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Nikolas inicia reta final de caminhada a Brasília sob tensão política

Nikolas Ferreira inicia neste domingo (25), em Brasília, a última etapa de uma caminhada de cerca de 240 km contra decisões do STF sobre o 8 de Janeiro. O ato, que termina na Praça do Cruzeiro, reúne apoiadores de Jair Bolsonaro e amplia a pressão política em torno das condenações pelos ataques à Praça dos Três Poderes.

Caminhada ganha peso político na reta final

O deputado federal do PL de Minas Gerais chega ao Distrito Federal depois de seis dias de trajetória, iniciada na segunda-feira (19) em Paracatu, no Noroeste mineiro. O percurso, amplamente transmitido nas redes sociais, transforma um gesto simbólico em palanque móvel para contestar o Supremo Tribunal Federal e reforçar o apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro, preso em Brasília.

A parada final ocorre na Praça do Cruzeiro, na zona cívico-administrativa da capital. Ali, Nikolas e outros líderes da oposição planejam discursos a uma plateia formada por militantes bolsonaristas, parlamentares e eleitores mobilizados nas últimas semanas. A manifestação mira diretamente as decisões do STF sobre os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e, em especial, a condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado após a derrota nas eleições de 2022.

Ao longo do trajeto, Nikolas ajusta o tom do discurso e passa a conectar o protesto a outros temas da agenda da oposição. Em conversa com jornalistas, na manhã deste domingo, ele afirma que o movimento cumpre sua finalidade antes mesmo do ato final. “O objetivo foi alcançado antes mesmo do ato final, que é despertar as pessoas, abrir seus olhos para o que está acontecendo”, diz.

O deputado cita o caso do Banco Master, alvo de questionamentos da oposição, e fala em “contratos milionários com esposas de ministros, como a do Alexandre de Moraes”. Menciona ainda “escândalo do INSS, mesadinha para filho de Lula, impostos em cima das pessoas”, numa tentativa de ampliar o alcance do protesto para além da pauta do 8 de Janeiro. As acusações, feitas sem apresentação de provas no ato, miram diretamente a imagem do Supremo e do governo federal.

Tensão em Brasília e uso de colete à prova de balas

O clima na capital federal reflete a escalada de tensão. No sábado (24), um dia antes da manifestação, o Palácio do Planalto instala grades de proteção ao redor da sede do Executivo. A barreira metálica redesenha a Esplanada em pleno fim de semana e remete aos cordões de isolamento montados em momentos de crise recente na Praça dos Três Poderes.

O Gabinete de Segurança Institucional informa que a medida ocorre “em virtude da possibilidade de manifestações programadas em locais próximos à instalação presidencial”. Na prática, a proteção antecipa possíveis deslocamentos em massa de manifestantes e serve de sinal visível de que o Planalto não pretende ser surpreendido por aglomerações repentinas.

Nikolas, por sua vez, adiciona um elemento dramático à caminhada ao passar a usar colete à prova de balas nos últimos dias do trajeto até Brasília. A assessoria do deputado afirma que a decisão é preventiva e decorre de ameaças recentes feitas contra ele. A origem e a autoria dessas ameaças não são divulgadas, mas o gesto reforça o clima de confronto político e alimenta a narrativa de perseguição usada por parte da oposição.

Desde que deixou Paracatu, o parlamentar transforma a estrada em vitrine política. A cada parada, grava vídeos, concede entrevistas improvisadas e repete a crítica central às condenações do STF. O Complexo da Papuda, em Brasília, onde Bolsonaro cumpre pena, funciona como pano de fundo simbólico para o ato, mesmo sem previsão de qualquer movimentação oficial em relação à situação jurídica do ex-presidente.

A caminhada de aproximadamente 240 km, feita em etapas e acompanhada por apoiadores em carros, ônibus e motocicletas, ecoa a estratégia bolsonarista de ocupar ruas e rodovias para demonstrar força. O formato permite contato direto com simpatizantes em pequenas cidades e nas saídas de Brasília, convertendo o protesto em termômetro informal da base mais fiel do bolsonarismo.

Disputa de narrativa e impactos políticos

O ato de encerramento em Brasília se insere em ambiente ainda marcado pela memória dos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes são depredadas. Desde então, o STF conduz centenas de processos e determina prisões e condenações em série. Para Nikolas e seus aliados, essas decisões configuram excessos e perseguição ao campo bolsonarista; para o Supremo e para o governo, são resposta necessária a uma tentativa de ruptura institucional.

O foco declarado da manifestação é a revisão das condenações e a defesa política de Jair Bolsonaro. A oposição tenta transformar o caso em bandeira unificadora, enquanto o governo busca manter o tema no campo estritamente judicial. Na prática, a caminhada pressiona parlamentares, alimenta debates nas redes sociais e amplia o custo político de qualquer flexibilização futura em relação aos condenados.

A mobilização também impacta a segurança pública em Brasília. Órgãos de controle monitoram a chegada de caravanas de diversos estados e calculam riscos de bloqueios de vias, tentativas de avanço sobre áreas de segurança e confrontos com grupos contrários. As grades no Planalto sinalizam que o governo prefere prevenir novas cenas de descontrole, ainda que a manifestação, até o momento, seja divulgada como pacífica pelos organizadores.

O gesto de Nikolas encontra eco em eleitores que veem no 8 de Janeiro uma punição desproporcional e enxergam Bolsonaro como vítima do sistema de Justiça. Para críticos do movimento, a caminhada é tentativa de reabilitar politicamente um ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado, sob o disfarce de manifestação pela liberdade. Entre esses polos, cresce a preocupação de autoridades com a normalização de discursos que relativizam ataques à ordem democrática.

Próximos passos e cenário em aberto

O encerramento da caminhada na Praça do Cruzeiro deve servir como vitrine para novos discursos da oposição, que promete manter o caso Bolsonaro no centro da agenda em 2026. A expectativa é de que Nikolas e outros parlamentares usem o palanque para anunciar novos atos, reforçar a campanha contra o STF e convocar a base bolsonarista para mobilizações futuras em Brasília e nas capitais.

O Supremo, por sua vez, mantém em andamento recursos e processos ligados aos atos de 8 de janeiro, enquanto ministros acompanham o avanço das narrativas políticas sobre o tema. A decisão do ministro Edson Fachin de deixar em aberto uma possível revisão de decisões do colega Dias Toffoli em outro caso, ligado ao Banco Master, alimenta debates sobre os limites e a transparência da atuação da Corte.

O desfecho da manifestação deste domingo não altera, de imediato, o quadro jurídico de Bolsonaro e dos demais condenados. A caminhada, contudo, reforça o lugar do 8 de Janeiro como ponto de fratura permanente na política brasileira e mostra que a disputa sobre o significado daquele dia está longe de se encerrar. A partir de agora, a questão é saber se as ruas continuarão a ditar o ritmo desse embate ou se o foco volta a se concentrar nas decisões dos tribunais.

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