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Implosão do Torre Palace encerra era de luxo e abandono em Brasília

O antigo Hotel Torre Palace, primeiro hotel de luxo de Brasília, é implodido às 10h deste domingo (25/1), no Setor Hoteleiro Norte. A demolição controlada encerra 13 anos de abandono e abre espaço para a reocupação de uma área estratégica no coração da capital federal.

Fim de um ícone na paisagem central

O relógio marca a hora exata em que o prédio começa a ruir. Em poucos segundos, a estrutura que já simboliza conforto e sofisticação na jovem capital vira uma nuvem de poeira e escombros. De pontos próximos à Torre de TV, moradores e curiosos acompanham em silêncio a contagem regressiva, como se assistissem a uma cena de cinema ao vivo.

A implosão usa 165 quilos de explosivos, distribuídos em cerca de mil furos nos pilares do edifício. O acionamento segue um roteiro milimetrado e lembra a vinheta de abertura de um programa de TV. Drones e um helicóptero registram de cima o colapso progressivo dos andares, enquanto a estrutura desaba sobre si mesma e evita danos maiores aos prédios vizinhos.

O Torre Palace nasce em 1973, idealizado pelo empresário libanês Jibran El-Hadj, em uma Brasília ainda em construção de sua vida social. O hotel recebe autoridades, festas, casamentos e encontros de negócios. Com o passar das décadas, perde brilho, acumula dívidas e, após o fechamento, entra em um labirinto de disputas judiciais entre sete herdeiros. A combinação de litígio prolongado e falta de investimento transforma o antigo símbolo de luxo em um esqueleto abandonado em área tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Com as janelas quebradas, infiltrações e estruturas expostas, o prédio vira sinônimo de risco. Vizinhos e comerciantes relatam ocupações irregulares, uso de drogas e furtos na região. A imagem do hotel em ruínas contrasta com o traçado monumental de Brasília e ajuda a cristalizar a sensação de abandono no setor central da cidade.

Segurança máxima e cidade em observação

A manhã de domingo começa com bloqueios de trânsito e sirenes programadas. A Secretaria de Segurança Pública determina um raio de isolamento de até 300 metros ao redor do prédio. Alertas sonoros e mensagens por celular começam a ser disparados três minutos antes da implosão. A ordem é clara: ninguém pode permanecer na zona de risco.

O plano envolve uma força-tarefa que reúne Detran, Defesa Civil, Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de Bombeiros. A corporação mobiliza 55 militares e seis viaturas para o entorno imediato, preparada para agir em caso de incêndio, desabamento parcial ou feridos. Equipes da 5ª Delegacia de Polícia permanecem nas imediações para qualquer ocorrência ligada à operação ou a crimes oportunistas na área interditada.

As mudanças no trânsito redesenham a rotina da região por algumas horas. A via N1 é parcialmente bloqueada e os acessos ao Setor Hoteleiro Norte pelas N1 e N2 são interditados desde o sábado. Motoristas que circulam pela W3 Norte são desviados para a N2, e estacionamentos próximos ficam vazios por determinação preventiva, diante da possibilidade de que fragmentos de concreto alcancem áreas vizinhas.

Mesmo com as restrições, a demolição se transforma em atração pública. Grupos de moradores se concentram em trechos considerados seguros, principalmente nas proximidades da Torre de TV. De celulares na mão, acompanham o momento em que o símbolo de uma época desaparece do horizonte.

A escrevente Clécia Freitas, 49 anos, decide usar o domingo para assistir à cena que conhece apenas por filmes e reportagens. “É uma coisa que, para mim, nunca tinha visto antes. Apesar de já terem ocorrido outras implosões aqui em Brasília, hoje, como é domingo, eu resolvi vir”, conta. Ela conhece parte da história do prédio e acompanha as notícias sobre o abandono. “Eu sei que ele foi inaugurado em 1973 e que ficou abandonado por divergências na família. A gente acompanha um pouco essas informações.”

Para Clécia, a implosão não é só espetáculo. Representa também uma resposta a um problema de segurança que se espalha pela cidade. “É importante para não ter pessoas morando dentro e para garantir a segurança. Aqui em Brasília tem crescido muito o problema com usuários de drogas e moradores de rua, e esses prédios abandonados acabam virando ponto disso”, avalia.

Ao lado da mãe, a funcionária pública Isabel Rigotti, 45 anos, leva os filhos adolescentes, Ayla Suyane e Ítalo, ambos de 16 anos, para acompanhar o evento. Ela explica a motivação da família. “É um prédio histórico, né? E aqui em Brasília uma explosão dessas acaba virando um atrativo. Todo mundo vem para ver”, afirma. A curiosidade, no caso dela, se mistura com incômodo. “A gente acompanhou a situação do prédio. Teve moradores de rua ali, ficou abandonado por muito tempo. Hoje é uma sucata no meio da cidade.”

Revitalização urbana e disputa pelo futuro da área

Com o Torre Palace no chão, a paisagem do Setor Hoteleiro Norte muda de imediato. Onde até a véspera havia um bloco oco de concreto, restam pilhas de entulho, poeira suspensa e máquinas pesadas já posicionadas para iniciar a limpeza. A demolição não resolve de uma vez a complexa disputa entre herdeiros nem define, por si só, o destino do terreno. Mas destrava um impasse que atravessa 13 anos e pressiona o poder público e investidores a tomar decisões rápidas.

A área, próxima ao Eixo Monumental e integrada ao circuito turístico da Torre de TV, é uma das mais estratégicas da região central. Urbanistas defendem que a demolição pode abrir caminho para um projeto que combine hotelaria, comércio e serviços, com uso mais intenso do espaço público e calçadas ativas. Secretarias do governo local veem na operação um exemplo de como enfrentar o passivo de imóveis abandonados, que somam dezenas de endereços em diferentes áreas do Distrito Federal.

O histórico do Torre Palace alimenta debates sobre planejamento urbano e responsabilidade compartilhada entre iniciativa privada e Estado. Durante anos, o prédio simboliza o que acontece quando disputas patrimoniais, falta de fiscalização e ausência de políticas de reocupação se encontram. O resultado é um volume gigantesco, vazio, em área nobre, funcionando como abrigo improvisado e foco de criminalidade.

Especialistas em segurança pública ouvidos em outras ocasiões apontam que estruturas abandonadas como o Torre Palace operam como bolsões de clandestinidade. Ali se concentram usuários de drogas, receptadores de itens roubados e pessoas em situação de rua sem qualquer apoio formal. A implosão, nesse sentido, não é só um ato técnico. Representa uma tentativa de reordenar o espaço urbano, reduzir oportunidades para práticas ilegais e sinalizar que imóveis degradados em áreas centrais não serão mais tolerados indefinidamente.

Moradores e comerciantes do entorno já projetam ganhos concretos. A expectativa inclui melhora na sensação de segurança, valorização de imóveis e maior fluxo de turistas em uma região que reúne hotéis, shoppings e equipamentos culturais. A limpeza completa da área e a retirada dos escombros, prevista para ocorrer em etapas nas próximas semanas, serão o primeiro teste da capacidade do poder público de transformar o gesto simbólico em mudança prática.

Próximos capítulos para o Setor Hoteleiro Norte

O dia da implosão marca o fim de uma estrutura física, mas inaugura uma nova disputa sobre o uso de um terreno cobiçado. Discussões entre os sete herdeiros, eventuais investidores e o governo local devem ganhar ritmo com o vazio aberto no coração do Setor Hoteleiro Norte. Projetos para o espaço precisam respeitar o tombamento de Brasília e dialogar com o conjunto urbanístico reconhecido como patrimônio mundial.

O governo do Distrito Federal é pressionado a apresentar, nas próximas semanas, diretrizes claras para a reocupação da área e para outros imóveis em situação semelhante. A operação bem-sucedida no Torre Palace funciona como vitrine, mas também como compromisso público com a revitalização do centro. A resposta que sair daqui pode definir se a implosão será lembrada apenas como espetáculo de domingo ou como o ponto de virada na forma como Brasília lida com seus prédios vazios.

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