder em questões territoriais sem garantias sólidas de segurança.

Delegações militares, bastidores políticos e cálculo de poder

O formato das delegações revela a natureza da negociação. Moscou envia a Abu Dhabi uma equipe inteiramente militar, chefiada pelo almirante Ígor Kostiukov, “número dois” do Estado-Maior russo e chefe da inteligência militar. O Kremlin cumpre a promessa de elevar o nível de representação em relação às três reuniões bilaterais anteriores, quando o time era comandado apenas por um assessor presidencial. A sinalização é clara: o que está em jogo é desenho de fronteira e arranjo de segurança, áreas sob controle direto das Forças Armadas.

Do lado ucraniano, a mesa mistura governo, Parlamento e estrutura de segurança. Entre os nomes confirmados estão Kyrylo Budanov, chefe do gabinete presidencial, David Arajamia, líder do bloco do partido de Volodymyr Zelensky no Parlamento, e Rustem Umerov, secretário do Conselho de Segurança Nacional. A composição reflete o desafio de qualquer acordo: qualquer cessão territorial ou compromisso militar precisa passar tanto pelo núcleo duro do governo quanto pela base política em Kiev.

A mediação americana também carrega sua própria dramaturgia. Vladimir Putin só dá o sinal verde para as negociações trilaterais em Abu Dhabi depois de uma reunião, na madrugada de sexta-feira, com os emissários da Casa Branca, Steve Witkoff e Jared Kushner. Zelensky faz o mesmo após se encontrar, na quinta-feira, com o presidente dos EUA, Donald Trump, à margem do Fórum Econômico Mundial de Davos. O tabuleiro é global: o conflito no Donbass já não é apenas um drama regional, mas um teste para a capacidade de Washington de conter crises em seu confronto com Moscou e Pequim.

Impacto imediato e riscos de frustração

A simples realização de uma rodada formal de negociações, com participação direta da Rússia, da Ucrânia e dos Estados Unidos, já altera o humor diplomático em capitais europeias. Se um desenho de cessar-fogo avançar nas próximas semanas, governos da União Europeia passam a ter espaço para rever pacotes de ajuda militar e ampliar programas de reconstrução. Bancos e empresas que congelam projetos na Ucrânia desde 2022 monitoram cada sinal de distensão.

Um eventual acordo sobre o Donbass pode reduzir o número de ataques diários, aliviar a pressão sobre cidades como Kharkiv e Zaporíjia e abrir corredores seguros para ajuda humanitária. A normalização gradual das relações comerciais entre Moscou e Kiev também interessa a produtores agrícolas, companhias de energia e ao mercado de grãos, que sentem os efeitos da guerra em preços e cadeias de abastecimento desde o início do conflito em larga escala.

O processo, porém, é politicamente inflamável nos dois países. Em Moscou, qualquer concessão territorial é vista por setores nacionalistas como derrota estratégica. Em Kiev, a mera discussão sobre retirada de tropas do Donbass pode ser lida como abandono de cidadãos ucranianos que vivem na região. A pressão de grupos internos, somada ao desgaste de quase dois anos de ofensivas intensas após 2022, cria o risco de que avanços à mesa de negociação se transformem em munição para adversários políticos.

Calendário apertado e incógnitas no horizonte

A previsão de uma segunda rodada em 1º de fevereiro estabelece um calendário curto para decisões duras em Moscou, Kiev e Washington. Antes de uma eventual reunião entre Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin, negociadores avaliam que serão necessárias novas conversas em solo russo ou ucraniano, além de encontros técnicos sobre fronteiras, verificação militar e presença de observadores internacionais. A hipótese de uma sessão conjunta dos dois presidentes com Donald Trump também entra no radar, mas depende de progresso real nos próximos dias.

As próximas semanas testam se o encontro de Abu Dhabi é ponto de virada ou apenas pausa estratégica em uma guerra longa. A forma como Rússia e Ucrânia lidam com a questão central da retirada de tropas, e com as garantias de segurança exigidas por Kiev, define se a fronteira do Donbass caminha para um mapa estável ou para mais uma década de conflito congelado. Até lá, civis nas cidades atingidas, soldados na linha de frente e governos em todo o continente esperam que três horas de conversa em um hotel nos Emirados Árabes tenham sido o começo de algo maior, e não apenas mais um capítulo em uma guerra sem fim à vista.

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