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Após 7 anos, Bombeiros encerram buscas por desaparecidos de Brumadinho

O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais encerra, neste 25 de janeiro de 2026, as buscas em Brumadinho, sete anos após o rompimento da barragem da Vale. As duas últimas vítimas seguem desaparecidas.

Fim de uma frente de trabalho que dura sete anos

O anúncio é feito na mesma data em que, em 2019, a onda de lama destrói parte de Brumadinho, deixa 272 mortos e muda a história da região. A decisão vem depois de uma varredura completa dos rejeitos, em uma operação que se torna a mais longa já realizada pelo Corpo de Bombeiros do estado em um único desastre.

Os militares confirmam que 100% da área atingida passa por inspeção, com auxílio de máquinas, cães farejadores, drones, mapeamento em 3D e análises de solo. Mesmo assim, os restos das duas últimas vítimas não são localizados. Entre os bombeiros, o sentimento é de dever cumprido, misturado à frustração de não entregar às famílias o desfecho que elas esperam.

Ao longo de sete anos, cerca de 600 bombeiros se revezam na região, em turnos diários, sob sol, chuva e poeira fina de rejeito. A rotina inclui escavações milimétricas, peneiramento de lama e checagem de qualquer indício que possa apontar para vestígios humanos. Cada avanço é comunicado às famílias, que acompanham de perto a evolução dos trabalhos.

Na cúpula da corporação, a avaliação é que o limite técnico foi alcançado. Especialistas em geologia e engenharia apontam que a lama remanescente se encontra dispersa em profundidades e áreas onde não há mais parâmetros de busca viáveis. “Nós chegamos ao ponto máximo que a ciência e a técnica permitem hoje”, afirma um oficial envolvido desde os primeiros dias da operação.

Uma ferida aberta para famílias e para a cidade

O encerramento das buscas marca um momento simbólico para Brumadinho. A cidade de pouco mais de 40 mil habitantes convive desde 25 de janeiro de 2019 com cruzes, memoriais improvisados e a lembrança diária do mar de lama que arrasta casas, plantações, veículos e trabalhadores. Para muitas famílias, a ausência de um corpo impede o luto completo.

Representantes de parentes das vítimas dizem que a notícia é recebida com dor, mas sem surpresa. Ao longo dos últimos anos, boletins periódicos indicam ritmo cada vez menor de novas localizações. “Sabíamos que esse dia ia chegar, mas isso não diminui o vazio de não ter onde acender uma vela”, relata uma familiar que acompanha as reuniões com os bombeiros desde o início.

O trabalho ininterrupto de busca se torna também um símbolo de compromisso do estado com a memória das vítimas. O quartel monta estruturas permanentes na região, organiza turnos, cria protocolos específicos para lidar com rejeito de mineração e passa a ser referência internacional em operações de longa duração em áreas de desastre. A tragédia de Brumadinho passa a ser citada em cursos, seminários e estudos sobre segurança de barragens.

O contraste entre o esforço de resgate e a lentidão na responsabilização judicial alimenta a indignação entre parentes e moradores. Um acordo de reparação bilionário é firmado entre a mineradora e o governo de Minas, mas parte das famílias considera que medidas de apoio psicológico, habitação e renda não compensam a perda e não se traduzem, na mesma velocidade, em mudanças estruturais na fiscalização de barragens.

Nas ruas da cidade, a impressão é de que o fim das buscas fecha um capítulo prático, sem encerrar a história. Bares, pousadas e comércios que, antes do rompimento, dependiam do turismo do Inhotim e da atividade da mineração, ainda tentam se reposicionar. A marca da lama, mesmo invisível, segue na paisagem e na economia local.

Memória, justiça e o que muda daqui em diante

O encerramento oficial da operação reforça questionamentos sobre a prevenção de novos desastres e a efetividade das regras de segurança de barragens no país. O Brasil tem centenas de estruturas de rejeitos em operação, muitas ainda em modelo similar ao usado em Brumadinho em 2019. A tragédia leva à revisão de normas, à criação de leis mais rígidas e ao anúncio de planos de descomissionamento, mas o ritmo de implementação segue desigual entre estados e empresas.

Organizações ambientais e especialistas em gestão de risco defendem que a memória das 272 vítimas, incluindo as duas que seguem desaparecidas, deve orientar políticas públicas. Para eles, a data em que os bombeiros se retiram da lama precisa ser, também, um ponto de virada na forma como o país lida com mineração, licenciamento e fiscalização. “O fim das buscas não pode significar o fim do debate”, diz um pesquisador que acompanha o caso desde o rompimento.

Para as famílias, a ausência de novas frentes de campo desloca o foco para o Judiciário e para as mesas de negociação. Processos civis e criminais continuam a tramitar, acordos de reparação seguem em revisão e novas ações são apresentadas à medida que surgem estudos sobre impactos de longo prazo na saúde, no meio ambiente e na estrutura social da região.

O Corpo de Bombeiros informa que a documentação de toda a operação, com mapas, relatórios, registros de achados e protocolos desenvolvidos ao longo dos sete anos, será preservada e disponibilizada para instituições de pesquisa e órgãos de controle. O material pode orientar respostas futuras a desastres e servir como base técnica para aprimorar normas de segurança.

Os próximos anos devem mostrar se as promessas feitas desde 2019 se transformam em barragens mais seguras, fiscalização efetiva e punições exemplares em casos de negligência. Em Brumadinho, o fim das buscas não apaga a memória do dia em que a lama desceu, nem a pergunta que permanece, sete anos depois: quanto vale, para o país, evitar que uma tragédia assim se repita?

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