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Morte de enfermeiro por agentes federais trava verba e ameaça governo dos EUA

A morte de um enfermeiro em Minneapolis, atingido por agentes federais em uma operação neste início de 2026, desencadeia uma crise em Washington. Senadores democratas se recusam a aprovar o financiamento do Departamento de Segurança Interna, elevando o risco de uma nova paralisação do governo dos Estados Unidos nas próximas semanas.

Operação em Minneapolis vira catalisador político

O caso acontece em um bairro residencial de Minneapolis, em Minnesota, em uma noite de janeiro marcada por operações federais em diferentes pontos da cidade. O enfermeiro, de 34 anos, voltava de um plantão de 12 horas em um hospital local quando é abordado por agentes envolvidos em uma investigação de segurança interna. Minutos depois, está morto, baleado em circunstâncias que ainda não ficam claras para a população nem para as autoridades locais.

Testemunhas relatam uma abordagem tensa, com armas em punho e gritos para que moradores recuem. Vídeos gravados por celulares circulam nas redes sociais em poucas horas e mostram o enfermeiro caído na calçada, enquanto agentes cercam a área e impedem a aproximação de vizinhos. A versão inicial dos responsáveis pela operação fala em “ameaça percebida” e “resposta proporcional”, mas a reação pública é imediata e furiosa.

Familiares do enfermeiro dizem que ele não está armado e que nunca teve qualquer envolvimento com crimes. A prefeitura de Minneapolis cobra explicações formais do governo federal e chama o episódio de “fracasso grave de protocolo”. A cidade, que ainda carrega as marcas da morte de George Floyd em 2020, volta a ser o centro de um debate nacional sobre violência de Estado, racismo estrutural e limites do poder policial.

Bloqueio no Senado pressiona Casa Branca e aumenta risco de apagão administrativo

Em Washington, o impacto é imediato. No dia seguinte ao episódio, um grupo de senadores democratas anuncia que não votará o pacote de financiamento do Departamento de Segurança Interna, responsável por coordenar forças federais em todo o país. O orçamento em discussão gira em torno de centenas de bilhões de dólares para o ano fiscal de 2026 e precisa ser aprovado até o fim de fevereiro para evitar uma interrupção parcial das atividades do governo.

“Não vamos assinar um cheque em branco para um departamento que coloca cidadãos desarmados na mira e depois chama isso de protocolo”, afirma um senador democrata, em discurso no plenário. A bancada condiciona o avanço das negociações a mudanças concretas na política de uso da força por agentes federais nas cidades, com novas regras de transparência, câmeras corporais obrigatórias e revisão de treinamentos. Republicanos acusam os adversários de explorar politicamente uma tragédia e alertam para o risco de um novo shutdown em plena recuperação econômica.

Um fechamento do governo afetaria mais de 2 milhões de servidores federais, atrasaria pagamentos de contratos, reduziria operações de fiscalização e poderia gerar filas em aeroportos, já que parte dos funcionários de segurança trabalharia sem garantia de salário. Em 2018 e 2019, uma paralisação parcial durou 35 dias e deixou agências como a própria Segurança Interna operando no limite. O episódio de Minneapolis reacende o temor de uma repetição desse cenário, agora em um ambiente ainda mais polarizado.

Organizações de direitos civis pressionam o Congresso a ir além do bloqueio orçamentário e a instaurar uma comissão independente para investigar a atuação de agentes federais em áreas urbanas. Grupos ligados à saúde cobram proteção para profissionais que atuam na linha de frente e lembram que o enfermeiro morto ajudava no atendimento de pacientes em unidades públicas. A morte de um trabalhador essencial, baleado após sair do plantão, transforma um debate jurídico em questão moral, com forte apelo simbólico.

País dividido entre segurança, direitos civis e ameaça de nova crise institucional

O governo tenta evitar que a disputa em torno do orçamento se transforme em impasse total. Assessores da Casa Branca mantêm conversas diárias com líderes do Senado em busca de um texto de compromisso que inclua salvaguardas para direitos civis sem desidratar o orçamento de segurança. A janela de negociação é estreita: faltam poucas semanas para o fim do prazo legal, e cada novo protesto em Minneapolis alimenta a pressão sobre parlamentares.

Na cidade, manifestações reúnem milhares de pessoas em frente à sede da polícia e ao prédio federal, com cartazes que perguntam “Quem nos protege de quem diz nos proteger?”. Moradores relatam medo de novas operações e descrevem a presença de agentes armados como uma “ocupação”. Para parte da população, a morte do enfermeiro confirma a sensação de que o uso da força letal se torna resposta automática em qualquer situação de tensão, especialmente em bairros pobres e racialmente marcados.

Especialistas em segurança pública lembram que, desde 2020, o país registra uma sucessão de episódios em que mortes em abordagens policiais mudam o curso de debates em Washington. A combinação de vídeo viral, indignação nas redes e pressão organizada já derrubou chefes de polícia, alterou protocolos e influenciou eleições locais. Agora, esse padrão chega ao coração do orçamento federal e coloca em risco a estabilidade administrativa do maior governo do mundo.

Se o Congresso não encontrar um acordo até o limite do prazo, a morte de um único enfermeiro em Minneapolis pode desencadear, indiretamente, a suspensão de serviços em agências que vão da imigração à proteção ambiental. A pergunta que se impõe, diante do choque entre segurança e direitos civis, é se a pressão por mudança será capaz de reformar a atuação dos agentes federais antes que o país encare, outra vez, o custo político e econômico de ficar parcialmente paralisado por decisão de seus próprios representantes.

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