Rússia faz maior ataque aéreo à Ucrânia em meio a negociação de paz
A Rússia lança, em janeiro de 2026, o maior ataque aéreo do ano contra a Ucrânia, com mais de 370 drones e 21 mísseis, horas após negociações de paz mediadas pelos Estados Unidos em Abu Dhabi. As investidas atingem áreas civis e infraestrutura crítica em plena onda de frio, deixam ao menos um morto e 31 feridos e expõem o abismo entre o campo de batalha e a mesa de negociação.
Negociações em curso sob o som das explosões
O ataque começa poucas horas depois de delegações da Rússia, da Ucrânia e dos EUA encerrarem o primeiro dia de conversas em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Enquanto negociadores retornam aos hotéis, sirenes de alerta aéreo voltam a ecoar em Kiev, Kharkiv, Sumy e Chernihiv, em um cenário que combina mesa de negociação e guerra em tempo real.
A segunda rodada de conversas, ainda a portas fechadas, segue durante a madrugada em que mísseis e drones cruzam o céu ucraniano, segundo a agência estatal russa TASS. Em Kiev, jornalistas relatam sucessivas explosões, enquanto a Força Aérea ucraniana aciona as defesas para tentar conter a maior ofensiva aérea russa registrada no inverno de 2026.
O prefeito da capital, Vitali Klitschko, confirma ao menos uma morte provocada pela queda de destroços e fala em incêndios e danos extensos a edifícios residenciais. Quase 6 mil blocos de apartamentos ficam sem aquecimento, e parte da cidade perde o abastecimento de água em uma madrugada em que os termômetros marcam -12 ºC. “A infraestrutura civil volta a ser alvo, e os moradores pagam o preço”, afirma o prefeito, em vídeo divulgado nas redes sociais.
Em Kharkiv, segunda maior cidade do país e localizada no nordeste, os ataques atingem uma maternidade e um dormitório que abriga deslocados internos, segundo o prefeito Ihor Terekhov. Ao menos 19 pessoas ficam feridas, entre elas uma criança, em uma região que já convive há meses com rotina de sirenes, abrigos improvisados e noites interrompidas pela guerra.
Donbas trava a paz e alimenta a escalada
As primeiras avaliações do governo ucraniano apontam para uma ofensiva concentrada contra o sistema energético nacional. O presidente Volodymyr Zelensky afirma que os ataques miram instalações elétricas e de aquecimento “cruciais” para a sobrevivência da população durante o inverno. “A Rússia tenta transformar o frio em arma”, diz o líder ucraniano, em pronunciamento diário.
O contraste entre o ataque e o esforço diplomático evidencia o principal impasse da mesa de negociação: o futuro do Donbas. Moscou insiste na retirada total das forças ucranianas da região, formada pelas áreas de Donetsk e Luhansk, que antes da guerra concentram boa parte do parque industrial e da mineração de carvão do país. Kiev rejeita a exigência, por considerá-la uma capitulação territorial inaceitável.
Quase quatro anos após a invasão em grande escala, lançada em 2022, a Rússia mantém sob ocupação cerca de 20% do território reconhecido internacionalmente como parte da Ucrânia. O controle abrange praticamente toda Luhansk e porções relevantes de Donetsk, Kherson e Zaporizhzhia, criando um corredor terrestre que liga a fronteira russa à Crimeia anexada em 2014. É nessa geografia que se decide a margem de manobra dos negociadores.
O Donbas concentra um “cinturão de fortalezas”: cidades industriais, ferrovias e rodovias que sustentam a linha de frente e a logística militar ucraniana no leste. Generais em Kiev classificam a área como espinha dorsal da defesa do país. Uma eventual retirada abriria caminho para avanços russos sobre o restante do leste e alteraria de forma permanente o equilíbrio militar na região.
Com a pressão do campo de batalha, os EUA intensificam o esforço para destravar um acordo. O governo Trump envia a Abu Dhabi o enviado especial Steve Witkoff, o conselheiro da Casa Branca Josh Gruenbaum e o genro de Donald Trump, Jared Kushner, que volta a atuar como articulador de um plano de paz. A aposta da Casa Branca é usar influência política e econômica para aproximar posições, apesar das críticas de que um cessar-fogo precoce poderia consolidar ganhos territoriais russos.
Infraestrutura sob ataque e futuro incerto da guerra
Os números da ofensiva desta madrugada dão a medida da escalada. Segundo Zelensky, a Rússia lança mais de 370 drones e 21 mísseis contra diversas regiões, em um padrão que combina saturação das defesas aéreas e ataques dirigidos a alvos de alta relevância. Centrais elétricas, estações de aquecimento e redes de distribuição voltam ao centro da mira, reacendendo o temor de apagões prolongados e colapso de serviços básicos.
A destruição de infraestrutura crítica em meio ao inverno tem efeito imediato sobre a população civil. Hospitais passam a operar com geradores, escolas adiam o retorno após as férias de fim de ano e famílias se preparam para mais noites em abrigos ou estações de metrô. Em bairros de Kiev e Kharkiv, moradores reativam fogões a lenha, reforçam janelas com plástico e estocam água diante da incerteza sobre a próxima madrugada.
Do ponto de vista militar, o ataque pressiona ainda mais o sistema de defesa aérea ucraniano, já sobrecarregado após quase quatro anos de guerra. Cada míssil interceptado representa custos elevados em munição e manutenção, enquanto drones mais baratos continuam a testar as brechas do sistema. A conta recai sobre parceiros ocidentais, que precisam decidir até onde vão no envio de armamentos em um momento de cansaço político com o conflito.
Na frente diplomática, o principal negociador ucraniano, Rustem Umerov, adota tom cauteloso após o primeiro dia de conversas em Abu Dhabi. Em mensagem publicada no X, ele fala em busca de uma “paz digna e duradoura” e agradece aos Estados Unidos pela mediação. Zelensky reforça a linha, mas evita acenos de otimismo. “É muito cedo para conclusões. Veremos como as negociações se desenrolam amanhã e quais serão os resultados”, afirma.
Do lado russo, o Kremlin repete em público as mesmas exigências que apresenta à mesa: reconhecimento de controle de fato sobre áreas ocupadas e retirada ucraniana do Donbas. Moscou envia à negociação uma delegação que inclui altos integrantes da inteligência militar, sinal de que os cálculos no campo de batalha seguem norteando a proposta de paz.
Próximas reuniões já estão previstas, mas tanto em Kiev quanto em Moscou a leitura é de que nenhuma solução rápida está à vista. Enquanto os diplomatas discutem mapas e cláusulas de cessar-fogo, novos ataques podem redesenhar as condições de força de cada lado. A pergunta que paira sobre Abu Dhabi, Kiev e Washington é se a mesa de negociação conseguirá correr mais rápido que os mísseis lançados nesta madrugada.
