Fósseis revelam onças-pintadas caçando presas de 1 tonelada no Brasil
Uma pesquisa publicada nesta sexta-feira (23) no periódico Taylor & Francis mostra que onças-pintadas brasileiras da Era do Gelo caçam presas de quase 1 tonelada. A análise de fósseis da Bahia e de Pernambuco revela que esses grandes felinos abatem preguiças-gigantes e um estranho herbívoro de tromba, redesenhando a história da megafauna no país.
Brasil mais frio, onças maiores e presas gigantes
O estudo, divulgado em janeiro de 2026, reconstrói o cenário do Brasil durante o fim do período Pleistoceno, entre 2,6 milhões e 11,7 mil anos atrás. O retrato afasta a imagem de um país sempre verde e úmido: o clima é mais frio e seco, as florestas são mais baixas e abertas, e grandes animais vagam em busca de água em rios e lagos espalhados pelo território.
Nesse ambiente, onças-pintadas de porte maior que o atual dividem espaço com tigres-dentes-de-sabre, cachorros-do-mato primitivos e uma legião de herbívoros gigantes. Entre eles está a preguiça-gigante Ahytherium aureum, que chega perto de 1 tonelada, e o enigmático Xenorhinotherium bahiense, um mamífero com corpo de lhama e uma tromba curta que lembra a de um elefante.
A equipe liderada pelo paleontólogo Mário A. T. Dantas, da Universidade Federal da Bahia, examina ossos encontrados em afloramentos fósseis da Bahia e do interior de Pernambuco. Nas patas dianteiras desses animais aparecem perfurações profundas e regulares que, à primeira vista, levantam mais perguntas do que respostas. São marcas de dentes, de larvas de insetos ou de outro processo de decomposição?
Os pesquisadores comparam essas marcas com a dentição de diversos carnívoros do período, incluindo tigres-dentes-de-sabre, cachorros selvagens e grandes felinos extintos. A análise morfológica afina o foco. A forma, o espaçamento e a profundidade dos furos coincidem com o padrão de mordida de onças-pintadas pré-históricas, fortes o bastante para atravessar ossos maciços.
“Eu vejo que a onça continua basicamente com o mesmo tipo de nicho e não mudou tanto”, diz Dantas à Folha de S.Paulo. Segundo ele, a espécie mantém o papel de grande predador de topo, mas, naquele passado distante, tem diante de si um cardápio bem mais amplo de megafauna.
A possibilidade de ação de insetos também entra na mira. Os cientistas avaliam a textura interna dos buracos, o padrão de desgaste e a localização das perfurações. Larvas costumam deixar marcas irregulares, na superfície e em ossos mais frágeis. Nos fósseis analisados, os furos são concentrados em regiões estratégicas para imobilizar a presa, como mãos e patas dianteiras, o que reforça o cenário de ataque de um predador.
Onças que caçam gigantes e brigam entre si
O trabalho mostra que essas onças-pintadas conseguem abater animais que chegam a quase 1.000 quilos, algo impensável para os indivíduos atuais, que hoje pesam, em média, entre 80 e 100 quilos. Com presas tão grandes e abundantes, o felino atinge tamanhos maiores e explora recursos que já não existem no ambiente moderno.
A preguiça-gigante estudada vem de um sítio fossilífero da Bahia. Já o Xenorhinotherium bahiense analisado surge no interior de Pernambuco. Em ambos os casos, a distribuição das marcas indica ataques dirigidos, possivelmente em momentos de vulnerabilidade, quando esses animais se aproximam de corpos d’água para beber e se refrescar em um clima seco.
Dantas explica que, com a extinção da megafauna ao fim do Pleistoceno, o equilíbrio entre predadores se rompe. “Ela tinha como opções outros tipos de recursos alimentares, que hoje não existem mais, e por isso podia chegar a tamanhos maiores”, afirma. O tigre-dentes-de-sabre, especialista em capturar os maiores mamíferos, some por completo. As onças, mais flexíveis na dieta, encolhem um pouco, mas atravessam a crise e chegam ao presente.
O estudo encontra ainda um capítulo inesperado: crânios de grandes felinos da mesma época, encontrados em uma caverna na Bahia, exibem furos muito semelhantes aos vistos nas preguiças e no Xenorhinotherium. As marcas se concentram na região da cabeça, sugerindo golpes fatais trocados entre indivíduos da mesma espécie ou de espécies rivais.
Esses sinais de conflito interno indicam uma competição intensa por território, parceiros e carcaças de grandes presas. Em um mundo povoado por herbívoros de quase 1 tonelada, controlar uma área rica em água e alimento pode definir quais linhagens prosperam e quais desaparecem para sempre.
As conclusões ajudam a preencher lacunas sobre a ecologia da América do Sul durante a Era do Gelo. A imagem que emerge é a de um sistema complexo, com cadeias alimentares longas e interações que lembram, em escala ampliada, o que hoje se observa em áreas de floresta amazônica e no Pantanal.
O que a Era do Gelo ensina sobre onças de hoje
A pesquisa publicada pela Taylor & Francis não fica restrita à paleontologia. As evidências de caça a megafauna e de disputas violentas entre grandes felinos ajudam a entender o comportamento das onças-pintadas atuais e orientam estratégias de conservação. Se, no passado, esses animais dependem de áreas extensas, cheias de presas robustas, hoje enfrentam o desafio oposto: florestas fragmentadas, caçada ilegal e perda acelerada de habitat.
Ao mostrar que a espécie já atravessa mudanças climáticas radicais e sobrevive ao desaparecimento de seus principais alimentos, o estudo reforça a capacidade de adaptação das onças. Essa plasticidade, porém, tem limites. Sem corredores ecológicos que conectem biomas e sem proteção efetiva de rios, florestas e grandes mamíferos, a pressão sobre os felinos aumenta.
Os autores defendem novas escavações em cavernas e depósitos fósseis no Nordeste, regiões ainda pouco exploradas em comparação com áreas clássicas da paleontologia sul-americana. Cada novo osso escavado pode revelar detalhes sobre dietas, migrações e interações entre espécies que compartilham o mesmo território há dezenas de milhares de anos.
As descobertas também dialogam com modelos climáticos que tentam prever o futuro da fauna brasileira em um planeta que volta a aquecer em ritmo acelerado. Entender como onças-pintadas e suas presas respondem a secas prolongadas no passado ajuda a projetar cenários para o Cerrado, a Caatinga e a Amazônia nas próximas décadas.
Nos bastidores da pesquisa, o trabalho conjunto entre laboratórios brasileiros e estrangeiros fortalece a paleontologia feita no país e valoriza o patrimônio fóssil nacional. Os cientistas lembram que cavernas, margens de rios e sítios arqueológicos onde esses ossos aparecem continuam sob ameaça de vandalismo, mineração e obras de infraestrutura mal planejadas.
Enquanto novas amostras aguardam análise em coleções universitárias, permanece a pergunta sobre quantas histórias semelhantes ainda jazem sob o solo seco do Nordeste. A resposta pode redefinir, mais uma vez, o lugar das onças-pintadas na longa história do Brasil e orientar como o país decide protegê-las daqui para frente.
