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Trump ameaça tarifa de 100% e eleva tensão comercial com Canadá

Donald Trump ameaça impor tarifas de até 100% sobre produtos canadenses em 24 de janeiro de 2026. O alvo declarado é conter exportações chinesas que usam o Canadá como porta de entrada para o mercado americano.

Pressão direta sobre Ottawa em meio à disputa com Pequim

A nova ofensiva parte de uma declaração publicada por Trump na plataforma Truth Social, usada como principal canal de comunicação política pelo presidente dos Estados Unidos. Ele acusa empresas chinesas de desviar mercadorias para o Canadá e, de lá, reenviar aos EUA para escapar de barreiras já impostas a produtos fabricados na China.

O aviso eleva de forma abrupta a tensão comercial na América do Norte. Estados Unidos e Canadá movimentam, juntos, mais de US$ 800 bilhões por ano em bens e serviços, segundo dados recentes de comércio bilateral. O surgimento de uma tarifa de 100% sobre uma fatia relevante desse fluxo pode atingir em cheio cadeias produtivas integradas há décadas, do setor automotivo ao agronegócio.

Histórico de tarifas e novo foco no vizinho do Norte

Trump volta a usar a ameaça tarifária como instrumento de pressão, estratégia que marca sua política econômica desde o primeiro mandato. Entre 2018 e 2019, ele abre uma guerra de tarifas com a China, eleva impostos de importação a patamares próximos de 25% em centenas de produtos e arrasta aliados para disputas semelhantes. O Canadá, naquela época, também sente o impacto no aço e no alumínio antes de chegar a um acordo provisório.

O movimento atual tem um alvo diferente, mas ecoa a mesma lógica. Ao mirar o Canadá, Trump busca fechar eventuais brechas usadas por fabricantes chineses para acessar o mercado americano indiretamente. O presidente afirma que não aceitará que “países terceiros” funcionem como rota de fuga para mercadorias chinesas e ameaça responder com tarifas chamadas por ele de “punitivas e imediatas”. A mensagem mexe com o centro da estratégia comercial canadense, baseada justamente em acordos amplos com Washington e em participação em cadeias globais com forte presença asiática.

O aviso também coloca pressão sobre o governo canadense, que precisa equilibrar a relação histórica com os EUA com o interesse em manter laços econômicos robustos com a China. Desde a entrada em vigor do novo acordo de livre comércio norte-americano, em 2020, o Canadá reforça salvaguardas e mecanismos de consulta com Washington e Cidade do México, mas preserva espaço para negociar com Pequim em setores como energia limpa, mineração e tecnologia.

Impacto sobre comércio, empregos e mercados

Se a tarifa de 100% sair do papel, o choque pode ser imediato. Exportadores canadenses de aço, alumínio, madeira, produtos agrícolas e peças automotivas veem o risco de perder competitividade de um dia para o outro. Um lote de US$ 10 milhões em mercadorias passaria a enfrentar uma sobretaxa equivalente, praticamente dobrando o custo final nos Estados Unidos e tornando o produto inviável para distribuidores e consumidores.

Fabricantes americanos também sentem o baque. Muitos dependem de insumos e componentes vindos de plantas instaladas em território canadense, que funcionam como extensão de suas linhas de produção. Cadeias de montagem de veículos, caminhões e máquinas agrícolas trabalham com prazos apertados e estoques mínimos. Qualquer aumento brusco de custo ou atraso na fronteira pode se traduzir em linhas paradas, demissões e repasse de preços ao consumidor, especialmente em estados industriais do Meio-Oeste.

O recado de Trump reverbera nos mercados financeiros. Investidores avaliam a possibilidade de uma escalada tarifária que vá além do Canadá e reabra a frente de conflito com Pequim em 2026. A perspectiva de novos impostos sobre importações costuma pressionar bolsas, afetar empresas com forte exposição internacional e fortalecer a busca por ativos considerados mais seguros, como títulos públicos americanos.

Canadá entre dois gigantes e o que vem a seguir

A ameaça de Washington empurra Ottawa a revisar estratégias. O governo canadense tende a reforçar mecanismos de rastreio de origem dos produtos e a ampliar a troca de informações com autoridades americanas para provar que não há triangulação ilegal. Empresas instaladas no país podem ser pressionadas a detalhar, com mais precisão, cadeias de fornecimento, contratos com fabricantes chineses e participação de insumos asiáticos em produtos destinados aos EUA.

Negociadores canadenses avaliam alternativas para reduzir a exposição a uma tarifa de 100%. Uma saída passa por diversificar mercados, aumentando o peso da Europa e de países do Indo-Pacífico nas exportações. Outra envolve buscar salvaguardas dentro dos mecanismos previstos no acordo de livre comércio norte-americano, que prevê consultas e painéis de disputa antes de medidas unilaterais mais duras.

Trump, por sua vez, transforma a ameaça em ativo político interno. Ao prometer agir contra a China, mesmo por meio de pressão sobre o Canadá, fala diretamente a eleitores que veem na globalização a causa de perda de empregos industriais desde os anos 1990. A ofensiva abre mais um capítulo de uma disputa que, iniciada por tarifas e declarações em redes sociais, tende a migrar para mesas de negociação, tribunais de comércio e decisões de investidores. A dúvida agora é até onde Washington está disposto a ir para conter Pequim sem quebrar pontes com seu aliado mais próximo.

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