Buracos negros, brancos e de minhoca: o que a ciência já sabe
Buracos negros são realidade observada; buracos brancos e de minhoca ainda vivem no papel. Em entrevista à CNN Brasil, o astrofísico Rodrigo Nemmen, da USP, explica, neste 24 de janeiro de 2026, onde termina a evidência e começa a especulação cosmológica.
O que é fato no Universo hoje
No Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, Nemmen passa os dias estudando objetos que ninguém verá a olho nu. Ainda assim, ele fala deles com a segurança de quem lida com dados concretos. Buracos negros, resume, já saíram da categoria de suspeitos para a de réus confessos do cosmos.
Esses objetos condensam uma quantidade enorme de matéria em uma região minúscula do espaço. A gravidade fica tão intensa que nada escapa, nem a luz. “Eles se tornam uma verdadeira prisão gravitacional”, diz. É por isso que parecem negros: a luz que entra não volta para contar a história.
A confirmação experimental não é mais um desejo, mas um histórico de resultados. Em abril de 2019, o consórcio internacional Event Horizon Telescope divulgou a primeira imagem da “sombra” de um buraco negro, no centro da galáxia M87. Em 2022, o mesmo grupo publicou o registro do buraco negro no coração da Via Láctea. Nos dois casos, observatórios espalhados pela Terra funcionam como um telescópio do tamanho do planeta.
Em paralelo, desde 2015, detectores como o LIGO, nos Estados Unidos, e o Virgo, na Europa, captam ondas gravitacionais produzidas pela colisão de buracos negros a centenas de milhões de anos-luz. Cada sinal confirma, em números, previsões feitas pela relatividade geral de Albert Einstein há mais de 100 anos. “Há ampla comprovação científica e experimental da existência dos buracos negros”, afirma o pesquisador.
Mesmo com o avanço tecnológico dos últimos 50 anos, a estrutura básica da teoria quase não muda desde a década de 1970. Naquele período, físicos como Stephen Hawking e Roger Penrose ajudaram a construir um “manual de instruções” para esses corpos extremos. Desde então, a astronomia passa boa parte do tempo checando, com telescópios e supercomputadores, as fórmulas escritas no quadro negro.
Onde a matemática corre na frente da observação
A mesma equação que descreve a queda irremediável em um buraco negro também permite imaginar seu oposto. O buraco branco nasce justamente dessa continuação matemática. Em vez de puxar tudo para dentro, ele só deixaria escapar energia e matéria, sem permitir a entrada de nada. No céu, porém, não há rastro desse tipo de objeto.
Nemmen não poupa o conceito de formalidades. “Chamar buraco branco de hipótese é até um elogio”, afirma. A ideia não surge de observações, mas de soluções exóticas das equações da relatividade. São exercícios elegantes no papel, sem apoio em medições. O pesquisador classifica o buraco branco como uma curiosidade matemática, e não como algo em fase de busca sistemática pelos telescópios.
Os buracos de minhoca ocupam um lugar intermediário entre a disciplina e o cinema. Também aparecem como soluções possíveis das mesmas equações, só que em cenários altamente idealizados. Seriam túneis no tecido do espaço-tempo, conectando regiões muito distantes do Universo, ou até pontos diferentes no tempo. Na prática, funcionariam como atalhos cósmicos, em que a viagem entre dois pontos levaria menos tempo do que a luz gastaria pelo caminho convencional.
Séries como “Dark” e “Stranger Things” exploram essa imagem com liberdade criativa. Em linguagem simples, Nemmen traduz assim a metáfora: imagine duas folhas de papel paralelas, representando duas realidades. Um buraco de minhoca seria o túnel que liga essas folhas, encurtando o caminho. “É uma ótima ideia que roteiristas e escritores usam para fazer os personagens viajarem rapidamente entre dois pontos do universo”, resume.
Fora das telas, não há nenhum sinal observacional de que esses túneis existam. Até aqui, nenhum telescópio, radiotelescópio ou detector de ondas gravitacionais encontrou algo que só faria sentido caso um buraco de minhoca estivesse em ação. A teoria permite, mas o Universo, por enquanto, não confirma.
Impacto para o público e para a própria ciência
A distinção entre o que é observado e o que permanece no quadro negro parece detalhe técnico, mas tem efeitos concretos. Ao embaralhar buracos negros, brancos e de minhoca, a ficção ajuda a espalhar, sem querer, uma confusão que chega às salas de aula e às redes sociais. A entrevista de Nemmen tenta justamente separar esses níveis de realidade.
Para o leitor comum, a mensagem central é simples: buracos negros são parte do inventário comprovado do cosmos, enquanto buracos brancos e de minhoca seguem na prateleira das ideias em teste. A diferença não é de fascínio, mas de evidência. Buracos negros já aparecem em imagens, em gráficos de ondas gravitacionais e em cálculos de massa e rotação feitos com precisão. Os outros dois conceitos ainda dependem, exclusivamente, de manipulações teóricas.
A clareza interessa também à própria pesquisa. Quando a sociedade entende o que está estabelecido e o que ainda é especulativo, fica mais fácil apoiar projetos ambiciosos. O Event Horizon Telescope, por exemplo, envolve mais de 300 cientistas e dezenas de antenas, com custo de dezenas de milhões de dólares ao longo de mais de uma década. Detectores de ondas gravitacionais operam com orçamentos semelhantes, financiados justamente pela confiança na relevância desses fenômenos reais.
Ao mesmo tempo, a divulgação responsável abre espaço para a curiosidade. Estudantes que assistem a séries de ficção científica muitas vezes chegam às universidades com perguntas sobre viagens no tempo, multiversos e buracos de minhoca. A tarefa de pesquisadores como Nemmen é transformar esse encanto disperso em interesse por física, matemática e programação. Quanto mais claro for o limite entre ciência e roteiro, maior a chance de essa curiosidade render novas carreiras científicas.
Próximos passos no estudo dos extremos cósmicos
Os buracos negros seguem na linha de frente da pesquisa observacional. Novas campanhas do Event Horizon Telescope, previstas para a segunda metade da década de 2020, tentam registrar filmes curtos do material girando ao redor desses objetos, não apenas imagens estáticas. Detectores como LIGO e Virgo passam por atualizações para aumentar a sensibilidade e dobrar o número de colisões detectadas a cada ano.
Nesse cenário, a grande fronteira está nas regiões microscópicas próximas ao horizonte de eventos, onde a relatividade geral encontra a mecânica quântica. Nemmen lembra que “algumas vezes a teoria vai na frente e, em outras, as observações surpreendem e nos obrigam a voltar ao quadro”. Buracos de minhoca e brancos, se existirem, talvez se revelem justamente quando a física conseguir descrever essas escalas extremas com mais detalhe.
Enquanto esse momento não chega, a astrofísica parece seguir um roteiro menos espetacular, mas mais sólido, guiado por imagens, gráficos e números. As próximas descobertas devem manter o fascínio, ainda que contrariem parte do imaginário criado pela ficção. A pergunta que fica é se o Universo real, com seus buracos negros bem documentados, não é, no fim das contas, mais surpreendente do que qualquer atalho inventado na tela.
