Ciencia e Tecnologia

Cometa interestelar 3I/ATLAS entra em atividade total perto do Sol

O cometa interestelar 3I/ATLAS entra em dezembro de 2025 em um estado de atividade total após passar próximo ao Sol. A transformação, liderada por uma onda de calor que percorre seu núcleo gelado, surpreende cientistas e aproxima sua química da dos cometas do próprio Sistema Solar.

De visitante discreto a laboratório natural em erupção

O objeto, que parecia relativamente pouco ativo durante as observações de agosto, muda de comportamento ao se aproximar do periélio em 30 de outubro de 2025. Nas semanas seguintes, instrumentos em órbita e na Terra começam a registrar sinais claros de que algo profundo ocorre no interior do 3I/ATLAS. A água, que permanecia em grande parte congelada, passa a evaporar em ritmo acelerado.

O relatório liderado por C.M. Lisse, do Laboratório de Física Aplicada da Universidade Johns Hopkins, mostra que a emissão de vapor d’água aumenta cerca de 20 vezes entre agosto e dezembro. Esse salto indica que não apenas os gelos mais voláteis, como o de dióxido de carbono, entram em ebulição, mas também o gelo de água, que exige mais energia para sublimar. Para os astrônomos, esse é o sinal inequívoco de que o cometa se torna plenamente ativo.

O 3I/ATLAS pertence a uma classe raríssima de objetos que chegam de fora do Sistema Solar. Até agora, apenas outros dois visitantes desse tipo são confirmados, 1I/ʻOumuamua e 2I/Borisov. Cada novo exemplar funciona como um teste para nossas teorias sobre como se formam e evoluem os mundos em torno de outras estrelas. No caso do 3I/ATLAS, a surpresa não está apenas na intensidade da atividade, mas na forma como ela muda a “assinatura” química do cometa.

Química familiar em um visitante de fora

Os dados mostram que o aquecimento pelo Sol desencadeia uma onda térmica, uma frente de calor que se propaga para camadas mais profundas do núcleo. À medida que essa onda avança, libera materiais até então presos sob o gelo. O observatório SPHEREx identifica emissões fortes de cianeto (CN) e de compostos orgânicos simples, mas relevantes, como metanol, formaldeído, metano e etano, todos contendo carbono e hidrogênio.

Essas moléculas estavam provavelmente aprisionadas em bolsões internos, preservadas desde a formação do cometa em outro sistema estelar. Com o aquecimento, passam a compor uma atmosfera temporária ao redor do núcleo, a chamada coma. O monóxido de carbono (CO) também dispara: o fluxo cresce cerca de 20 vezes, sugerindo que um novo reservatório de gelo entra em cena, além daquele que já alimenta a emissão de dióxido de carbono (CO₂).

As proporções entre CO, CO₂ e água começam então a se alinhar às medidas em cometas típicos do Sistema Solar. Para os pesquisadores, isso quebra uma expectativa importante. Um objeto formado em outra vizinhança estelar deveria, em tese, exibir proporções bem diferentes. “O 3I/ATLAS se comporta, quimicamente, como se fosse um cometa que sempre viveu aqui”, resume um dos cientistas envolvidos no estudo, segundo o relatório. A coincidência abre duas possibilidades: ou os ambientes de formação são mais parecidos do que se imaginava, ou os processos físicos que atuam sobre esses corpos são capazes de uniformizar suas composições ao longo do tempo.

A transformação não é apenas química. As imagens mostram que a aparência do cometa muda de forma clara. A nuvem de gás ao redor do núcleo permanece relativamente simétrica, mas a nuvem de poeira assume um formato de pera, com a parte mais estreita voltada para o Sol. O padrão sugere uma emissão direcional de partículas sólidas, guiada tanto pela radiação solar quanto pela rotação do próprio núcleo.

O espectro de refletância, uma espécie de impressão digital da luz que o cometa reflete, também se altera. Antes dominado por sinais de gelo, passa a exibir a marca de uma poeira escura, de baixo brilho e com leve espalhamento azulado. Esse tipo de material é associado a misturas ricas em olivina, um silicato comum em rochas cósmicas, e carbono amorfo, que lembra um carvão microscópico. São grãos que perdem seu revestimento gelado ao serem expostos ao calor, deixando o cometa visualmente mais apagado e avermelhado.

Janela inédita para a origem de moléculas complexas

As mudanças no 3I/ATLAS interessam diretamente a quem estuda a origem da vida. Compostos orgânicos como metanol e formaldeído são blocos iniciais para moléculas mais complexas, incluindo aminoácidos. Ver esse arsenal químico emergir de um cometa interestelar ajuda a testar a hipótese de que sistemas planetários espalham, pelo espaço, ingredientes que podem semear mundos vizinhos.

Os resultados também impactam o planejamento de futuras missões espaciais. A confirmação de que um cometa interestelar pode se tornar tão ativo quanto os cometas locais reforça a ideia de uma missão dedicada a interceptar um desses visitantes. Uma sonda capaz de voar ao lado de um objeto como o 3I/ATLAS, coletar dados in situ e talvez amostras, permitiria comparar diretamente o material interestelar com o que já se conhece aqui.

Laboratórios de modelagem espalhados por Europa, Estados Unidos e Ásia começam a ajustar seus códigos numéricos para reproduzir a onda térmica que varre o núcleo do cometa. A meta é entender em detalhes em que profundidade o gelo passa a sublimar, qual a estrutura interna necessária para armazenar esses reservatórios de CO e como a liberação súbita de gás reorganiza a superfície. Essas respostas ajudam a prever o comportamento de outros corpos gelados, inclusive aqueles que podem cruzar órbitas de planetas.

O caso do 3I/ATLAS também influencia a agenda de grandes telescópios, como o James Webb. A “química estranha” do cometa já intriga os astrônomos do observatório espacial, que enxergam na atual fase de atividade uma oportunidade rara de observar diretamente moléculas complexas em um ambiente extremo. O comportamento do objeto funciona como um laboratório natural, sem custo de lançamento, onde é possível assistir em tempo real ao que a radiação intensa faz com a matéria primordial.

O que o próximo visitante vai revelar

A ativação total do 3I/ATLAS, registrada em dezembro de 2025, marca um ponto de virada na ainda curta história dos cometas interestelares. Cada novo conjunto de dados força a revisão de modelos sobre formação de sistemas planetários, distribuição de gelo e evolução química no espaço profundo. O fato de esse visitante se parecer tanto, em composição, com os cometas do nosso quintal cósmico levanta uma questão incômoda: quantos dos nossos pressupostos sobre “exótico” e “familiar” ainda se sustentam.

A comunidade científica já se organiza para o próximo encontro. Com a melhoria dos sistemas de alerta e de varredura do céu, a tendência é que novos objetos interestelares sejam detectados mais cedo e acompanhados por mais tempo. Esses próximos alvos vão dizer se o 3I/ATLAS é um caso típico ou uma exceção que confirma a regra. Até lá, o cometa segue funcionando como um lembrete incômodo de que, mesmo em um Sistema Solar amplamente mapeado, a visita de um pequeno bloco de gelo de outro lugar ainda tem poder para redesenhar perguntas fundamentais sobre a origem e o destino da matéria no Universo.

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