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Protestos contra inflação no Irã têm repressão com 43 mil mortos

Lojistas e comerciantes iranianos lideram, desde 28 de dezembro, uma onda nacional de protestos contra a disparada da inflação e medidas econômicas do governo. As manifestações se espalham por mais de 100 cidades e enfrentam repressão violenta das forças de segurança, com 43 mil mortos, segundo o Centro para Direitos Humanos.

Bazares fechados, preços em alta e explosão do descontentamento

O estopim da crise está na vida diária de quem depende do bazar para comprar comida e manter o negócio aberto. Em Teerã, capital do país, comerciantes conhecidos como bazaaris decidem, em 28 de dezembro, baixar as portas em protesto contra a escalada de preços. Em poucos dias, as faixas com reclamações sobre o custo do óleo de cozinha e do frango se transformam em gritos contra a política econômica e o regime.

Os relatos que chegam de várias províncias descrevem prateleiras vazias, reajustes “da noite para o dia” e um temor crescente de desabastecimento. Produtos básicos somem ou passam a custar muito mais do que famílias de renda fixa conseguem pagar. “O óleo que eu comprava na semana passada simplesmente desaparece do mercado, e o que reaparece está com preço que não faz sentido”, afirma, sob condição de anonimato, um comerciante de Teerã. Em cidades menores, moradores falam em filas longas e em compra apressada, com medo de novos aumentos.

A pressão aumenta quando o banco central encerra um programa que permitia a alguns importadores acessar dólares a uma cotação mais baixa do que a do restante do mercado. A medida encarece a reposição de estoques, empurra lojistas a remarcarem preços em cadeia e reforça o sentimento de ruptura entre governo e pequeno comércio, historicamente visto como um pilar de apoio da República Islâmica.

O governo de perfil reformista tenta reagir com uma compensação direta: oferece transferências mensais de cerca de US$ 7 por pessoa, na tentativa de amortecer o choque para as famílias mais pobres. O valor, porém, não cobre a alta acumulada de itens essenciais na cesta de consumo. A cada novo anúncio oficial, a desconfiança se espalha pelos corredores dos bazares e pelas redes de parentesco que estruturam a economia local.

Repressão, crise humanitária e pressão internacional

As manifestações deixam de ser apenas econômicas à medida que a repressão se intensifica. Segundo o Centro para Direitos Humanos, forças de segurança atiram para dispersar multidões e seguem perseguindo manifestantes que fogem para casas próprias ou de terceiros. Testemunhas relatam que agentes continuam a disparar contra pessoas desarmadas dentro de residências, o que, em muitos casos, resulta em mortes imediatas.

Os 43 mil mortos estimados pela entidade apontam para uma crise humanitária que extrapola episódios anteriores de violência política no país. As atuais mobilizações já são descritas como as maiores desde 2022, quando a morte de Mahsa Amini, de 22 anos, sob custódia da polícia religiosa, impulsiona o movimento “Mulher, Vida, Liberdade”. Agora, a pauta se desloca para o direito básico de sobreviver à inflação descontrolada e à escassez.

A repercussão internacional cresce a cada novo balanço de vítimas. Organizações de direitos humanos pedem investigações independentes e acusam o governo iraniano de usar a crise econômica como justificativa para endurecer o controle social. O Conselho de Direitos Humanos da ONU aprova uma moção que abre caminho para apurar a violência nos protestos. A diplomacia iraniana reage acusando governos estrangeiros, em especial os Estados Unidos, de travarem uma “guerra psicológica” com ameaças militares e campanhas de pressão.

Enquanto autoridades em Teerã insistem em apontar interferência externa, comerciantes e trabalhadores afirmam que a raiz do conflito está dentro de casa. “Não precisamos que ninguém nos diga o que sentimos. Nossas contas e nossas mesas mostram a verdade”, diz um lojista da capital. A paralisação do comércio em áreas tradicionais corrói arrecadação, desorganiza cadeias de abastecimento e produz um efeito dominó sobre transportadores, pequenos produtores agrícolas e prestadores de serviço.

Economia paralisada, governo acuado e incerteza adiante

A instabilidade prolongada agrava a fragilidade de uma economia já pressionada por sanções internacionais, câmbio volátil e desemprego elevado entre os mais jovens. Em grandes centros urbanos, parte do varejo opera com horários reduzidos, e empresários adiam investimentos. Em regiões mais pobres, famílias reduzem refeições, trocam proteínas por alimentos mais baratos e acumulam dívidas em mercados de bairro.

A base social do governo reformista sofre desgaste acelerado. A tentativa de se diferenciar de setores mais conservadores esbarra na percepção de que, na prática, a repressão é compartilhada. Transferências de US$ 7 mensais soam simbólicas diante da perda de poder de compra e da memória recente dos protestos de 2022. Para muitos iranianos, a sequência de crises mistura luto, medo e exaustão política.

A médio prazo, analistas preveem mais pressão por mudanças na condução da política econômica e na forma como o Estado reage à dissidência. Aliados do Irã observam com cautela o risco de descontrole interno, enquanto adversários utilizam os números de mortos para reforçar o isolamento diplomático do país. A resposta de Teerã a investigações internacionais e a eventuais novas sanções pode definir o ritmo da crise.

Dentro do país, a dúvida é quanto tempo comerciantes conseguem manter as portas fechadas sem colapso financeiro definitivo. A cada dia de protesto, a economia perde fôlego, e as famílias se afastam um pouco mais da promessa de estabilidade. A pergunta que ecoa nos bazares e nas ruas é se o custo humano e econômico da repressão empurra o regime a ceder, ou se o Irã entra em um novo ciclo prolongado de confronto interno.

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